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Tecnologia nuclear é utilizada pela primeira vez no Chile para preservar corpos humanos mumificados
Uma missão internacional coordenada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e liderada pelo pesquisador Pablo Vasquez, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), realizou, pela primeira vez no Chile, a desinfecção de corpos humanos mumificados utilizando radiação ionizante. O procedimento inédito no continente representa um avanço científico importante para a conservação de coleções bioantropológicas de elevado valor histórico, arqueológico e museológico.
A iniciativa envolveu a colaboração entre o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Centro Nacional de Conservação e Restauração (CNCR), a Comissão Chilena de Energia Nuclear (CCHEN) e o Museu Regional de Antofagasta (MRA), localizado no Chile. O objetivo foi desenvolver um protocolo técnico completo para preservação de nove corpos humanos mumificados pertencentes ao patrimônio cultural chileno.
Os materiais apresentavam sinais de biodeterioração provocada por fungos, bactérias e insetos, resultado de anos de armazenamento e sucessivas contaminações microbiológicas. Pablo Vasques, pesquisador do IPEN/CNEN, explica que parte dos corpos já havia sido submetida anteriormente a processos de fumigação química e tratamentos por anoxia com nitrogênio, porém novas contaminações foram identificadas nos anos seguintes.
Antes da irradiação, especialistas realizaram análises microbiológicas detalhadas nas salas de armazenamento e em diferentes matrizes biológicas dos corpos mumificados. Os resultados indicaram elevadas concentrações de fungos e bactérias no ambiente. Após a aplicação de peróxido de hidrogênio estabilizado, os níveis microbiológicos foram reduzidos a zero.
As análises moleculares também identificaram microrganismos potencialmente associados a riscos ocupacionais, incluindo Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus e espécies do gênero Aspergillus. Segundo o relatório técnico, as maiores cargas microbianas foram encontradas em matrizes ósseas e dentárias, especialmente em amostras relacionadas ao chamado “Niño Histórico”.
Após o processo de higienização e acondicionamento, os nove corpos humanos mumificados foram transportados até a Planta de Irradiação Multipropósito (PIM), operada pela CCHEN em Lo Aguirre, região metropolitana de Santiago. As caixas foram submetidas à radiação gama proveniente de fontes de Cobalto-60, utilizando dose de aproximadamente 20 quiiloGray para desinfecção microbiológica.
O tratamento durou cerca de 20 horas e utilizou um sistema estacionário com rotação manual das embalagens para garantir homogeneidade da dose absorvida. Dosímetros especiais foram utilizados para monitorar o processo.
Resultados da aplicação da tecnologia de irradiação
De acordo com o pesquisador Pablo Vasquez, a principal vantagem da radiação ionizante é sua capacidade de eliminar agentes biológicos deteriorantes sem deixar resíduos químicos, sem provocar ativação radioativa dos materiais tratados e sem comprometer a integridade física dos bens culturais. "Trata-se de uma alternativa segura, eficiente e não invasiva para preservação de corpos humanos mumificados, consolidando-se como uma importante ferramenta científica para conservação do patrimônio cultural na América Latina", ressaltou.
Além da desinfecção, a missão permitiu desenvolver um protocolo internacional de biossegurança e conservação preventiva para manejo de restos humanos patrimoniais. O documento estabelece procedimentos relacionados à cadeia de custódia, transporte especializado, acondicionamento, controle microbiológico, monitoramento ambiental e considerações éticas sobre a manipulação de corpos humanos históricos.
O protocolo também prevê medidas rigorosas de conservação preventiva, incluindo uso obrigatório de respiradores N95/FFP2, controle de umidade, ventilação adequada, aspiração com filtros HEPA e restrição de procedimentos que possam comprometer a estabilidade estrutural dos materiais arqueológicos. Após a irradiação, os materiais foram transportados ao Museu Regional de Antofagasta, onde passaram a ser armazenados em ambiente controlado e monitorado.
Fonte: CNEN