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IPEN 70 ANOS: em 2020, resposta institucional à Pandemia e continuidade científica e tecnológica
O ano de 2020 teve início, para o IPEN, com a continuidade de suas atividades tradicionais de pesquisa, formação acadêmica, produção de radiofármacos e desenvolvimento de tecnologias nucleares. A chegada da Covid-19 ao Brasil, contudo, alterou profundamente a rotina do Instituto. A partir de março, o IPEN passou a operar sob o regime administrativo excepcional estabelecido pela CNEN, adotando trabalho remoto nas funções compatíveis, reduzindo a circulação de pessoas e mantendo presencialmente apenas as atividades consideradas essenciais. Posteriormente, foram instituídos o uso obrigatório de máscaras e outras medidas sanitárias para o ingresso e a permanência nas instalações da complexo do Instituto.
A principal prioridade operacional foi manter em funcionamento o Centro de Radiofarmácia, responsável por aproximadamente 85% do fornecimento brasileiro de radiofármacos empregados em diagnósticos e tratamentos de medicina nuclear. Em 21 de março, o Instituto comunicou que a produção continuaria com equipes mínimas e horários restritos. A medida assegurou o atendimento a pacientes com câncer e doenças cardíacas, renais, neurológicas e da tireoide, evitando que a emergência causada pelo coronavírus provocasse uma crise paralela nos hospitais e clínicas dependentes desses produtos.
O principal risco ao abastecimento de radiofármacos surgiu com o cancelamento de voos internacionais, uma vez que o IPEN importa radioisótopos da África do Sul, Rússia e Holanda. Em uma operação articulada pelo Instituto, pela CNEN e por diferentes órgãos do governo federal, um voo destinado à repatriação de brasileiros transportou também cerca de 400 quilogramas de materiais radioativos e suas respectivas blindagens. A carga, composta por aproximadamente 300 quilogramas relacionados ao molibdênio-99 e 100 quilogramas ao iodo-131, chegou ao Centro de Radiofarmácia em 6 de abril de 2020 e permitiu a continuidade da produção nacional.
Apesar das restrições, as atividades científicas e tecnológicas do IPEN não se limitaram à resposta à pandemia. Em 2020, avançaram os estudos para a implantação da produção automatizada do radiofármaco FES-18F, por exemplo, destinado à realização de exames PET (Positron Emission Tomography) para a avaliação de tumores de mama com receptores de estrogênio. Os lotes experimentais apresentaram elevada pureza radionuclídica e radioquímica, atenderam aos critérios de controle de qualidade e demonstraram estabilidade por até seis horas. Os resultados constituíram uma etapa importante para a futura incorporação do produto à rotina do Centro de Radiofarmácia e para seu processo de registro sanitário.
Na área de terapias oncológicas, pesquisadores do Instituto também estabeleceram, em 2020, condições para o controle radionuclídico do DOT-IPEN-177, radiofármaco baseado em lutécio-177 destinado ao tratamento de tumores neuroendócrinos e de próstata. Os resultados foram apresentados no 34º Congresso Brasileiro de Medicina Nuclear, realizado em formato virtual naquele ano, e atenderam aos critérios da Farmacopeia Europeia. O IPEN desenvolveu ainda avaliações dosimétricas dos equipamentos e das blindagens de seu Laboratório Piloto de Produção de Radiofármacos, abrangendo radioisótopos como gálio-68, flúor-18, iodo-123, lutécio-177, cobre-64, zircônio-89 e actínio-225, reforçando a preparação técnica para a pesquisa e a produção de novos medicamentos radioativos.
Assim, mesmo sob as limitações impostas pela emergência sanitária mundial, o IPEN conciliou a proteção de seus trabalhadores, a manutenção do abastecimento nacional de radiofármacos e a continuidade de sua produção científica. A experiência de 2020 evidenciou, simultaneamente, a vulnerabilidade brasileira decorrente da dependência de radioisótopos importados e a importância estratégica do Instituto para a medicina nuclear, a pesquisa tecnológica e a formação de especialistas no país, bem como a demais serviços especializados para a sociedade.