Notícias
11 de janeiro de 2026
O Agente Secreto faz história com 2 Globos de Ouro
Ambientado no Brasil de 1977, O Agente Secreto acompanha o retorno de um jovem professor universitário ao Recife, retratando a atmosfera de tensão crescente e os bastidores da repressão política. Em meio a um cotidiano povoado por acontecimentos fantásticos, o filme desloca o foco do aparelho repressivo estatal para as engrenagens menos visíveis que sustentaram a ditadura: a colaboração ativa entre grandes grupos econômicos e os militares no poder.
A narrativa explora aspectos pouco conhecidos sobre o período, como o papel do empresariado nacional, não apenas beneficiado, mas diretamente envolvido no funcionamento do regime. Empresas privadas da área de energia são representadas, no filme, em colaboração com o aparato repressivo e intimamente relacionadas às empresas estatais e ao capital internacional.
Parte central da trama envolve o cerceamento das pesquisas autônomas realizadas em uma universidade pública no Nordeste brasileiro. Alvo dos interesses privados por sua inovadora contribuição na área elétrica, na ficção, a pesquisa do departamento esbarra ainda em uma das preocupações centrais dos militares: o controle dos minérios. Com a interrupção da pesquisa naquela universidade, o filme critica de forma contundente a priorização do Sudeste em detrimento das demais regiões do Brasil.
Na documentação sob a guarda do Arquivo Nacional, podemos ter uma dimensão da centralidade da questão do controle dos minérios para as forças armadas. Em documento de 1979, são descritos o volume dos investimentos e os interesses específicos em uma ampla relação de minérios explorados no subsolo brasileiro.
Para além de sua valiosa contribuição artística e cinematográfica, O Agente Secreto propõe uma leitura da ditadura como um projeto compartilhado, no qual o autoritarismo político e a concentração econômica se reforçam mutuamente. O filme dialoga de forma direta com debates sobre reparação e responsabilização histórica, ao apontar que a repressão não pode ser compreendida apenas como obra dos militares, mas como resultado de uma convergência de interesses entre o Estado autoritário e o grande capital.