Notícias
O custo do entusiasmo: como emoções positivas podem influenciar nossas decisões financeiras
É inegável que emoções positivas como alegria, entusiasmo e otimismo exercem uma função fundamental na nossa vida, contribuindo para a sensação de bem-estar e de motivação. No entanto, você já percebeu que, quando essas emoções se tornam intensas, elas acabam interferindo e comprometendo as nossas decisões, especialmente as financeiras? Um exemplo clássico é aquela compra feita em um momento de empolgação e felicidade que, algum tempo depois, resulta na pergunta: “Por que eu fiz isso?”. Sim, não é um fenômeno raro, e quase todo mundo já passou por isso ao menos uma vez na vida, e a ciência ajuda a explicar o que está por trás dessas escolhas.
Estudos em neurociências evidenciam que emoções positivas intensas estão relacionadas à circuitos cerebrais ligados à recompensa, especialmente os sistemas dopaminérgicos. Essa ativação aumenta a sensibilidade a recompensas imediatas e reduz a percepção de riscos1. No contexto financeiro, esse funcionamento favorece decisões mais impulsivas, aumento da tolerância ao risco, subestimação de perdas e superestimação de ganhos. Experimentos no campo da economia comportamental indicam que indivíduos em estados emocionais de empolgação e entusiasmo tendem a recorrer menos à análise crítica e mais a julgamentos intuitivos, na tentativa de preservar o estado emocional positivo². Em situações simples, isso pode até ser funcional, como parte da economia de esforço mental e manutenção de uma sensação de bem-estar. No entanto, quando se trata de decisões financeiras, esses atalhos mentais frequentemente nos levam a escolhas pouco estratégicas, a erros de avaliação e prejuízos financeiros.
Esses estados emocionais tendem ainda a vir acompanhado de um nível de otimismo elevado, o que contribui para o desencadeamento do viés do otimismo irrealista e do viés da autoconfiança excessiva. Evidências empíricas indicam que pessoas excessivamente otimistas tendem a acreditar que eventos negativos são menos prováveis de ocorrer com elas do que com os outros. Esse padrão cria uma sensação ilusória de controle e segurança, além de uma autoconfiança excessiva, que leva à superestimação das próprias habilidades e pode resultar em decisões financeiras mais arriscadas, mesmo em contextos desfavoráveis3-4.
Agora imagine isso acontecendo com milhares de pessoas ao mesmo tempo. É assim que, muitas vezes, surgem as bolhas financeiras. Períodos de valorização acelerada de ativos, por exemplo, costumam vir acompanhados de empolgação coletiva e narrativas otimistas que se espalham rapidamente, estimulando o comportamento de manada5-6. Esse movimento ajuda a explicar por que, em certos momentos do mercado, quase todos enxergam apenas oportunidades, com uma percepção sustentada pela confiança excessiva, enquanto poucos percebem os riscos4. A empolgação vira regra, e a cautela, exceção. É nesse ambiente de euforia que as bolhas se formam.
Outro exemplo interessante sobre a influência relevante das emoções positivas na nossa vida durante a tomada de decisão é o fenômeno de contágio emocional em redes sociais. Estudos mostram que conteúdos positivos e promissores se espalham mais rápido do que alertas ou informações negativas7. Isso cria um ambiente em que o otimismo se amplifica, as expectativas sobem e as decisões, inclusive as financeiras, passam a ser influenciadas pelo clima emocional coletivo de entusiasmo nas redes sociais. Assim, o estado de alegria e euforia deixa de ser apenas uma experiência subjetiva individual e passa a operar como um fenômeno sistêmico, moldando decisões financeiras individuais até o consumo em larga escala, como o caso de produtos que viralizam.
A boa notícia é que você não precisa se tornar hipervigilante ou até mesmo se privar de sentir essas emoções positivas, apenas aprender a perceber quando elas estão assumindo o controle de modo desadaptativo, assim como tendemos a fazer com as emoções negativas. Estratégias simples, como se perguntar “estou empolgado demais para pensar com clareza?”, esperar algumas horas antes de tomar decisões financeiras importantes, avaliar o seu contexto e as emoções predominantes ou estabelecer critérios objetivos prévios para investir e realizar determinados gastos, ajudam a construir uma relação mais equilibrada entre as nossas emoções e ações.
Por fim, fica a reflexão: quando foi a última vez que você parou para considerar a influência das suas emoções positivas nas suas decisões financeiras?
Referências:
1. Arias-Carrión, O., Stamelou, M., Murillo-Rodríguez, E., Menéndez-González, M., & Pöppel, E. (2010). Dopaminergic reward system: A short integrative review. International Archives of Medicine, 3, 24. https://doi.org/10.1186/1755-7682-3-24
2. Kuhnen, C. M., & Knutson, B. (2011). The influence of affect on beliefs, preferences, and financial decisions. Journal of Financial and Quantitative Analysis, 46(3), 605–626. https://doi.org/10.1017/S0022109011000123
3. Barbedo, C. S. (2022). Finanças comportamentais: Heurísticas e vieses que afetam a tomada de decisão dos investidores no mercado financeiro (Trabalho de conclusão de curso, Bacharelado em Ciências Econômicas). Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
4. Barreto, F. A. (2025). Economia comportamental em quatro atos: Raízes, rupturas, aplicações e perspectivas. Blog do IBRE/FGV. https://blogdoibre.fgv.br/posts/economia-comportamental-em-quatro-atos-raizes-rupturas-aplicacoes-e-perspectivas
5. Andrade, E. B., Odean, T., & Lin, S. (2016). Bubbling with excitement: An experiment. Review of Finance, 20(2), 447–470. https://academic.oup.com/rof/article-abstract/20/2/447/2461321
6. Sousa, I. M. O., Macedo, A. M., & Lucena, W. G. L. (2023). Finanças comportamentais, anomalias de mercado e bolhas especulativas: Uma análise de notícias. Teoria e Prática em Administração, 13(2).
7. Ferrara, E., & Yang, Z. (2015). Measuring emotional contagion in social media. PLOS ONE, 10(11), e0142390. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0142390