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Fazendo uma ciência que escuta: por que não faz mais sentido “transferir” tecnologias para o Semiárido
Titular da pasta de Desertificação e Agroecologia do INSA apresenta reflexão sobre a produção de conhecimento comprometido com o território (Foto: Victor Lima)
Por Aldrin M. Perez
Instituto Nacional do Semiárido
Durante décadas, a ideia de “transferência de tecnologias” orientou a atuação de muitas instituições científicas no Brasil. O enredo era simples: a ciência produzia soluções nos laboratórios e estações experimentais e, depois, alguém as “levava” até os agricultores, como quem entrega um pacote pronto. No papel, parecia eficiente. Na prática, revelou-se limitada, injusta e, sobretudo, desconectada da vida real dos territórios.
Essa lógica ainda resiste em alguns espaços institucionais, inclusive em ambientes onde o compromisso com o Semiárido deveria exigir outro olhar. Trata-se de um modelo que enxerga agricultores, comunidades tradicionais e povos do campo como receptores passivos, quando, na verdade, são protagonistas históricos da convivência com a seca, da gestão da Caatinga e da invenção cotidiana de soluções.
Essa crítica não é nova. Paulo Freire, ao denunciar a chamada educação bancária, já alertava para os riscos de uma comunicação unilateral, que transforma pessoas em depósitos de conhecimento. O mesmo raciocínio se aplica à ciência: quando falamos em “transferir” tecnologia, partimos da ideia de que o saber nasce em um lugar privilegiado e precisa apenas ser conduzido até outro. Como se o território não pensasse. Como se o agricultor não experimentasse. Como se a inovação não brotasse da prática.
No Semiárido, essa visão é particularmente problemática. Ela ignora a ecologia de saberes construída ao longo de gerações, despreza racionalidades ecológicas finamente ajustadas ao clima e à escassez hídrica, subestima a criatividade das famílias agricultoras e, no limite, reforça uma herança colonial: a de que a verdadeira inovação só nasce dentro dos muros da academia.
O resultado é conhecido. Tecnologias que não se sustentam. Projetos que não permanecem. Soluções que funcionam no relatório, mas não no roçado e na vida cotidiana por serem descontextualizadas da realidade.
Do pacote pronto ao caminho compartilhado
Diante das mudanças climáticas, da complexidade dos sistemas socioecológicos e das desigualdades históricas do Semiárido, esse modelo está epistemologicamente superado. Não faz mais sentido — científica, política ou eticamente — insistir em práticas tecnocráticas que tratam inovação como mercadoria enviada de um centro decisório distante para a Caatinga.
O desafio do nosso tempo é outro: substituir a lógica da transferência pela lógica da co-inovação dialógica. Inspirada em Paulo Freire, em Orlando Fals Borda, em Boaventura de Sousa Santos e nas ciências da complexidade, essa abordagem parte de uma premissa simples e poderosa: inovação não se entrega, se constrói.
Nesse paradigma, a ciência deixa de ser produto final e passa a ser processo vivo. A pesquisa se transforma em aprendizagem mútua. O erro vira parte do caminho. A experimentação local ganha centralidade. Agricultores, povos indígenas, comunidades quilombolas e rurais deixam de ser “beneficiários” para assumir o lugar que sempre lhes pertenceu: co-criadores de conhecimento e guardiões de ecossistemas estratégicos.
O que muda, na prática?
Assumir essa virada exige mais do que trocar palavras em documentos institucionais. Implica repensar profundamente a forma de fazer ciência no Semiárido. Entre os compromissos centrais desse novo caminho estão:
- construir soluções com as comunidades, e não para elas;
- reconhecer os saberes locais como parte constitutiva da ciência;
- criar laboratórios vivos nos territórios, onde pesquisa e vida caminham juntas;
- fortalecer processos de pesquisa-ação, com autonomia e corresponsabilidade;
- atuar em redes horizontais, substituindo fluxos hierárquicos por diálogo.
Essa mudança não é apenas metodológica. Ela é ético-política. Significa reconhecer que a ciência que o Semiárido precisa ser contextualizada, dialogada e ecológica — e não uma simples entrega de insumos, práticas ou modelos descolados da realidade.
Ciência com raízes no território
Paulo Freire nos ensinou que “ninguém educa ninguém; ninguém educa a si mesmo; os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. No campo da ciência, a lição é clara: ninguém transfere tecnologia para ninguém. As tecnologias se constroem entre sujeitos, mediadas pelo território, pela cultura e pela experiência.
Se queremos instituições científicas à altura do século XXI, comprometidas com a convivência com o Semiárido e com a justiça socioambiental, precisamos abandonar de vez o paradigma linear da transferência. O futuro da ciência passa pelo diálogo, pelo reconhecimento da diversidade de saberes e pela coragem de aprender com quem sempre soube viver onde muitos só agora começam a pesquisar.
É nesse encontro — entre ciência, território e gente — que a inovação realmente acontece.