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Cumbre Vieja: Sismólogo do ON esclarece atividade na ilha e seus impactos

Publicado em 27/09/2021 11h45
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No dia 11 de setembro, teve início uma série de tremores de terra na região do parque do vulcão Cumbre Vieja, na ilha de La Palma, na Espanha. Quando o chamado enxame sísmico (sequência de terremotos acontecendo de maneira associada) começou, os cientistas começaram a mencionar a possibilidade de uma nova erupção vulcânica na ilha pela primeira vez em 50 anos.

E, de fato, no domingo, dia 19 de setembro, o vulcão entrou em erupção e milhares de pessoas tiveram que deixar suas casas. A lava tomou centenas de hectares e destruiu mais de 500 construções até o momento. 

Erupção do Cubre Vieja - Imagem: Miguel Calero/EFE

 A atividade impressionante foi capturada até mesmo do espaço. No dia 22 de setembro, o astronauta da Agência Espacial Europeia, Thomas Pesquet, compartilhou uma imagem da erupção vista da Estação Espacial Internacional.

"Comparado com a escuridão do Oceano Atlântico ao redor, o brilho laranja é ainda mais impressionante", escreveu ele no Twitter.

Erupção de Cumbre Vieja vista do espaço. Imagem: ESA/Thomas Pesquet

Mas antes mesmo do vulcão explodir, começou a circular no Brasil a informação de que uma eventual erupção poderia ser catastrófica o bastante para provocar um tsunami que poderia atingir a costa brasileira. Além disso, foram divulgadas algumas simulações que mostram ondas gigantes chegando ao Brasil em algumas horas.

Essas alegações têm como base estudos de décadas atrás que sugeriram a possibilidade do desabamento de uma parte da ilha provocar um mega tsunami que alcançaria o Brasil. Na época, a conclusão foi de que essa probabilidade era muito pequena. As autoridades locais, que estudam a região há muito anos, também já descartaram essa possibilidade. 

De acordo com o pesquisador do ON, Diogo Coelho, que atua na área de Geociências, com ênfase em Sismologia, inúmeros pesquisadores se debruçam sobre este tema, principalmente para entender a possibilidade dessa atividade vulcânica gerar um tsunami.

Segundo o sismólogo, alguns estudos do começo dos anos 2000 mostraram que o vulcanismo culminaria em um colapso de uma parte da ilha, que geraria um tsunami. No entanto, a capacidade de a atividade vulcânica gerar ondas gigantes é baixa, pois necessitaria que grande parte da ilha colapsasse.

“Atualmente todas as atividades na ilha estão sendo monitoradas por inúmeras instituições locais e internacionais, porém não se observa um grande deslocamento da estrutura interna da ilha, rechaçando, por hora, a possibilidade de um tsunami”, destacou.

Com relação às simulações que mostram o colapso da ilha, Coelho observou que todas as modelagens matemáticas necessitam ser embasadas em observações científicas de cenários reais. Muitas vezes essas simulações numéricas servem como prováveis cenários. Portanto, os parâmetros utilizados para os cálculos matemáticos são levados ao extremo, tentando entender o fenômeno físico nos seus limites. Em outras palavras, considerou-se o pior cenário possível nessas simulações.

“No caso do colapso de uma parte da ilha, as simulações foram feitas levando em conta a queda de uma grande porção da ilha de uma vez só. No entanto, existem trabalhos que mostram que nesse tipo de atividade vulcânica a estrutura vai colapsando aos poucos, portanto, não corroboram a possibilidade do colapso de um grande bloco com posterior geração de um tsunami.”

O sismólogo explicou também que o desmoronamento da ilha acontece pela movimentação do magma. O magma é um material formado por rocha fundida que está preso no interior da Terra. Quando chega à superfície, o magma passa a se chamar lava.

“Como sabemos que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, quando o magma se movimenta pelo interior da Terra ele gera terremotos, além de deslocar a parte superior do terreno. Toda essa movimentação no interior pode desestabilizar a estrutura do vulcão, que pode colapsar e cair no mar, gerando um tsunami”, detalhou.

Conforme ressaltou o pesquisador, existem vários grupos de pesquisa e órgãos governamentais que monitoram a atividade sísmica nas proximidades dos vulcões pelo mundo. Contudo, até o momento, não há informações sobre um deslocamento anormal do terreno próximo ao vulcão. Além disso, não existe nenhum alerta de tsunami na região.

Apesar disso, as atividades sísmica e eruptiva na ilha podem durar um bom tempo. Coelho esclareceu que, no caso da atividade sísmica, há variações em função de inúmeros parâmetros físicos e geológicos, muitos dos quais são desconhecidos pelos sismólogos.

Portanto, é difícil mensurar quanto tempo essa atividade pode durar, pois existem diversos locais no mundo que estão em atividade contínua há décadas.

Já com relação às erupções, o Instituto Volcanológico de Canarias (Involcan) divulgou dados sobre a duração dessa atividade na Ilha de La Palma no passado e estimou que a erupção pode durar entre 24 e 84 dias, com uma média de 55 dias. No entanto, qualquer estimativa não é definitiva, pois o cenário geológico pode variar com o passar do tempo.

O que preocupa mesmo os cientistas locais é o possível encontro da lava com o mar que pode acontecer nos próximos dias.

O que realmente preocupa as autoridades locais é a emissão de gases, cinzas e material vulcânico. Além disso, as autoridades locais monitoram de perto o movimento da lava que pode chegar ao oceano nos próximos dias. O principal motivo desse monitoramento é a reação química gerada pelo contato da lava com a água salgada. Esse contato pode ​​gerar explosões e emissão de gases nocivos.

Isso porque quando o magma toca o mar, grandes colunas de vapor d'água se formam porque grande parte da água salgada vai evaporar. Isso se deve ao grande contraste térmico entre os dois: a lava tem uma temperatura de mais de 900°C, enquanto a água tem cerca de 23°C. Além disso, como a água contém cloretos, sulfatos, carbonatos, flúor e iodo, os gases tóxicos também se volatilizam. Esses gases tóxicos podem causar irritação na pele, nos olhos e nas vias respiratórias.