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Diretor do IEN/CNEN destaca os principais projetos e conquistas de 2025 – Parte II
Dr. Cristóvão Araripe Marinho, atual diretor do IEN/CNEN. Foto: Gledson Júnior
Fundado em 1962 originalmente para abrigar a instalação do primeiro reator de pesquisa montado com material e mão de obra totalmente nacionais (o Reator Argonauta), o Instituto Engenharia Nuclear, através do seu corpo de servidores e bolsistas, contribuiu, ao longo das décadas seguintes, com o desenvolvimento de pesquisas e trabalhos que se destacam em diferentes áreas do conhecimento.
Na segunda parte da entrevista sobre os principais acontecimentos do IEN/CNEN em 2025, o diretor da Instituição, Dr. Cristóvão Araripe Marinho, aborda alguns desses outros projetos relevantes, como o do Supercomputador, as terapias e fármacos do Laboratório de Nanorradiofármacos e os avanços do Laboratório de Realidade Virtual. O ingresso de novos servidores por meio do concurso público aberto no início do ano e a necessidade por um reforço maior do quadro de pessoal do Instituto também foram tópicos dessa reportagem:
Na área de Informática, neste ano, entrou em funcionamento o Supercomputador do IEN, obtido através de um projeto Finep. Qual será a principal funcionalidade desse cluster de computação paralela em comparação aos outros existentes no país? E o que a direção do IEN precisará resolver para que o equipamento possa efetivamente atender à sociedade científica?
Cristóvão: “A vinda do Supercomputador, que já está instalado e está em operação, começando a rodar as suas aplicações, representa um ganho significativo para a comunidade científica. Basicamente, temos aqui no IEN/CNEN um serviço de apoio aos usuários que pretendem usar o Supercomputador para a aplicação dos seus códigos. Eu não gostaria de fazer comparações com outros computadores, mas quando se tem uma aplicação que demora cerca de três a quatro dias para rodar dentro de um bom computador convencional, no nosso Supercomputador roda em poucos minutos. Então, se tem não só a velocidade, esse Supercomputador se destaca também pela precisão de cálculos. Esse é um ganho que já começa a ter demandas para a utilização. Alunos da própria Coppe/UFRJ e professores estão nos procurando para utilizar esse Supercomputador. Não faz sentido ter um equipamento como esse, adquirido com recursos públicos, e dizer que ele só pode ser utilizado pelo IEN/CNEN. Esse é um projeto que está à disposição da comunidade científica brasileira”.
O IEN/CNEN também tem se destacado na Medicina Nuclear, com o desenvolvimento de terapias e fármacos inovadores para o tratamento de câncer e outras patologias. O que está sendo discutido com o Laboratório de Nanorradiofármacos para que esse trabalho seja ampliado e possa chegar à ponta, ou seja, os pacientes do SUS, usuários desses tratamentos?
“Essa é uma área que nos é muito preciosa, pertencente à Divisão de Engenharia Nuclear, dentro do Laboratório de Nanorradiofármacos, chefiado pelo Professor Ralph Santos-Oliveira. Este é um empreendedor por natureza e tem conseguido alavancar essa área com muita desenvoltura, não só trazendo recursos materiais, como recursos humanos, através de bolsas, principalmente fornecidas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), permitindo que se monte grupos de pesquisa. É com um olhar muito promissor que nós entendemos que esta área está evoluindo a passos largos para entregar à sociedade produtos para o tratamento de neoplasias, Alzheimer e outras doenças degenerativas. O Laboratório de Nanorradiofármacos participa de duas redes de nanotecnologias para a saúde, e no âmbito do ambiente colaborativo dessa rede o IEN/CNEN, através do Laboratório de Nanorradiofármacos, conseguiu adquirir o primeiro SPECT (Aparelho que realiza Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton Único) do estado do Rio de Janeiro, que será instalado, e espera-se que, em breve, entre em operação”.

- Dr. Ralph Santos-Oliveira e sua equipe de bolsista do Laboratório de Nanorradiofármacos. Foto: Gledson Júnior
Este ano foi marcado pelo tão aguardado Concurso CNEN/ANSN, no qual foram reservadas 12 vagas imediatas para o IEN/CNEN. Apesar de celebrar a chegada de novos servidores ao Instituto, acredita-se que esse número não é suficiente para suprir as vacâncias já existentes e que ainda irão surgir com novas aposentadorias. O senhor já conversou com a Presidência da CNEN sobre a possibilidade de ter mais servidores entrando para o IEN/CNEN pelo cadastro de reserva?
“Sem dúvida, o ingresso desses 100 servidores para a Comissão Nacional de Energia Nuclear, sendo 12 para o IEN/CNEN, dará um fôlego para ambas as instituições. No entanto, diante do próprio conteúdo que acabou de passar, é notório que a demanda é maior do que a capacidade de atendimento com 12 servidores. Nós precisaríamos alocar mais do que o dobro desse número para termos mais folga para progredir em novos projetos. O avanço tecnológico na área nuclear, por si só, requer mão de obra especializada o que demanda tempo para a sua formação. Quando se deixa um gap muito longo de 15 anos sem concurso, forma-se um vácuo que inevitavelmente se terá dificuldade para se levar adiante”.
Em quais áreas o IEN/CNEN possui uma necessidade maior de servidores, seja em função do número de vagas ociosas ou por conta da quantidade de entregas feitas por esse determinado setor?
“As áreas onde, ainda que se tenha dado prioridade nas alocações do concurso, que mais precisam de servidores são a de operação de reatores, a de Engenharia Civil, especialmente em cálculos experimentais, a área de manutenção, que também precisa de alocação, haja vista que, há alguns anos, o IEN/CNEN não dispõe de um setor de Engenharia Civil, e isso faz uma falta tremenda. Tem a parte de radioproteção também, pois não há dúvida de que essa área precisa ser incrementada com profissionais. Apesar de termos feito algumas alocações, nós precisaríamos de, minimamente, mais quatro profissionais em Radioproteção, porque são muitas as demandas. Nós temos aqui um depósito de rejeitos radioativos que carece de um supervisor de radioproteção especialista nisso; temos um reator de pesquisa, então, precisa-se de um supervisor especialista em reatores com essa característica; demanda-se, ainda, de um supervisor especialista em radioproteção em geral, e não se tem, obrigando-nos fazer algumas alocações. Quando se menciona a necessidade por especialistas, esses profissionais ainda precisam da licença junto à Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) para que estejam qualificados para exercer aquela função, algo que não é trivial. Vale acrescentar que a idade média de servidores do IEN/CNEN é de 61 anos. Nesse contexto, é preciso que o ingresso seja mais robusto. E quando se fala sobre conversar com a direção da CNEN, é preciso frisar que a Comissão está tendo uma integração muito colaborativa junto aos seus institutos, que é até desnecessário falar sobre o assunto, pois o Presidente Rondinelli já sabe, possui essa preocupação em mente e tem conhecimento sobre a nossa necessidade. Então, estamos nos esforçando por um cadastro de reserva que possa nos dar um fôlego maior”.
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Este ano também ocorreu a cisão na CNEN com a Diretoria de Radioproteção e Segurança Nuclear (DRS), que compõe a atual Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), que passou a ser o órgão responsável pela fiscalização e regulação das atividades nucleares no Brasil. O que essa mudança impacta aqui para os trabalhos exercidos no IEN e como será essa interlocução com a ANSN em 2026?
“A cisão da CNEN entre a área de pesquisa com a área regulatória se dá em um contexto de necessidade de evolução da área nuclear. No meu modo de ver, a CNEN, quando mantinha as duas áreas juntas, foi muito importante para o desenvolvimento do setor nuclear brasileiro. Com esse modelo, o Brasil dominou o ciclo do combustível, houve a formação de recursos humanos para todas as áreas, houve a consolidação das duas usinas de Angra dos Reis, enfim, esse modelo cumpriu a sua função, porém, ele se exauriu. A demanda pela separação é muito antiga, de mais de 30 anos, em que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) já orientava, e outras instâncias internacionais já recomendavam isso, o que não tira o mérito do modelo antigo. Nós, aqui, do IEN/CNEN, olhamos com muito bons olhos essa divisão, muito embora a então Diretoria de Radioproteção e Segurança já atuasse de forma independente, como deve ser. O regulador, que é quem estabelece a norma e fiscaliza sua aplicação, precisa ter sua completa independência. A cisão aconteceu da melhor forma possível, a ANSN está estabelecida, e as relações institucionais prosseguem dentro das suas funções entre regulado (a CNEN) e o regulador (a ANSN), isso tende a amadurecer, e a área nuclear passará a ter a segurança que necessita, com uma fiscalização cada vez mais assertiva”.
A CNEN completará 70 anos de sua fundação em 2026. Como o IEN/CNEN espera estar inserido nessa comemoração, através de projetos e iniciativas que desenvolvam a pesquisa da área nuclear?
“O IEN/CNEN, sem dúvida, estará presente nesse momento histórico de 70 anos, uma data redonda, algo simbólico não só para as pessoas quanto para as instituições. O IEN/CNEN com todo esse cabedal de projetos participará com toda a pujança possível para mostrar que os institutos da CNEN estão, mais do que nunca, unidos dentro da comissão”.
Quais outros projetos e informações o diretor Cristóvão Marinho gostaria de acrescentar a esta reportagem?
“Quero fazer a citação sobre mais uma área, a de Realidade Virtual, que possui uma forte vertente na divulgação científica. O que é a Realidade Virtual? É conseguir, através de um ambiente simulado com tecnologias de informática, criar modelos e fazer essa divulgação, que é fundamental, principalmente, para esse trabalho de base junto às crianças e aos adolescentes, tanto que a ideia da Realidade Virtual, por meio de um projeto exitoso chamado “Cidade Virtual da Ciência”, é levar não só para as feiras de ciência e eventos, mas também para as escolas. No mês passado, através dessa área, o projeto foi levado a um Ciep em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Então, é preciso atrair o público jovem, pois a área nuclear nem sempre é direcionada ao público em geral naquilo que tem de potencial e benéfico, e esse projeto do Laboratório de Realidade Virtual se propõe a colaborar para reverter essa imagem. Agora, é uma área que evoluiu muito. Quando assumi a direção do IEN/CNEN, esse era um setor que, embora já tivesse alguns produtos, não estava alocado em um ambiente que, no meu modo de ver, deveria estar, e hoje ocupa um espaço nobre, e que ainda irá progredir. Esse trabalho, executado por um grupo de jovens bolsistas e coordenado pelo Dr. Antônio Carlos de Abreu Mól, é bastante promissor e já está dando resultados, tanto que nas feiras em que o IEN/CNEN participa, o estande fica lotado de pessoas querendo conhecer o projeto”.
LEIA A PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA COM O DIRETOR DO IEN/CNEN
Escrito e editado por: José Lucas Brito (Setor de Comunicação Social do IEN/CNEN)