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IPEN 70 ANOS: em 1997, desenvolvimento de tecnologias nacionais beneficia a sociedade brasileira
Buscando reduzir a dependência do molibdênio-99 (⁹⁹Mo), radioisótopo importado pelo IPEN desde o início da década de 1980, e criar uma alternativa para a produção dos geradores de tecnécio-99m (⁹⁹ᵐTc), o Instituto avançou, a partir de 1997, no desenvolvimento de uma tecnologia nacional de produção baseada na utilização do próprio reator IEA-R1.
O processo previa a obtenção do molibdênio-99 por meio da irradiação do molibdênio-98 no reator, seguida da incorporação do radioisótopo a um gel de molibdato de zircônio. No gerador do tipo gel, essa matriz reteria o molibdênio e permitiria a retirada periódica do tecnécio-99m por eluição. A técnica possibilitaria concentrar maior quantidade de material na coluna e, assim, aproveitar o radioisótopo produzido no próprio IPEN, via a captura radioativa.
O desenvolvimento dessa alternativa também buscava prevenir possíveis interrupções no fornecimento de um produto cujo consumo vinha crescendo cerca de 25% ao ano desde o início da década de 1990. À época, os pesquisadores do IPEN responsáveis pelos estudos alertavam que, em razão por causa da curta meia-vida do ⁹⁹Mo e da consequente impossibilidade de formação de estoques, qualquer interrupção na produção ou atraso no transporte do radioisótopo do exterior para o Brasil poderia comprometer, em poucos dias, o abastecimento nacional de geradores de tecnécio (CONCILIO; MENDONÇA; MAIORINO, 1999).
O avanço desses estudos pôde ser efetivado também em decorrência do aumento da potência do reator IEA-R1, de 2 para 5 MW, ocorrido em 1997, ano em que o equipamento completava quatro décadas de operação. Primeiro reator nuclear de pesquisa instalado no país, o IEA-R1m reafirmava sua missão como estrutura científica voltada ao desenvolvimento de tecnologias e às aplicações pacíficas da energia nuclear.
Segundo Gordon, a produção nacional de radioisótopos representava não apenas uma conquista tecnológica e científica, mas também uma forma de economizar divisas para o Brasil. No mesmo período, outros avanços de interesse para a medicina partiram da área de bioengenharia do IPEN, destaca a pesquisadora. Entre eles, estavam as pesquisas com biomateriais destinados à fabricação de próteses, desenvolvidas em cooperação com a USP.
Embora a tecnologia desenvolvida no IPEN não tenha substituído, em escala comercial, o molibdênio-99 importado empregado na fabricação dos geradores convencionais, o projeto representou um esforço estratégico para reduzir a dependência externa e ampliar o domínio nacional sobre a produção de radioisótopos destinados à medicina nuclear.
Atualmente, o Instituto continua a importar o molibdênio-99 e é responsável pela produção dos geradores molibdênio-99/tecnécio-99m. Fabricados semanalmente pelo IPEN, os conjuntos de geradores são distribuídos a serviços de medicina nuclear de diferentes regiões do país.
Em outras áreas do IPEN, as atividades de pesquisa, ensino e inovação também continuavam avançando. O programa de pós-graduação IPEN/USP, após duas décadas de trajetória, manteve o conceito A em sua avaliação. Prosseguiram ainda os processos de informatização e os projetos desenvolvidos em parcerias com diferentes instituições.
Ainda em 1997, conforme seu Plano de Emergência Radiológica, o IPEN instalou uma estação meteorológica destinada à coleta de dados sobre ventos, temperatura, umidade, chuvas e outras condições atmosféricas. Essas informações passaram a apoiar a monitoração ambiental e os estudos de dispersão de materiais no ar, contribuindo para a proteção radiológica e para o planejamento de ações em emergências.
Na área de inovação e relacionamento com o setor produtivo, começava tomar forma o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas do IPEN (CIETEC-IPEN). Com recursos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (SEBRAE/SP), um espaço físico do Instituto passa a ser preparado para receber empresas de base tecnológica, lançando os alicerces de uma iniciativa que ganharia importância nos anos seguintes.
Além do SEBRAE/SP outras entidades colaboraram para a implantação da iniciativa, como a USP, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) e a então Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo. Em 2025, a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de São Paulo — USP/IPEN, administrada pelo CIETEC, atingiu o pico de 98 startups ativas.
Referências:
CONCILIO, Roberta; MENDONÇA, Arlindo Gilson; MAIORINO, José Rubens. Estudo da produção de ⁹⁹Mo via captura radioativa no ⁹⁸Mo. In: CONGRESSO GERAL DE ENERGIA NUCLEAR, 7., 1999, Belo Horizonte. Anais [...]. Belo Horizonte, 31 ago.-3 set. 1999. Disponível em: http://repositorio.ipen.br/handle/123456789/13848. Acesso em: 29 jul. 2026.
GORDON, Ana Maria Pinho Leite. Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, 1956-2000: um estudo de caso à luz da ciência, da tecnologia e da cultura brasileira. 2003. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.
INCUBADORA DE EMPRESAS DE BASE TECNOLÓGICA DE SÃO PAULO. Relatório Anual, 2025. Disponível em: https://cietec.org.br/wp-content/uploads/2026/04/Relatorio-Incubadora-2025_VFF-2_compressed.pdf. Acesso em: 29 jul. 2026.
