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19 de agosto de 1976
Bomba na ABI: Nova Prática Repressiva
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) não fez oposição e nem apoiou o golpe, como inicialmente fizeram a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Primeira entidade de jornalistas do Brasil, inaugurada em 1908, a ABI articulava diferentes posicionamentos políticos entre os seus quadros. Entretanto, no início da ditadura, foi encabeçada por figuras conservadoras, apoiadoras e até mesmo entusiastas do regime ditatorial. Entre apoio e rejeição, a ABI se manteve ambivalente durante a primeira década da ditadura. Enquanto protegia jornalistas e se opunha ao cerceamento à liberdade de imprensa, celebrava as Forças Armadas com homenagens em sua sede. Essa contradição é revelada pelas imagens do Fundo Correio da Manhã, custodiado pelo Arquivo Nacional (AN).
Em meados dos anos 70, os membros da ABI passaram a ser mais coesos na resistência à ditadura. Em 75, o presidente Elmano Cruz pronunciou-se contrariamente às violações de direitos humanos e o seu sucessor, Prudente de Morais Neto (1975-1977), condenou publicamente o assassinato do jornalista Herzog no DOI-CODI/SP. Em meio à crise do sistema repressivo e à abertura política de Geisel e Golbery, o posicionamento crítico da ABI a tornou alvo de setores extremistas pró-ditadura. Foi então que, em 19/08/76, a sua sede, no Rio de Janeiro, sofreu um atentado à bomba. Sem feridos, destruiu por completo seu 7º andar, onde funcionavam o Conselho e a Presidência. Horas mais tarde, outro explosivo foi encontrado nos arredores, na OAB, sendo desativado a tempo.
Esses episódios marcaram o início de ações paramilitares contra entidades e cidadãos engajados na redemocratização. Os últimos documentos pertencem ao Fundo SNI, do AN: o panfleto assinado pela Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), encontrado na ABI no atentado, e um dossiê da Aeronáutica, de outubro de 1976. Este suspeitava da autoria dos atentados e da própria AAB, induzindo que esta seria organizada por comunistas para “fazer voltar o clima de insegurança pública de anos atrás”.
Muitos atentados anticomunistas ocorreram, mas os órgãos de inteligência e repressão curiosamente nunca chegaram aos seus verdadeiros autores.


