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A Rosatom acredita no potencial nuclear do Brasil e abre espaço para modelos de transferência de tecnologias confiáveis
O nosso Projeto Perspectivas 2026 de hoje traz informações importantes, valiosas mesmo, para o setor nuclear brasileiro, que está vivendo uma realidade montada em uma expectativa há anos para a retomada firme em seu programa nacional. E neste aspecto, a conclusão de Angra 3, é fundamental. A exploração pacífica da energia nuclear também traz em seu bojo diversas outras atividades, como a produção de isótopos para uso da medicina nuclear, por exemplo. E em todas as alternativas nucleares, o Brasil pode dispor de um parceiro internacional de peso. Talvez a maior empresa do mundo neste segmento, a Rosatom. Ela atua em todas as matizes nucleares e mostra a sua experiência em algumas ações no Brasil, como diz o diretor da companhia para a América Latina, Ivan Dybov, convidado para esta entrevista. Ele revela a importância das ações da companhia em 2025: “A nossa vitória na licitação internacional aberta para a conversão do urânio brasileiro…. atuando para o desenvolvimento de todo o ciclo do combustível nuclear nacional.”
Fonte: Petronotícias
Na área da medicina nuclear e na produção de isótopos Dybov lembra que “Mantivemos o fornecimento ininterrupto de produtos isotópicos, apesar das dificuldades objetivas nas liquidações financeiras internacionais. Mantivemos esse curso de forma consciente porque entendemos que se trata de insumos dos quais dependem a saúde das pessoas e o funcionamento do sistema nacional de saúde. É nossa responsabilidade profissional e social. E nós a cumprimos plenamente.” A Rosatom percebe o grande potencial brasileiro no setor nuclear e investe nisso: “Vemos a situação no Brasil com grande otimismo e enxergamos um enorme potencial de crescimento, especialmente no setor de energia. Como parceiros tecnológicos, estamos prontos para contribuir com o desenvolvimento da economia do país. Enxergamos perspectivas sérias no avanço do programa nuclear brasileiro,” diz.
A empresa russa vê que o Brasil possui recursos naturais únicos e se coloca disposta a oferecer tecnologias e competências de ponta para sua exploração eficiente: “ O Brasil hoje é um verdadeiro “gigante adormecido” do setor nuclear mundial. O país tem tudo: desde vastas reservas de matéria-prima até uma escola de engenharia de nível internacional e uma experiência única na operação de centrais nucleares. Na minha opinião, este é um recurso colossal para a economia. Certamente, a busca por um equilíbrio ideal e um formato de interação público-privada é um processo interno importante na formação da estratégia nacional.” Vamos então saber os detalhes desta entrevista num Raio X muito importante para o aprofundamento de uma parceira internacional estratégica para o desenvolvimento nuclear e tecnológico do Brasil. Com a palavra, Ivan Dibov:
Como foi o ano de 2025 para a sua empresa? As expectativas e previsões se confirmaram?
O ano de 2025 foi fundamental para o fortalecimento da nossa presença na América Latina e, em especial, no Brasil. Sem dúvida, um dos marcos do ano foi nossa vitória na licitação internacional aberta para a conversão do urânio brasileiro. Temos orgulho de que, por meio de um processo competitivo e transparente, nossa proposta tenha sido reconhecida como a melhor e mais vantajosa para o lado brasileiro.
Este projeto é estratégico tanto para os nossos parceiros da INB (Indústrias Nucleares do Brasil) quanto para o desenvolvimento de todo o ciclo do combustível nuclear nacional. Para nós, isso representa mais que um sucesso comercial. É uma contribuição real para o fortalecimento da independência energética e da soberania tecnológica do Brasil, algo que valorizamos profundamente.
Mantivemos o fornecimento ininterrupto de produtos isotópicos, apesar das dificuldades objetivas nas liquidações financeiras internacionais. Mantemos esse curso de forma consciente porque entendemos que se trata de insumos dos quais dependem a saúde das pessoas e o funcionamento do sistema nacional de saúde. É nossa responsabilidade profissional e social — e nós a cumprimos plenamente.
Além disso, estamos mantendo um diálogo contínuo com empresas brasileiras e internacionais para expandir a cooperação em uma ampla gama de áreas: desde o desenvolvimento de soluções em logística, até a gestão de rejeitos radioativos e a remediação ambiental, até projetos promissores em geração nuclear — tanto de grande potência tradicional quanto no segmento de energia nuclear de pequena escala. Em 2025, estabelecemos as bases para a transição rumo a novos e grandes projetos.
Considerando a atual situação econômica do Brasil, quais medidas seriam mais eficazes para melhorar o cenário?
Vemos a situação no Brasil com grande otimismo e enxergamos um enorme potencial de crescimento, especialmente no setor de energia. Como parceiros tecnológicos, estamos prontos para contribuir com o desenvolvimento da economia do país. Enxergamos perspectivas sérias no avanço do programa nuclear brasileiro. A implementação de projetos emblemáticos, como Angra 3, serviria como um forte sinal para o mercado e um motor para a indústria local. Também observamos com interesse as discussões sobre modelos de participação privada na mineração de urânio e no desenvolvimento do ciclo de combustível nacional. O Brasil possui recursos naturais únicos e nós, por nossa parte, estamos prontos para oferecer tecnologias e competências de ponta para sua exploração eficiente, no formato que for mais adequado e benéfico para o Estado.
O Brasil hoje é um verdadeiro “gigante adormecido” do setor nuclear mundial. O país tem tudo: desde vastas reservas de matéria-prima até uma escola de engenharia de nível internacional e uma experiência única na operação de centrais nucleares. Essa riqueza intelectual e natural coloca o Brasil em uma posição excepcional. Com a formação de um modelo de desenvolvimento estável, o país tem todas as chances de se tornar uma referência para a transição energética global, demonstrando como as tecnologias nucleares podem garantir soberania e um futuro sustentável.
Quais fatores, na sua opinião, podem representar riscos para a estabilidade política e econômica do país?
Do meu ponto de vista, em termos de riscos, o desafio mais sério é o fator tempo e a incerteza estratégica. A energia nuclear não é apenas uma construção, é uma parceria para 60 a 80 anos. Portanto, para qualquer participante do mercado, é fundamental ter um horizonte de planejamento de longo prazo.
Hoje podemos destacar algumas zonas sensíveis:
Em primeiro lugar, a interdependência tecnológica. A experiência global mostra que o sucesso de novos projetos, incluindo os Pequenos Reatores Modulares (SMR), está diretamente ligado à garantia do fornecimento de combustível. Sem esse vínculo tecnológico, mesmo as soluções mais avançadas podem enfrentar barreiras na etapa de implementação.
Outro ponto relevante é a dinâmica do mercado global. Atualmente, a indústria de combustível nuclear passa por um período de alta demanda, e os contratos de serviços de enriquecimento estão sendo firmados com 10 a 15 anos de antecedência. Nesta situação, uma espera prolongada pode fazer com que as futuras capacidades de produção sejam reservadas por outros players, o que criaria certas dificuldades para novos projetos brasileiros.
Por fim, a questão do uso eficiente do potencial de investimento. O Brasil vive um momento único: o setor privado vê na geração nuclear uma base sólida para o desenvolvimento de áreas intensivas em energia, como grandes data centers. Na minha opinião, este é um recurso colossal para a economia. Certamente, a busca por um equilíbrio ideal e um formato de interação público-privada é um processo interno importante na formação da estratégia nacional. Estamos convencidos de que a definição de diretrizes claras permitirá ao Brasil realizar plenamente seu potencial industrial e garantir uma base confiável para o crescimento de alta tecnologia nas próximas décadas.
Quais são as perspectivas para 2026? Como você vê o próximo ano?
Vemos o ano de 2026 com um otimismo confiante. A nosso ver, será um período de decisões fundamentais, capazes de definir a arquitetura da energia mundial para as próximas décadas. Entre as principais tendências da indústria nuclear global que destacamos para o próximo ano, eu apontaria as seguintes:
Gestão integrada de combustível usado
Na prática mundial, o processamento de combustível usado é cada vez mais incorporado ao projeto da usina nuclear desde o início. Isso transforma o combustível usado de uma questão de armazenamento em um recurso valioso para reutilização (regeneração). Tal abordagem está se tornando um padrão global de responsabilidade: ela reduz a carga sobre a estrutura nacional (principalmente ao minimizar os volumes de resíduos de alta atividade que requerem disposição final e ao diminuir a necessidade de construção de depósitos de longo prazo onerosos) e garante ao Estado flexibilidade em questões de segurança ambiental.
Desenvolvimento de tecnologias de combustível de nova geração (HALEU)
O sucesso dos pequenos reatores modulares (SMR), que se tornaram uma tendência mundial, está inseparavelmente ligado à disponibilidade do combustível tipo HALEU (urânio de baixo enriquecimento com alto teor, com nível entre 5% e 20%). O uso deste combustível permite tornar o núcleo do reator mais compacto, aumentar o tempo de operação sem recarga e elevar a eficiência da geração. Hoje, esta é uma condição essencial para o funcionamento da maioria das instalações de reatores avançados. Temos orgulho de possuir as capacidades necessárias para sua produção industrial e vemos nisso nossa contribuição para a estabilidade da cadeia de suprimentos global. Para países como o Brasil, isso significa ter uma base tecnológica confiável para a implementação dos projetos inovadores mais ousados no setor nuclear.
Novos formatos de cooperação internacional
A nosso ver, 2026 pode ser o momento de um desenvolvimento qualitativo do diálogo em direções estratégicas como a conclusão de Angra 3, o avanço da mineração de urânio e a localização de tecnologias de ponta. Vemos que no Brasil ocorre agora um sério trabalho interno para a formação de uma visão de longo prazo para o setor. Em nossa opinião, isso abre caminho para a criação de modelos de parceria flexíveis que atendam ao máximo os interesses nacionais. Por nossa parte, estamos prontos para apoiar as prioridades que o Estado definir, garantindo uma transferência confiável de conhecimento e experiência. Estamos convencidos de que o resultado deste processo será a criação de um alicerce sólido para a realização de projetos de grande escala que impactarão positivamente toda a economia da região.