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IPEN 70 ANOS: em 2009, produção de radiofármacos no IPEN completou cinco décadas
Em 2009, o IPEN celebrou 50 anos de atuação na área da radiofarmácia. O marco inicial dessa trajetória remonta a 1959, quando o então Instituto de Energia Atômica (IEA) produziu, experimentalmente, iodo-131, um dos primeiros radioisótopos destinados a aplicações médicas no Brasil. A partir de 1963, a produção passou a ser realizada de maneira sistemática, contribuindo para a implantação e a expansão da medicina nuclear no país.
Ao longo das cinco décadas seguintes, o IPEN desenvolveu tecnologias para a produção, o controle de qualidade e a distribuição de radioisótopos e radiofármacos utilizados em diagnóstico e tratamento. Essa atuação permitiu abastecer hospitais e clínicas em diferentes regiões do Brasil e formar profissionais especializados em produção radiofarmacêutica, química, engenharia, proteção radiológica e medicina nuclear.
No ano da comemoração do cinquentenário, a produção do Instituto estava associada à realização de mais de 3,5 milhões de procedimentos anuais de medicina nuclear no país. Os radiofármacos fornecidos pelo IPEN eram empregados em exames destinados à avaliação de órgãos e funções metabólicas, bem como em terapias voltadas, entre outras aplicações, ao tratamento de doenças da tireoide e de diferentes tipos de câncer (ÓRBITA, 2009).
A comemoração dos 50 anos evidenciava, assim, não apenas a continuidade de uma atividade científica iniciada na década de 1950, mas também a consolidação de uma infraestrutura estratégica para a saúde pública brasileira. Ao dominar etapas de pesquisa, produção, controle de qualidade e distribuição, o IPEN tornou-se uma instituição fundamental para o desenvolvimento da medicina nuclear no país.
O cinquentenário ocorreu, entretanto, em um contexto de crise mundial no suprimento de molibdênio-99, matéria-prima do tecnécio-99m. A situação era especialmente crítica porque, naquele período, aproximadamente 80% dos exames diagnósticos de medicina nuclear já utilizavam esse radioisótopo. Para reduzir a vulnerabilidade brasileira às importações e assegurar o abastecimento nacional, tornou-se necessário estruturar uma solução de longo prazo (ÓRBITA, 2009).
Embora estudos sobre a necessidade de um novo reator já estivessem sendo desenvolvidos, a crise de 2009 impulsionou e consolidou o projeto do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), coordenado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), com participação técnica decisiva do IPEN. Concebido como um reator de pesquisa do tipo piscina aberta, com potência de até 30 MW, o RMB objetiva assegurar a produção nacional de molibdênio-99 e de outros radioisótopos, além de permitir testes de combustíveis e materiais, pesquisas com feixes de nêutrons e a formação de recursos humanos.
Antes da definição do RMB, o IPEN estudou alternativas para produzir molibdênio-99 no IEA-R1. Uma delas empregava a ativação neutrônica do molibdênio-98 e a fabricação de geradores de tecnécio-99m com gel de molibdato de zircônio. A tecnologia chegou a ser desenvolvida em escala piloto, mas a baixa atividade específica do produto e a capacidade limitada do reator impediram que o processo atendesse, de forma econômica e regular, à demanda nacional.
Também foi analisada a produção por fissão do urânio, capaz de gerar molibdênio-99 com atividade específica mais elevada. Essa rota, porém, exigia instalações radioquímicas dedicadas, células quentes, sistemas de tratamento de rejeitos e uma escala de irradiação superior à que o IEA-R1 poderia oferecer. A constatação dessas limitações contribuiu para que o RMB fosse concebido como uma nova infraestrutura, dimensionada desde a origem para a produção contínua de radioisótopos em escala nacional (DOMINGOS, 2014).
O empreendimento representa não apenas a busca por uma solução nacional e pela substituição de importações, mas também a continuidade, em escala ampliada, da trajetória iniciada pelo IPEN em 1959. Se a produção pioneira de iodo-131 ajudara a estabelecer a medicina nuclear no Brasil, o RMB, cinquenta anos depois, constituiu a infraestrutura necessária para reduzir a dependência externa e garantir a sustentabilidade futura da produção de radiofármacos no país, sobretudo no que se refere ao molibdênio-99.
Enquanto o RMB não entra em operação, a produção de radioisótopos do IPEN permanece distribuída entre o reator IEA-R1 e os aceleradores cíclotron. O Instituto também importa determinados radioisótopos primários, especialmente o molibdênio-99, que é processado em suas instalações para a fabricação dos geradores de tecnécio-99m. O IEA-R1, portanto, desempenhou papel fundamental na trajetória celebrada em 2009, mas não constituiu a única fonte dos radioisótopos empregados na produção atual de radiofármacos pelo Instituto.
Referências:
DOMINGOS, DOUGLAS B. Análises neutrônica e termo-hidráulica de dispositivos para irradiação de alvos tipo LEU de UAlx-Al e U-Ni para produção de Mo-99 nos reatores IEA-R1 e RMB. 2014. 190 f. Tese (Doutorado em Tecnologia Nuclear) - Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN-CNEN/SP, São Paulo. DOI: 10.11606/T.85.2014.tde-17122014-133601. Disponível em: http://repositorio.ipen.br/handle/123456789/23492. Acesso em: 05 ago. 2026.
ÓRBITA. São Paulo: Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, ano VIII, n. 52, maio/jun. 2009.
