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IPEN 70 ANOS: em 2021, avanços institucionais em um ano de crise
Em 2021, a histórica relação entre o IPEN e a Universidade de São Paulo ganhou uma nova frente com a entrada da Engenharia Nuclear na estrutura de formação da Escola Politécnica. A habilitação havia sido aprovada pelo Conselho Universitário da USP em junho do ano anterior e passou a integrar, a partir daquele ano, a carreira de Engenharia de Materiais, Metalúrgica e Nuclear. Sua implantação resultava de uma articulação entre a Poli e o IPEN, que colocou à disposição do novo curso não apenas a experiência de seus pesquisadores, alguns deles responsáveis por disciplinas da formação, mas também laboratórios e instalações especializadas. A parceria ampliava, para a graduação, uma cooperação acadêmica que, havia décadas, encontrava na pós-graduação em Tecnologia Nuclear um de seus principais espaços de formação de recursos humanos.
Na pós-graduação, essa atividade também continuava a se expandir. Em maio, o IPEN abriu o processo seletivo para a terceira turma do Mestrado Profissional em Tecnologia das Radiações em Ciências da Saúde, criado para aproximar a formação especializada das aplicações das radiações em diagnóstico, terapia e outras práticas do setor. Com início das aulas previsto para agosto, o programa recebia profissionais de diferentes áreas da saúde e das ciências exatas, consolidando uma iniciativa que havia começado apenas dois anos antes.
Em junho, o Instituto recebeu um importante reconhecimento por sua trajetória. Por seus relevantes serviços prestados à Marinha do Brasil, o IPEN foi agraciado com a Ordem do Mérito Naval, uma das principais condecorações concedidas pelo Estado brasileiro. A cerimônia ocorreu no dia 11 daquele mês, no Comando do 8º Distrito Naval, em São Paulo, e, entre as 13 organizações homenageadas, o Instituto foi a única instituição não militar. A homenagem evocava uma cooperação construída ao longo de mais de meio século e associada a diferentes etapas do desenvolvimento tecnológico nuclear brasileiro, incluindo trabalhos relacionados ao ciclo do combustível, à pesquisa em reatores e ao Programa Nuclear Brasileiro.
O segundo semestre, entretanto, expôs de maneira particularmente aguda uma das vulnerabilidades que acompanhavam parte dessas atividades. Em setembro, dificuldades financeiras e logísticas levaram o IPEN a comunicar aos serviços de medicina nuclear a suspensão temporária da fabricação e do fornecimento de diversos radiofármacos. A situação atingia uma área na qual o Instituto ocupava uma posição central: naquele momento, era responsável pela maior parte do abastecimento brasileiro desses produtos, alguns deles fornecidos exclusivamente pelo IPEN. A possibilidade de descontinuidade repercutiu rapidamente no setor de saúde, pois envolvia insumos utilizados em procedimentos destinados ao diagnóstico e ao tratamento de diferentes tipos de câncer, doenças cardiovasculares, tromboembolismo pulmonar e outras condições clínicas.
A dimensão dessa questão tornou-se ainda mais evidente porque alguns dos produtos afetados eram fundamentais para a rotina da medicina nuclear. Entre eles estavam compostos marcados com tecnécio-99m, radioisótopo utilizado na maior parte dos procedimentos diagnósticos da especialidade, além de produtos baseados em iodo-131 e lutécio-177. Diante do risco de desabastecimento, foram adotadas medidas excepcionais para ampliar as possibilidades de importação, enquanto a Comissão de Energia Nuclear (CNEN) também autorizou temporariamente a entrada de geradores de tecnécio-99m acima das cotas normalmente destinadas aos serviços de medicina nuclear.
O episódio também recolocou em evidência um problema antigo: a dependência brasileira de radioisótopos produzidos no exterior. O gerador de tecnécio-99m fabricado pelo IPEN, por exemplo, dependia do molibdênio-99 importado. Nesse contexto, o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) voltou ao centro das discussões como uma das soluções de longo prazo para ampliar a autonomia nacional. Em 2021, o empreendimento ainda se encontrava em fase de implantação e desenvolvimento de projetos, embora etapas importantes já tivessem sido concluídas, entre elas o desenvolvimento do combustível nuclear realizado com participação das equipes do IPEN e do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo.
Assim, 2021 expôs com particular clareza duas dimensões da trajetória do IPEN. De um lado, a ampliação da formação de profissionais e o reconhecimento de competências científicas e tecnológicas acumuladas ao longo de décadas; de outro, a fragilidade de atividades estratégicas quando submetidas à insuficiência de recursos e à dependência de insumos externos. A crise dos radiofármacos tornou visível para além do próprio setor nuclear algo que a rotina de hospitais e serviços de medicina nuclear já demonstrava havia anos: tecnologias desenvolvidas e produzidas no Instituto haviam se tornado parte da infraestrutura cotidiana da saúde brasileira, e sua interrupção podia produzir efeitos coletivos, e não apenas institucionais.
Referências:
ESCOLA POLITÉCNICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Poli-USP passa a oferecer habilitação em Engenharia Nuclear. Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.poli.usp.br/noticias/noticiasdapoliusp/poli-passa-a-oferecer-habilitacao-em-engenharia-nuclear/. Acesso em: 19 ago. 2026.
COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR (CNEN). IPEN abre processo seletivo para 3ª turma de Mestrado Profissional em Tecnologia das Radiações em Ciências da Saúde. Brasília, DF, 26 maio 2021. Disponível em: https://www.gov.br/cnen/pt-br/assunto/ultimas-noticias/ipen-abre-processo-seletivo-para-3a-turma-de-mestrado-profissional-em-tecnologia-das-radiacoes-em-ciencias-da-saude/. Acesso em: 19 ago. 2026.
COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR (CNEN). Marinha concede ao IPEN/CNEN a Ordem do Mérito Naval, uma das maiores comendas do Estado brasileiro. Brasília, DF, 12 jun. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/cnen/pt-br/assunto/ultimas-noticias/marinha-concede-ao-ipen-cnen-a-ordem-do-merito-naval-uma-das-maiores-comendas-do-estado-brasileiro/. Acesso em: 19 ago. 2026.

