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Em Memória DELAS

Esmeraldina Carvalho Cunha

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Publicado em 27/03/2026 17h03 Atualizado em 30/03/2026 16h17
EM MEMÓRIA DELAS (4).jpg

Em Memória de Esmeraldina Carvalho Cunha 

 

Dona Esmeraldina Carvalho Cunha, 49 anos, logo que soube da prisão da filha caçula, revirou a Bahia. Ia atrás de advogado, do comandante da 6ª Região Militar, general Argus Lima, e do juiz de menores. Um dia acabou sabendo que a menina estava incomunicável. Só na Base Aérea, dias depois, encontrou-se com Nilda, imprestável, sem nenhum controle.¹ 

O texto que segue é uma homenagem e a continuidade de uma denúncia. Como tal, é importante informar que alguns trechos são pesados e podem ser sensíveis para a leitura de algumas pessoas. Entendemos, contudo, que é necessário manter determinadas passagens, presentes nos documentos, para explicitar a crueldade e a dimensão de gênero da violência de Estado. Essa dimensão, entretanto, também inscreve o significado da resistência. 

A história dos Direitos Humanos no Brasil, na América Latina e em todo o mundo está profundamente marcada pela ação de mulheres que, enquanto mães, lutam por justiça por suas filhas e filhos atingidos pela violência de Estado. Individualmente ou em movimentos, essas mulheres se arriscam na busca de filhas e filhos desaparecidos, pela libertação de presos, justiça quando assassinados e pela garantia de dignidade na memória. Os vários movimentos de Madres das ditaduras do Cone Sul, o pioneiro Movimento Feminino pela Anistia, na ditadura brasileira, as redes e movimentos de Mães e familiares atingidos pelo Estado na democracia são alguns entre a centenas de exemplos que poderíamos levantar. Não apenas a violência física desses casos revela os mecanismos de opressão, mas o próprio fato do protagonismo dessas mulheres nos ajuda a perceber a centralidade da dimensão de gênero da violência de Estado. Ao ocuparem o lugar de garantidoras da instituição familiar, tão cara ao próprio sistema, são elas que subvertem também em afeto a dinâmica do controle patriarcal e voltam-se contra o Estado ditatorial que age de forma dilacerante sobre suas (nossas) vidas. São inúmeros os exemplos de mães que lutaram pela justiça em relação aos seus filhos na ditadura e, assim, eram elas próprias perseguidas pela repressão. O que não costumamos olhar tanto é que perseguição por vezes levou à morte da própria mãe em luta.  

O caso mais conhecido de mãe assassinada na última ditadura brasileira é o da estilista Zuleika Angel Jones, a Zuzu Angel. As vidas de Zuzu e Esmeraldina têm muitas diferenças. Zuzu, estilista famosa, abastada, mineira, moradora do Rio de Janeiro e com contatos para realizar denúncias, inclusive em âmbito internacional. Foi aguerrida na busca de seu filho, Stuart, e na construção de sua memória, fortalecendo também a luta coletiva por todos os desaparecidos da ditadura. Esmeraldina, baiana de Araci, moradora de Salvador, classificada nos documentos como “dona de casa” ou “doméstica”, sua história não correu o mundo da mesma forma. Nos interessa, entretanto, ressaltar as convergências entre as histórias dessas mulheres, ressaltando a trajetória de Esmeraldina, para em outro momento render homenagem à memória de Zuzu.  

Mulheres da mesma geração, com um ano de idade de diferença, Zuzu teve o filho mais velho desaparecido e Esmeraldina a filha caçula assassinada, ambos com relatos brutais. Tanto Stuart quanto Nilda nasceram na Bahia, foram militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e morreram em 1971, no mesmo processo de tentativa de aniquilamento da organização guerrilheira. Zuzu e Esmeraldina, assassinadas covardemente. Zuzu, acidente automobilístico forjado. Esmeraldina, suicídio forjado.  Métodos amplamente utilizados pela ditadura, em casos mais e menos conhecidos popularmente. No requerimento à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Leônia, filha de Esmeraldina, justifica:  

atendendo a um desejo do meu pai, falecido 4 anos depois, de CA, que afirmava que se fosse um homem de “posses” iria investigar o assassinato de ambas, e tendo a certeza do ocorrido, comum à época, haja vista o caso da valorosa Zuzu Angel, mão de Stuart Angel, ambos barbaramente assassinados, assim como demais casos que se tem notícia “dos anos de chumbo”². 

Se a ditadura forjava acidentes, combates e suicídios para esconder os crimes que cometia, a solidariedade e a luta dessas mulheres eram forjadas na dor, mas pelo amor. Pelo amor às filhas e filhos e o amor destas e destes pela humanidade e pela liberdade. É importante, assim, falar um pouco das filhas, para relembrarmos com maior profundidade depois da mãe, Esmeraldina. 

Nilda
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Suas filhas foram atingidas de formas diversas pela repressão, apesar de apenas Leônia, filha do meio, e a caçula Nilda, terem envolvimento direto com organização de contestação à ditadura. Maria Lourdes Cunha, a mais velha,  

foi cruelmente assediada durante muito tempo (tortura psicológica) por agentes do Exército (naquele tempo, Major Cerqueira), o que lhe causou sérios problemas emocionais e comportamentais; de uma jovem executiva, bem sucedida, bem casada, transformou-se numa pessoa sujeita a constante crises depressivas de cunho persecutório³. 

Nilton Cerqueira é um dos agentes mais conhecidos da ditadura, não apenas por sua participação em momentos chave, que é o caso da Operação Pajussara (no âmbito da qual Nilda foi morta e que tinha o objetivo de prender e assassinar Carlos Lamarca), mas também por continuar ocupando cargos públicos de grande importância posteriormente. 

Lúcia Bernadete Cunha, então com 27 anos, acolhia em seu apartamento a irmã Nilda, quando essa foi presa e sua companheira de organização, Iara Iavelberg, assassinada (a morte de Iara também foi forjada como suicídio). Lúcia chegou a ser presa no mesmo dia, porém liberada por intervenção de seu marido, que era policial federal. 

Leônia Alves Cunha, nascida em 1947, foi a irmã que se tornou referência de Nilda na militância política de esquerda, apresentando a ela espaços de organização e estudo. Leônia foi militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e da Política Operária (POLOP). Após muitas dificuldades, é ela que dá entrada nos pedidos de reparação, que nos permitem acessar, através da base de dados do Memórias Reveladas, grande parte das informações que estão presentes aqui. 

Lubélia Carvalho Cunha, de 1949, foi a filha que, junto com seu então noivo, encontrou Esmeraldina morta, dentro de casa, em uma cena de suposto suicídio por enforcamento. 

Nilda Cunha Carvalho era a caçula, estudante e bancária estagiária, foi presa e assassinada com apenas 17 anos. A prisão de Nilda, sem nenhuma dúvida, é a marca mais profunda da violência rasgada pela norma patriarcal que desencadeia a sequência vertiginosa do terror sobre Esmeraldina. É no apoio à filha e, logo depois, no luto pela sua morte tão precoce que nasce a luta de Esmeraldina. 

Na madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971, Nilda é presa na casa de sua irmã Lúcia. A prisão se dá por um cerco das forças de repressão, sob comando do então major Newton Cerqueira, e resulta no assassinato de Iara Iavelberg, fato, entretanto, ocultado naquele momento pelo exército. Após a ação que envolveu tiroteio e bombas de gás lacrimogênio, foram presos Nilda e seu namorado Jaileno, assim como foi detida sua irmã Lúcia e o filho dela, recém-nascido. Nilda, menina de 17 anos, foi levada ao Quartel do Barbalho e em seguida transferida para a Base Aérea de Salvador, permanecendo incomunicável e sofrendo as sevícias das torturas que recaem com requintes de crueldade sobre mulheres. Torturada não apenas pela equipe comandanda por Nilton Cerqueira, esteve presente também nas sessões o temido delegado Sergio Paranhos Fleury, de São Paulo. Estava Nilda submetida aos horrores que a repressão julgava necessários para o êxito da Operação Pajussara, contra o guerrilheiro Carlos Lamarca e o MR-8.  

Sua mãe lutou para descobrir seu paradeiro e protegê-la desde o primeiro momento, até conseguir encontrá-la, já na Base Aérea, “imprestável, sem nenhum controle”⁴. Nessas condições Nilda é “liberada” pela equipe do major Cerqueira, porém, este não a deixa em paz e permanece assediando a ela e sua família. Os efeitos da tortura são quase que de imediato manicomializados e um médico particular indica a internação de Nilda, primeiro em uma clínica particular para “sonoterapia". Logo em seguida, ela é levada ao Sanatório da Bahia. Nilda passou a ter episódios de cegueira repentina produzidos pelo terror da tortura e não conseguia dormir. Seu pavor era causado por tipos de violência que chegaram ao nível de ter sido levada com os olhos vendados ao IML para só os abrir após suas mãos serem colocadas dentro do ventre do corpo sem vida de Iara, sua companheira de organização. Até aquele momento, Nilda ainda não sabia que Iara havia sido morta. As mãos de uma menina de 17 anos colocadas à força dentro do corpo de outra mulher, em seu ventre aberto. Cena de um filme de terror escrito pela ditadura militar brasileira. 

Na clínica particular, logo depois de Nilda ser internada, se deu uma discussão de Esmeraldina com o major Nilton Cerqueira, que usou a prerrogativa de ser médico para lá entrar e ameaçar a jovem. Na primeira “visita”, o major tentava impor, como condição para soltar sua filha, que Dona Esmeraldina “voltasse a viver com o marido Tibúrcio Alves da Cunha”⁵. A submissão da mulher ao homem dentro da família é escancaradamente sugerida para garantir a submissão ao regime. Uma como extensão da outra. Na discussão dentro da clínica, Esmeraldina defende sua filha dos ataques do agente da repressão que ameaçava a menina aos gritos, raivoso: - “Dona Nilda, acabe com essas frescuras, senão a senhora vai voltar pra aquele lugar que a senhora sabe!”⁶Após a saída de Cerqueira, Nilda é encaminhada para o Sanatório Bahia. Mulher, sob efeitos de uma violência atroz, rapidamente considerada louca e com sua liberdade novamente restringida. De toda forma, em poucos dias, Nilda começa a melhorar e seus medicamentos são reduzidos. Mesmo assim, morre no dia 14 de novembro de 1971, da forma como apavorada prenunciava. Nilda havia revelado a seus familiares que “‘ia ser posta em liberdade para morrer, porque sabia demais’; dizia ainda aos familiares, ‘vocês não podem imaginar como isso é terrível demais’. Sua morte iria se dar com ela dormindo, por isso pedia que não lhe dessem remédios para dormir”⁷. O Dossiê sobre Mortos e Desaparecidos Políticos indica que a sua morte foi por envenenamento⁸, em coerência com o laudo do IML que, 40 dias depois da morte, informou "edema cerebral a esclarecer e excesso de barbitúricos no sangue"⁹.  

No dia seguinte da morte de Nilda, o diretor do Sanatório foi demitido, a família não conseguiu mais encontrar as enfermeiras que acompanharam e o médico particular havia repentinamente viajado para a Europa. 

O trágico fim de Nilda impõe à Esmeraldina a imersão do giro final da tortura que a vida de toda essa família se tornou. Para entender o quão íngreme é esse giro, pode ser importante lembrar um pouco as origens de Esmeraldina. 

Pelas documentações, pouco sabemos da vida de Esmeraldina, antes de ser atropelada pela ditadura. Natural de Araci, região do sertão baiano com base econômica de pequenos agricultores e conhecida pelo cultivo do sisal, localizada a poucas horas de distância de Feira de Santana, onde parte de suas filhas nasceu. Sabemos que no início da década de 1970 ela e as filhas já moravam em Salvador e Esmeraldina era separada do pai delas, Tibúrcio. Esmeraldina, portanto, sustentava a condição de ser mãe de cinco jovens mulheres e viver sem marido, no início da década de 1970.  

No seu cotidiano de mulher que, saindo do interior para a capital, se torna matriarca de uma família de cinco filhas, certamente contribuiu para o olhar solidário de suas filhas, duas delas se engajando diretamente na luta por liberdade e por igualdade social. Em contrapartida, a luta de suas filhas, aplacada pela violência da repressão, forja também os caminhos de Esmeraldina, que se torna uma ameaça ainda maior para o poder patriarcal. Ainda maior, porque a mera existência de mulheres como ela já é uma ameaça às normas de poder e controle do Estado autoritário em nossa sociedade. Além de mulher, era mãe de cinco outras mulheres e vivia separada do pai das filhas, em um momento em que o divórcio não era sequer legal no Brasil (existindo apenas a figura do desquite), condição que, como vimos, deu mais contornos à violência de gênero vivida por ela. 

Depois de correr atrás do paradeiro de sua filha presa, enfrentar quartéis e um dos agentes mais temidos da ditadura, de ter sua autonomia enquanto mãe e cidadã questionada, Esmeraldina se depara com a vida ceifada de sua filha caçula, ainda saindo da adolescência. Não se conforma. Ainda no hospital, ao encontrar a filha Leônia, afirma: 

Leo, os desgraçados mataram minha filha e foi no Hospital, bem que o espelho caiu da bolsa e quebrou quando fui interná-la, meu coração apertou (...) não deveria ter deixado minha filha lá. (...) estava na fila do lanche e encontro o Dr. Karibé, (...), quando me viu veio ao meu encontro e perguntou — " minha velha, que está fazendo aqui?¹⁰ 

O doutor caminha abraçado com Esmeraldina que questiona a morte da filha, escutando  

a seguinte resposta, enquanto lágrimas corriam no rosto do referido médico: DEUS E TESTEMUNHA QUE EU NÃO QUERÍA AQUILO, SÓ DEUS SABE O QUE FIZ PARA EVITAR, EU NÃO QUERIA AQUILO, SÓ DEUS SABE O QUE FIZ PARA EVITAR!¹¹ 

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Sua dor enorme é também tratada como loucura a ser fisicamente controlada. Esmeraldina, como a filha, inconformada com a violência e o terror de Estado, é então levada a um sanatório, o Sanatório Ana Nery. Durante quase quatro meses fica internada sob uma suspeita de “transtorno de personalidade histrônica”, ou “transtornos dissociativos”, como houvesse drama e emoção desmedida, desconexão com a realidade e a personalidade, ou uma busca de atenção. De certa forma, sem desconsiderar a necessidade de cuidado que certamente Esmeraldina necessitava, vemos como a lógica patriarcal na medicina acaba por enquadrar o sofrimento dessa mulher como uma loucura desmedida, após perder a filha de forma inequivocamente trágica. 

Ao sair do sanatório, Esmeraldina, procura a equipe médica que acompanhou a filha e, como sabemos, não os encontra. Passa então a denunciar em praça pública a ditadura, dizendo, em alto e bom som: “- Eles mataram minha filha, uma criança! Eles mataram minha filha. São assassinos, do Exército, do Governo. Eles estão matando estudantes...”¹² 

Esmeraldina reunia muitas pessoas ao seu redor e falava o que vinha ao coração, se tornando ainda mais uma ameaça à ditadura. Segundo os relatos presentes no requerimento de sua filha, era acolhida por transeuntes que, em solidariedade, a levavam de volta para casa. Em uma ocasião, 

foi detida pela Rádio Patrulha, levada à Séc. de Segurança Pública e liberada, por intervenção de uma amiga que a viu chegar no local dentro de um Camburão, também, em data posterior, pelo ex-prisioneiro político Diogo (MR8), que casualmente encostou ao ver a multidão, e, reconhecendo-a, carinhosamente a levou para sua residência¹³

Como outras mães, sofreu ameaças, mas não se intimidou. Pouco antes de morrer relatou à Leônia que recebera a “visita” de um desconhecido que a ameaçou, dando o seguinte recado: "o Major mandou avisar à senhora que SE NÃO SE CALAR, NÓS SEREMOS OBRIGADOS A FAZÊ-LO!"¹⁴Assim fizeram, mesmo que anos depois, e até os dias de hoje, há quem faça vozes como a de Esmeraldina ecoarem. 

No dia 20 de outubro de 1972, sua filha Lubélia e o noivo, com quem Esmeraldina morava no bairro do Chame-chame, chegaram em casa para almoçar. A janela estava 

encostada e a porta fechada a chave, por dentro. Ninguém atendia. Ele pulou a janela, abriu a porta e seguiu na frente. Voltou-se rápido, impedindo a noiva de entrar. Lá dentro, no quarto, estava Dona Esmeraldina, enforcada, suspensa por um fio de máquina de somar, amarrado na cumieira da casa¹⁵. 

A simulação de enforcamento foi um método amplamente utilizado pela ditadura, tanto em espaços prisionais quanto fora destes, em casas e árvores, por exemplo. Os casos mais famosos são os do jornalista Vladmir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho. O assassinato de Esmeraldina, entretanto, engrossa uma extensa lista, composta por exemplo, entre muitos outros, por Anatália de Souza Melo Alves, João Alfredo Dias, Roberto Cietto, Severino Elias de Melo, José Nobre Parente, Milton Soares de Castro, Higino João Pio, João Lucas Alves, Severino Viana Colou, José Gomes Teixeira e Angelo Cardoso da Silva. Como nesses casos, algumas evidências nos ajudam a contestar a hipótese do suicídio. No caso de Esmeraldina, 

foram encontradas marcas de sangue (...) no chão, não houve deslocamento da carótida, mal trazia marca do fio no pescoço, tumefação da face (face arroxeada), nem projeção da língua para fora, indícios determinantes da morte por asfixia, havia apenas uma suave marca do fio no seu pescoço¹⁶. 

É importante dizer, porém, que fosse o caso do suicídio verdadeiro, isso não eximiria a responsabilidade do Estado de forma alguma, uma vez que é mais que evidente o intenso sofrimento causado por este sobre Esmeraldina. 

Esmeraldina, assim nomeada de natureza preciosa, nasceu das esmeraldas do sertão semiárido baiano e lá também gerou outras gemas que ousaram se levantar para partilhar a riqueza, desejosas de que os caminhos verdes e brilhantes como esmeraldas pudessem ser de todas as pessoas. Esmeraldina, suas pedras preciosas foram quebradas pela agressão ditatorial-patriarcal e, mesmo com o sufoco da respiração bambeando, o coração em descompasso bombeou forte sua voz pelas ruas e você se colocou de corpo inteiro para se tornar denúncia, varrer o silêncio e garantir a memória. Esmeraldina, se aqueles oficiais mineradores da dor ousaram tentar apagar seu brilho – e que tenham durante muito tempo conseguido –, hoje respeitosamente buscamos escavar, polir a esmeralda que, translúcida, nos permite revelar a história, com suas rachaduras, seus cacos, mas também com o amor da luta e da busca de uma sociedade sem desigualdade. 

 

Referências:

JOSÉ, Emiliano; MIRANDA, Oldack. Lamarca – O capitão da guerrilha. São Paulo, Global, s/d. Reproduzido em http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_at0/0/0/0243/br_dfanbsb_at0_0_0_0243_d0001de0001.pdf 

Requerimento de Leônia Alves Cunha à Comissão de Mortos e Desaparecidos, 14 de setembro de 2004. http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_at0/0/0/0243/br_dfanbsb_at0_0_0_0243_d0001de0001.pdf

Comissão da Verdade da FAB. http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_rjanrio_cnv/0/rce/00092003122201480/br_rjanrio_cnv_0_rce_00092003122201480_d0001de0001.pdf

Depoimento de José Borba Pedreira Lapa http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_at0/0/0/0564/br_dfanbsb_at0_0_0_0564_d0001de0001.pdf 

 Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964. Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Instituto de Estudo da Violência do Estado - IEVE Grupo Tortura Nunca Mais - RJ e PE. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1995.

  

Saiba mais sobre o assunto:

LEITE, Angelita de Souza; BRITO, Camila Lima. Ditadura Militar na Bahia: a história de uma família de mulheres guerreiras. Revista Tópicos Educacionais, Pernambuco, v. 30, n. 1, p. 174-198, 2024. ISSN: 2448-0215

COIMBRA,Cecília Maria Bouças. Gênero, Militância e Tortura. Strey, Marlene; Azambuja, Mariana & Jager, Fernanda (orgs). Violência, Gênero e Políticas Públicas, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004, p. 45-62

 

PATARRA, Judith Lieblich. Iara: Reportagem Biográfica. Rio de Janeiro: Editora Rosa Dos Tempos, 1992.

Cultura, Artes, História e Esportes
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