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Diretor do IEN/CNEN destaca os principais projetos e conquistas de 2025 – Parte I
Dr. Cristóvão Araripe Marinho, diretor do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN) desde 2024. Foto: Gledson Júnior
O ano de 2025 foi marcado por significativos acontecimentos e avanços em projetos conduzidos pelo Instituto de Engenharia Nuclear, unidade técnico-científica da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), no Rio de Janeiro. Do recente início do processo de licenciamento para a construção do primeiro microrreator nuclear, passando pela realização de cursos e treinamentos comandados por importantes instituições nacionais e internacionais do setor, o IEN/CNEN tem colocado a expertise de suas instalações e de seu corpo profissional a serviço do desenvolvimento científico e tecnológico do país.
Desde maio de 2024, o instituto está sendo dirigido por Cristóvão Araripe Marinho, servidor da CNEN há 42 anos. É doutor em Sistemas de Gestão Sustentáveis pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Administração Pública, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), além de ser especialista em Análise e Projeto de Sistemas e bacharel em Ciências Contábeis.
Na entrevista concedida ao Setor de Comunicação Social do Instituto (SECOS), que está dividida em duas partes, o diretor celebra as principais conquistas obtidas pelo IEN/CNEN nesse último ano, comenta a contribuição da CNEN em muitas dessas iniciativas e compartilha as perspectivas e metas a serem atingidas em 2026:
O IEN/CNEN celebrou no dia 9 de dezembro, em uma cerimônia que contou com a presença de autoridades e representantes de instituições parceiras, o início formal do processo de licenciamento da construção da unidade crítica do microrreator nuclear. O quanto o diretor considera importante esse projeto para a ciência e tecnologia nuclear do país e o quanto é importante também o IEN/CNEN estar envolvido nele?
Cristóvão: O projeto do microrreator nuclear brasileiro é de extrema importância para a ciência e tecnologia, especialmente para a área nuclear. Representa uma visão de futuro que vai ao encontro de uma tendência mundial que procura, cada vez mais, as energias renováveis e limpas, a descarbonização e o desenvolvimento sustentável. E o microrreator nuclear, em especial para o Brasil, representa uma evolução energética que pode atender a mais de 60% dos municípios do país, ou seja, aqueles que têm menos de 20 mil habitantes. Isso abre um potencial enorme, porque o microrreator, pela sua portabilidade, ficará condensado a um container de 40 pés e ocupará um espaço muito menor do que de uma usina nuclear tradicional, até mesmo de um SMR (Pequeno Reator Modular), o que permite atender a locais de difícil acesso, comunidades ribeirinhas, entre outras. Além disso, a diversidade de aplicações do microrreator é muito grande: ele pode ser utilizado para data centers, para satélites, plataformas offshore (afastadas da costa terrestre) de petróleo e gás, qualquer aplicação que necessite de energia, e tendo uma energia limpa que não vai emitir gases poluentes, realmente, se torna um grande feito. E para o IEN/CNEN, fazer parte desse projeto, não é só um orgulho como um incentivo, no sentido de que vários grupos de pesquisa já estão motivados e se mobilizando. O projeto em que estamos embarcados, junto com diversas outras instituições, vai levar a tecnologia de uma TRL3 para uma TRL6, o que sinaliza um forte desenvolvimento tecnológico”.
O que é essa mudança de TRL3 para uma TRL6?
“A TRL (Technology Readiness Level, ou Nível de Maturidade Tecnológica, em português) é um gradação do nível de desenvolvimento tecnológico. Daí, você começa no TRL1 e vai progredindo. No TRL7 começa-se a ter encomendas e a prospectar mercados. A partir de então, você avança para o TRL8, que é quando a tecnologia é consolidada e é entregue ao mercado”.

- Autoridades reunidas no salão do Reator Argonauta para o descerramento de placa da pedra fundamental do microrreator nuclear. Foto: Gledson Júnior.
Existe um cronograma, a partir de agora, para que os microrreatores nucleares comecem a serem desenvolvidos e testados no IEN/CNEN para, posteriormente, serem produzidos e iniciarem suas operações?
“Para chegar no TRL6, o cronograma é de 30 meses. É um cronograma desafiador diante do desenvolvimento científico e tecnológico que está implícito no projeto. Mas para que se tenha um produto final e operacional, ou seja, um microrreator nuclear gerando energia em atividade, o prazo é 2033, sendo esse o cronograma das próximas etapas. E a ideia não é produzir um microrreator, isso será passado para a indústria. O papel de uma instituição pública federal é fazer o desenvolvimento tecnológico e repassar para a sociedade. O apoio e o desenvolvimento desse projeto, vindo da Comissão Nacional de Energia Nuclear, em conjunto com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), tem sido fundamental, pois este não é um projeto isolado do IEN/CNEN, além de todas as instituições envolvidas, que são muitas, mas aqui se tem a pegada institucional da CNEN”.
Sobre o Centresf (Centro de Treinamento em Segurança Física Nuclear), em outubro deste ano, aconteceu a assinatura do protocolo de intenções junto aos Fuzileiros Navais, uma parceria que, tanto o senhor, diretor, quanto o Contra-Almirante Roberto Lemos, definem como a “união de expertises”. Explique sobre a importância de a Marinha estar participando ativamente desse projeto?
“Cada vez mais, especialmente após o evento do 11 de Setembro de 2001 (quando aconteceu o ataque terrorista às duas torres do World Trade Center, em Nova York, nos Estados Unidos), o mundo tem se preocupado com a segurança. E na área nuclear, em especial, a segurança é fundamental. Aqui na América Latina e no Hemisfério Sul, não existe nenhum centro de treinamento prático em segurança física nuclear, aos moldes do que existe no Hemisfério Norte. Isso é um exemplo de um sonho, que alguns grupos preocupados com a segurança física tinham, e esse sonho foi evoluindo, se tornou uma ideia, a ideia se tornou um projeto, o projeto obteve os recursos necessários para a sua concretização, e hoje ele está sendo executado. Isso significa que no Brasil e na América Latina as forças de segurança, os técnicos que estão envolvidos em segurança física e nuclear ou em segurança física, num sentido mais amplo, poderão se capacitar tecnicamente sem terem o custo de viajar ao Hemisfério Norte, sendo esse o grande ganho. E neste contexto, qual é a importância da Marinha, em especial do Corpo de Fuzileiros Navais? Se por um lado o IEN/CNEN e a área nuclear detêm o conhecimento, a Marinha detém a prática. A Marinha tem o potencial de mobilização e possui um amplo conhecimento tecnológico na área de segurança, porque esse é o business deles. Além disso, o Programa Nuclear da Marinha dá um background para a própria instituição, o que os qualifica em orientar, em participar e em colaborar. Friso que esse não é um projeto do IEN/CNEN, apesar de fazermos parte dele. Esse é um projeto do Brasil. Nós estamos falando de algo que o nosso país vai se beneficiar e até mesmo os nossos colegas da América Latina”.
Após o financiamento da FINEP, estabeleceu-se um prazo de até 36 meses para que o Centresf seja concluído, ou seja, até 2028. O que o IEN planeja fazer no próximo ano para dar andamento a esse projeto e poder entregá-lo dentro do prazo estabelecido?
“O projeto executivo do Centresf já está pronto. Nós temos uma fundação de apoio que está envolvida no projeto, a FACC (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Computação Científica), que está dando início à execução do Centro. Então, o canteiro de obras já deve ser montado em janeiro, mas tardar em fevereiro de 2026, o que representa mais uma execução física do projeto. Quando nós pleiteamos os recursos junto à FINEP, nós apresentamos o projeto básico muito evoluído, quase um projeto executivo”.
Outro ponto a se destacar neste ano foi a interação do IEN com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que é o principal órgão nuclear do mundo, ao ponto de sediarem o curso Nuclear Energy Management School (NEMS) durante duas semanas. A que o senhor atribui esse interesse da AIEA no IEN/CNEN e se já existem novas parcerias entre as instituições previstas para 2026?
“Esse curso é promovido pela Agência Internacional de Energia Atômica já há algum tempo e é itinerante, isto é, vários países já sediaram. Porém, na América Latina, isso nunca havia acontecido. Então, realmente, foi um acontecimento singular e que muito nos orgulha. Agora, isso foi possível graças à maturidade da CNEN dentro da área. Ao trazer um curso desse perfil para o Brasil, nós temos, de certa forma, o reconhecimento da comunidade internacional, por meio da AIEA, da capacidade do Brasil de receber um evento dessa natureza. Nesse sentido, já há a sinalização e o desejo por novos cursos. Como, por exemplo, na área de segurança física, está se planejando um curso no IEN/CNEN, independentemente do Centresf. Seria um curso que chamaria os atores da área para cá, onde nós aproveitaríamos para apresentar o projeto desse centro. Outro curso importante é o de especialização do Direito Nuclear, também gestado na esfera da AIEA, que é o primeiro curso dessa área do Brasil, quiçá do mundo”.

- Grupo de treinandos e professores reunidos em frente ao prédio do Reator Argonauta durante o curso NEMS da AIEA, em junho de 2025. Foto: Gledson Júnior.
O IEN/CNEN também assume esse papel pedagógico de formar profissionais capacitados, seja através de cursos e treinamentos no Reator Argonauta ou mesma pela pós-graduação. Além do Curso de Direito Nuclear, quais outros programas de formação o diretor gostaria de destacar que aconteceram no IEN em 2025 e qual a perspectiva para o próximo ano?
“Além dos cursos citados na pergunta anterior, nós tivemos um curso de formação de operadores de reatores, em que nós ministramos aulas práticas dentro do Reator Argonauta para a Eletronuclear. Também, neste momento, está acontecendo a capacitação de servidores da Marinha do Brasil aqui dentro, na parte nuclear. Então, o IEN/CNEN possui, realmente, essa vocação, e vale acrescentar o seguinte: o Reator Argonauta foi modernizado recentemente, em um projeto de R$8 milhões da FINEP. Esse projeto já foi executado, portanto, o Argonauta está no estado da arte. E sua grande vocação é o ensino, é a pesquisa, ele foi criado para isso. É conveniente ter essa visão de que o Argonauta se presta para o ensino, o que não significa que ele não faça experimentos científicos e tecnológicos, mas sua grande missão é o ensino. Diversos alunos já passaram por aqui; alguns deles dos cursos regulares do Programa de Energia Nuclear da Coppe/UFRJ, que precisam fazer alguma radiação, testar algum material: onde eles conseguem fazer esses experimentos? Aqui no Reator Argonauta”.
No ano passado, a Direção do IEN/CNEN havia se reunido com os membros responsáveis pelo programa de pós-graduação sobre a necessidade de ampliar a nota de avaliação dos cursos do PPGIEN na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que era uma nota 3 nessa métrica, indicando que o curso estava em sua fase inicial e sem uma massa crítica para progredir. Passado mais de um ano, como está essa avaliação e o que o Instituto planeja executar para alcançar a almejada nota 5 da Capes?
“Esta é uma diretriz do IEN/CNEN em que se procure aperfeiçoar, ao máximo, o curso de Mestrado Acadêmico em Ciência e Tecnologia Nucleares. Primeiro, nós conseguimos fortalecer a coordenação do curso através da locação de mão de obra, colocando, recentemente, uma terceirizada especializada em bolsas; dobramos o número de bolsas no IEN/CNEN e estamos procurando estabelecer parcerias internacionais por meio da AIEA que daria uma chancela de internacionalização do curso, sendo essa uma vertente de pontuação junto à Capes. Além disso, estamos determinados a melhorar as instalações do curso onde as aulas são ministradas. Nós temos aqui uma área onde havia o antigo refeitório do IEN/CNEN. A ideia é transformar este local num centro de pós-graduação para que as instalações fiquem mais adequadas. Nessa parte de pós-graduação, nós precisamos evoluir, incentivar e colocar esse programa adiante, porque o IEN dispõe de um reator nuclear voltado ao ensino e pesquisa. Qual é a outra instituição no estado do Rio de Janeiro que dispõe disso? O IEN/CNEN dispõe de um Laboratório de Termo-Hidráulica Experimental extremamente capacitado, possivelmente um dos melhores do estado do Rio de Janeiro. Do ponto de vista das instalações, nada falta. O potencial que nós temos, aliado à expertise do corpo docente, composto por profissionais que desejam, mais do que o exercício da profissão, repassar o conhecimento, formam um ambiente muito propício para que o curso decole e para que mostre o seu potencial a fim de atingir a nota 5 da Capes”.
É possível que as obras desse refeitório sejam iniciadas em 2026 para a transformação desse novo espaço da pós-graduação ou esse é um plano mais para o futuro?
“Eu gostaria muito de conseguir recursos para isso, mas iremos ficar atentos aos editais da Finep, pois, na verdade, estamos sem fôlego operacional e são muitos projetos em curso: o projeto do microrreator, do Centresf, então, isso está alocando a maior parte da mão de obra. Mas, nós vamos tentar, pois já tive a oportunidade de conversar com a coordenação do curso e externar essa intenção. Vamos ver se, pelo menos, em 2026, conseguiremos o projeto dessas instalações para criar esse centro de pós-graduação”.
Uma outra conquista obtida pelo IEN neste ano foi o Prêmio Inventor Petrobras 2025 entregue ao grupo de trabalho formado por engenheiros do Laboratório de Radiotraçadores e da empresa privada Atomum, que desenvolveu uma bomba injetora inovadora, especialmente projetada e construída para identificar vazamentos em permutadores de calor, e que resultou até na obtenção de uma patente. Para o diretor, o que representa esse reconhecimento sobre esse trabalho inovador que acontece dentro do Instituto?
“Para a Diretoria do IEN/CNEN, essa é uma conquista de grande relevância, não só pela patente, haja vista que ela foi registrada no Brasil e nos Estados Unidos, tornando-a uma patente internacional, como pelo desenvolvimento brilhante dessa tecnologia. Mas também por conseguir pegar a pesquisa básica com radiotraçadores e levar até o seu ponto final, ou seja, para a aplicação, passando pelas TRLs, inclusive, pelo chamado ‘Vale da Morte’, onde a maioria dos empreendimentos afundam. O reconhecimento da Petrobras em forma de prêmio é motivo de orgulho não só para a equipe do Professor Eduardo Brandão, para a equipe da Atomum, mas para a CNEN e para a área nuclear como um todo, porque esta é uma aplicação nuclear com retorno. Estamos entrando numa fase de prestação de serviços, muito embora não seja o nosso papel prestar serviços e faturar, eis que surge a importância da empresa privada Atomum nisso. Mas é claro que o IEN/CNEN se beneficia disso através de royalties em decorrência da aplicação dessa tecnologia”.
Aproveitando a expertise do IEN na formação de recursos humanos, há alguma possibilidade de o Laboratório de Radiotraçadores também receber profissionais para treinamento e ampliação de conhecimento na área de petróleo e gás?
“A aplicação dessa técnica, que já está consolidada, se deu através da Academia. Algumas teses de doutorado foram ali aplicadas e chegou-se a esse negócio. Então, a capacitação e treinamento de doutorandos, bolsistas, é algo intrínseco ao projeto. Agora, vamos entrar em uma nova etapa de desenvolvimento, com um novo projeto que irá seguir a mesma trilha. Então, existe, sim, espaço para o desenvolvimento acadêmico dentro da área de radiotraçadores”.
Escrito e editado por: José Lucas Brito (Setor de Comunicação Social do IEN/CNEN).