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Aceleração dos ventos da Grande Mancha Vermelha de Júpiter intriga astrônomos

Publicado em 08/10/2021 18h17
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O Telescópio Espacial Hubble da NASA detectou mudanças misteriosas na Grande Mancha Vermelha de Júpiter. Os pesquisadores descobriram que a velocidade média dos ventos na parte mais externa da região aumentou significativamente, superando 640 quilômetros por hora. Em contraste, os ventos na região mais interna da mancha estão significativamente mais lentos.

 

Imagem da Grande Mancha Vermelha de Júpiter criada a partir de dados coletados pela

espaçonave Juno da NASA/JPL-Caltech/SwRI/MSSS/Roman Tkachenko

A peculiar mancha de Júpiter é, na verdade, um grande furacão com carácter mais ou menos permanente que abre um vórtice na alta atmosfera do planeta com diâmetro maior do que o da Terra. Esse vórtice expõe as camadas inferiores das nuvens de Júpiter que giram no sentido anti-horário. Como essas camadas têm composições químicas e temperaturas diferentes, a mancha apresenta a coloração avermelhada.

A observação do aumento da velocidade dos ventos na mancha foi feita a partir de imagens registradas pelo Hubble entre 2009 e 2020. No período, houve um aumento de 8% na velocidade dos ventos na região da mancha.

 

Ventos na região externa da mancha (círculo verde maior) estão mais rápidos. Créditos: NASA, ESA, Michael H. Wong (UC Berkeley)

De acordo com a NASA, também se observou que a velocidade dos ventos nessa região externa aumenta em cerca de 2,5 km/h todos os anos. Essa mudança é tão sutil que não poderia ser detectada se não fossem os dados do Hubble. Ainda segundo a agência espacial, o Hubble é o único telescópio que possui o tipo de cobertura temporal e resolução espacial que pode capturar os ventos de Júpiter neste detalhe.

Não se sabe ao certo quando a Grande Mancha Vermelha se formou no planeta, mas o físico britânico Robert Hooke, foi um dos primeiros a descrever a Grande Mancha Vermelha em 1665 no artigo intitulado “A Spot in One of the Belts of Jupiter”.

Desde 1830 o fenômeno vem sendo monitorado ininterruptamente. Desde então, os astrônomos notaram que a mancha vai diminuindo de tamanho gradualmente e se tornando mais circular do que oval. O diâmetro atual tem mais de 16.000 quilômetros, o que significa que a Terra, que possui um diâmetro de 12.742 quilômetros, ainda pode caber dentro da mancha.

A título de comparação, estima-se que no início do século XIX a mancha tinha cerca de 40.000 quilômetros de largura. Ou seja, três “planetas Terras” poderia caber dentro da mancha.

Segundo o pesquisador que liderou esse estudo, Michael Wong da Universidade da Califórnia, é difícil dizer o que esse aumento da velocidade dos ventos significa. Isso porque o Hubble ainda não consegue observar o fundo da tempestade muito bem.

"Mas é um dado interessante que pode nos ajudar a entender o que está alimentando a Grande Mancha Vermelha e como ela está mantendo a sua energia", disse Wong. 

Segundo o doutor em astronomia pelo Observatório Nacional, Bruno Eduardo Morgado, o ponto principal é que se pôde medir as velocidades dos ventos a partir das imagens do Hubble por mais de uma década. No entanto, a explicação física do fenômeno em si somente agora os pesquisadores poderão começar a tatear a partir de modelagem dinâmica dos ventos de Júpiter e ao comparar esses modelos às observações.

Como a mancha vem diminuindo ao longo dos anos, especula-se se ela poderia desaparecer e qual seria o impacto disso na dinâmica do planeta. Sobre esse aspecto, Morgado explicou que esse eventual desaparecimento ainda é uma questão em aberto para os cientistas.

Além disso, o astrônomo ressaltou que uma tempestade dessas proporções não é observada em nenhum outro lugar do Sistema Solar:

“Somente maiores estudos desta fascinante estrutura ou então de fenômenos aparentemente similares, como os redemoinhos nos oceanos aqui na Terra, poderão revelar o futuro da grande mancha vermelha de Júpiter.”