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10 de maio de 1986
40 anos do assassinato de Padre Josimo Tavares
Padre coordenador da Comissão Pastoral da Terra do Bico do Papagaio, em Tocantins (ainda parte de Goiás), na região do Araguaia, Josimo Tavares foi mais um que morreu por lutar pelos direitos de trabalhadores pobres. Pelas ameaças que sofria, escreveu um testamento espiritual, divulgado na rádio da 13 dias antes de seu assassinato. Pelo testamento e por sua luta, sabemos que se o latifúndio marcou sua morte, a solidariedade marcou sua vida.
A atividade de Josimo e de outras pessoas – religiosas e leigas – de denúncia do latifúndio e a favor da reforma agrária era constantemente vigiada pelos órgãos de repressão e informação, sempre considerando que seriam uma ameaça, reproduzindo os discursos da Associação de proprietários. Essa construção é coerente com a relação íntima da ditadura com setores latifundiários que se beneficiaram com a expansão da fronteira agrária, sobre terras de pequenos agricultores, indígenas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais no período. O relatório-denúncia do comitê de mulheres do PT da região apontava: “A grilagem mantém hoje sob controle cerca de 90% das terras do Bico. A terra assim inexplorada, improdutiva e concentrada, permanece nas mãos de aproximadamente 85 grileiros, enquanto 15 mil trabalhadores vivem sem terra. Poucos títulos e demarcações tem sido entregues a trabalhadores posseiros (...). Simultaneamente, grileiros também recebem títulos referentes a áreas já ocupadas há muitos anos por posseiros”.
Os próprios órgãos de informação nos fornecem dados sobre o monitoramento de religiosos na região desde 1968, aumentando após 1975, com a formação da CPT. Os fazendeiros protegidos pelo governo, que em grande parte se apossavam de terras pela grilagem, contratavam jagunços para executar suas ações violentas. Foi assim que Josimo foi assassinado, tendo entre seus mandantes o fazendeiro e vereador Osmar Teodoro da Silva, condenado mais de 15 anos depois do crime. A região que Josimo atuava é conhecida também pela violência contra indígenas e pela repressão à guerrilha que assassinou e fez desaparecer dezenas de cidadãos brasileiros, todas faces de um mesmo projeto autoritário e violento de desenvolvimento.