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Planeta Nove está perto de ser encontrado? Astrônomos do ON explicam

Publicado em 08/10/2021 09h45
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Há vários anos, a existência de um planeta que mediria várias vezes o tamanho da Terra e que orbitaria o Sol muito além de Netuno é assunto de debates e controvérsias na comunidade astronômica.

O chamado “Planeta Nove”, anteriormente chamado de “Planeta X” divide opiniões. Sua eventual existência é associada a anomalias observadas por astrônomos no sistema solar. Mais precisamente, acredita-se que o Planeta Nove seria o responsável por exercer uma influência gravitacional em um grupo de Objetos do Cinturão de Kuiper (KBOs, na sigla em inglês), um cinturão de asteroides que circunda o Sol e abriga mais de 1.000 objetos conhecidos, incluindo Plutão. Os objetos pertencentes ao Cinturão de Kuiper são comumente classificados como objetos transnetunianos (TNOs), ou seja, que se localizam além da órbita de Netuno (a 30 UA do Sol).

Possível localização do Planeta Nove. Fonte: JPL-Caltech/R. Hurt

A existência do Planeta Nove é fortemente defendida pelo astrônomo do Instituto de Tecnologia da Califórnia Michael Brown, o mesmo que liderou a campanha em 2006 que rebaixou Plutão para "planeta anão", o que para muitos astrônomos foi um erro.

Agora, Brown e seu colega Konstantin Batygin, astrofísico do Caltech, publicaram um novo estudo revelando informações mais detalhadas sobre o hipotético Planeta Nove que até hoje não foi encontrado.

 

Cinturão de Kuiper. Crédito: NASA/JPL

De acordo com o artigo dos pesquisadores, aprovado para publicação no Astronomical Journal, a órbita do Planeta Nove está mais próxima do Sol do que foi proposto no estudo de 2016, dos mesmos autores. Em vez de orbitar o Sol uma vez a cada 18.500 anos, como sugeriram anteriormente, o planeta daria uma volta completa em torno do astro em aproximadamente 7.400 anos. Segundo os autores, essa órbita mais próxima tornaria o Planeta Nove muito mais brilhante e mais fácil de ser observado pelos telescópios na Terra.

Eles basearam suas mais recentes previsões em 11 KBOs e descobriram que há 99,6% de chance de que os alinhamentos orbitais peculiares desses objetos sejam obra de um planeta que ainda não foi localizado.

Caso o Planeta Nove exista, de fato, ele provavelmente é um gigante gasoso muito frio, mais parecido com Netuno, nesse aspecto, do que com a Terra. No entanto, ele seria muito menor que o último planeta do Sistema Solar que tem mais de 17 vezes a massa da Terra. Se descoberto, seria o primeiro grande planeta a se juntar aos objetos do sistema solar desde 1846, quando astrônomos anunciaram a descoberta de Netuno.

O novo estudo de Brown e Batygin inclui uma espécie de "mapa do tesouro" que indica a possível localização do Planeta Nove. Na imagem abaixo, divulgada no artigo, a área vermelha é a região mais provável de o Planeta Nove ser encontrado.

 

Brown and Batygin / Caltech

Embora Brown e Batygin estejam empenhados em encontrar o Planeta Nove, eles não foram os primeiros.

Em 2012, durante o 43º Annual Meeting of the Division on Dynamical Astronomy, um evento da Sociedade Americana de Astronomia, o astrônomo brasileiro Dr. Rodney Gomes, do Observatório Nacional, já havia apresentado seu estudo “Signatures Of A Putative Planetary Mass Solar Companion On The Orbital Distribution Of Tno's And Centaurs”, sugerindo a existência do Planeta Nove.

Já naquele ano, o astrônomo afirmava que as órbitas irregulares e estranhamente alinhadas de pequenos corpos gelados além de Netuno indicariam que um planeta bem maior do que a Terra estaria girando em volta do nosso sol. Além disso, Gomes sugeriu que o excesso de Centauro, pequenos corpos do Sistema Solar que cruzam as órbitas de planetas gigantes, com longos semi-eixo maior (maiores do que 100 UA) poderia ser um indicativo da existência do Planeta Nove.

Em 2015, Gomes publicou um novo estudo, intitulado “The observation of large semi-major axis Centaurs: Testing for the signature of a planetary-mass solar companion” em que voltou a estudar os objetos Centauros e transnetunianos, detalhando seus argumentos sobre a possibilidade de um corpo não detectado do tamanho de Netuno estar exercendo influência sobre esses objetos.

Sobre o estudo mais recente de Brown & Batygin, Gomes destacou que ele vai no mesmo sentido de explorar a observação das órbitas dos objetos transnetunianos de comportamento semelhante, que foram encontrados tendo periélios (ponto da órbita do corpo mais próximo ao Sol) muito maiores do que 30 UA e, então, longe o suficiente da influência do planeta Netuno.

“A princípio, as órbitas desses objetos deveriam estar espalhadas no espaço de forma aleatória. A explicação dessa não aleatoriedade na distribuição das órbitas seria sinal da presença de um planeta distante ainda não descoberto no Sistema Solar. A outra explicação possível seria que a aglomeração das órbitas resultaria apenas de um efeito de viés observacional. Existe uma certa discussão nesse sentido entre os cientistas hoje e esse último artigo foca de maneira detalhada nessa questão mostrando, a meu ver, que sustentar viés observacional na explicação da aglomeração das órbitas não parece a melhor escolha”, disse o astrônomo.

Ainda segundo Gomes, a tendência é que essa discussão seja estabelecida na medida em que novas descobertas de transnetunianos distantes sejam efetuadas. Para o pesquisador, embora esses objetos sejam  particularmente difíceis de observar, devido à sua distância ao Sol, certamente existe hoje uma amostra desses objetos mais significativa do que quando o primeiro trabalho de Batygin e Brown foi publicado.

“Acredito que eles estejam no caminho correto e minha avaliação é que as órbitas desses objetos distantes realmente estão apontando para a existência de um planeta extra no Sistema Solar.”

Com relação à órbita e à localização do Planeta Nove, Gomes explicou que, apesar de os autores tentarem determinar a órbita do planeta em função das órbitas dos TNOs, isso ainda não é conseguido com muita precisão. Além disso, estabelecer a posição do planeta dentro da órbita estimada é impossível só em função das órbitas dos TNOs distantes.

“Portanto existe ainda certa indefinição de onde deveria ser encontrado o planeta e sua magnitude. Pode ser que seu brilho relativo seja fraco demais para ser observado hoje mesmo com os melhores instrumentos”, detalhou o astrônomo.

O que dizem os céticos?

Enquanto Brown segue com suas buscas pelo Planeta Nove, estimando que o planeta deve ser encontrado dentro de um ou dois anos, apoiado por Rodney Gomes, alguns outros astrônomos permanecem céticos quanto à sua existência. Muitos acreditam que o agrupamento observado por Brown e Batygin é o resultado de "viés de observação, isto é, da limitação observacional que impede os astrônomos de descobrirem mais objetos na região transnetuniana".

O físico Kevin Napier, por exemplo, da Universidade de Michigan, liderou um estudo publicado no início deste ano que sugere que o agrupamento de objetos no cinturão de Kuiper era uma “ilusão estatística”. Segundo ele, o número extremamente pequeno de órbitas de objetos usados ​​como evidência da existência do Planeta Nove - apenas 11 - não é convincente.

Para o astrônomo do Observatório Nacional, Dr. Filipe Monteiro, se o Planeta Nove for, de fato, descoberto, isso terá implicações consideráveis para o estudo do nosso Sistema Solar:

“A descoberta do planeta nove seria mais um passo na busca de completar o quebra-cabeças que explica a arquitetura do nosso Sistema Solar, como ele evoluiu e atingiu a configuração que conhecemos hoje”, destacou o astrônomo.