Nesta sexta (4), governo de Pernambuco autorizou tombamento estadual para manter viva a obra do arcebispo emérito de Olinda e Recife, que morreu em 1999.

Com mais de 210 mil páginas de documentos, acervo de dom Helder Câmara ganha decreto para preservação da memória

Publicado em 07/11/2022 10:19
Compartilhe:

Solenidade de conclusão de primeira etapa de beatificação de dom Helder aconteceu em 2028, no Recife — Foto: Mônica Silveira/TV Globo
Beatificação de Dom Helder Câmara segue para o Vaticano em janeiro de 2019

Solenidade de conclusão de primeira etapa de beatificação de dom Helder aconteceu em 2028, no Recife — Foto: Mônica Silveira/TV Globo

Pernambuco deu, nesta sexta (4), um passo importante para a preservação da memória do arcebispo emérito de Olinda e Recife, dom Helder Câmara. Com aprovação do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural, o governo autorizou o tombamento estadual do acervo do religioso. São cerca de 210 mil páginas de documentos, além de prêmios e condecorações.

Nascido em Fortaleza (CE) , em 1909, Dom Helder foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985), recebeu prêmios nacionais e internacionais.

Brasileiro por mais vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz, em quatro ocasiões, morreu no Recife, em 1999. A Lei nº 13.581, de 26 de dezembro de 2017, declarou Dom Helder Câmara como "Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos".

Em 2018, a primeira etapa do processo de beatificação e canonização dele foi concluída . Foram enviados para a Comissão da Causa dos Santos, no Vaticano, documentos, laudos, pareceres e testemunhos sobre a vida do bispo, conhecido como "Dom da Paz" ( veja vídeo abaixo ).

Beatificação de Dom Helder Câmara segue para o Vaticano em janeiro de 2019

O decreto que autorizou o tombamento estadual do acervo de dom Helder foi assinado durante solenidade realizada no Palácio do Campo das Princesas, sede do Executivo de Pernambuco, no Centro do Recife.

Com a medida, o estado cumpriu a vontade de Dom Helder registrada em testamento. Com isso, o acervo será inscrito no livro de tombo e estará protegido pela legislação estadual, bem como preservado para as futuras gerações.

De acordo com levantamento feito pelo governo, o acervo está sob a guarda legal do Instituto Dom Helder Câmara (IDHeC). Entre as milhares de páginas, estão circulares, cartas, meditações e discursos.

Há, ainda, livros publicados e material multimídia. É possível conferir também registros de jornais e revistas durante décadas de resistência e luta por direitos humanos.

Ainda de acordo com o governo, o material está disponível para consulta no site da Compahia Editora de Pernambuco (Cepe) , e no Centro de Documentação Dom Helder Câmara, no Recife.

Processo

Arcebispo dom Fernando Antônio Saburido e governador Paulo Câmara participara de solenidade nesta sexta (4), no Recife  — Foto: Governo de Pernambuco/Divulgação

Arcebispo dom Fernando Antônio Saburido e governador Paulo Câmara participara de solenidade nesta sexta (4), no Recife — Foto: Governo de Pernambuco/Divulgação

O pedido de tombamento partiu do Instituto Dom Helder Câmara, por meio do diretor-executivo Antônio Carlos Maranhão de Aguiar. Foi levada em conta a importância a "dimensão estadual, nacional e internacional do acervo, em decorrência do seu valor legal, histórico, cultural e social".

O parecer em que se baseou a resolução foi emitido pelos conselheiros Margarida Cantarelli e Harlan Gadelha, do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural, e aprovado por unanimidade, na terça (1º).

Segundo o estado, uma parte do acervo está totalmente digitalizada. Outra será encaminhada para passar pelo mesmo processo. Uma comissão foi nomeada para acompanhar periodicamente esse procedimento.

Por meio de nota, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara ( PSB ), ressaltou que a homologação da resolução do conselho aponta que a obra do religioso é ”de valor inestimável”.

Para o gestor, “as lições de Dom Helder Câmara nos ajudem a seguir lutando pela democracia, pela liberdade e pela justiça social. ”

Também por nota, Antônio Carlos Maranhão de Aguiar afirmou que é “o reconhecimento de uma pessoa que, além de bispo da Igreja Católica, tornou-se uma das pessoas mais importantes do mundo, na metade do século 20, em defesa da paz”. De acordo com ele, dom Helder “transcendeu os limites do Recife e se espalhou pelo mundo”.

O arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Antônio Saburido, afirmou, por meio de nota, que o tombamento do acervo de dom Helder é uma “iniciativa muito significativa e reconhece o trabalho realizado por Dom Helder e pela igreja católica em Pernambuco”.

Memorial

Além do tombamento estadual do acervo, Pernambuco faz nova homenagem a dom Helder. A partir de sábado (5), o Memorial Dom Helder Câmara reabre as portas. Ele fica na Igreja das Fronteiras, na rua Henrique Dias, na Boa Vista, na área central do Recife.

O memorial ficou fechado durante dois anos por causa da pandemia de Covid-19. O espaço também foi prejudicado por estragos causados pela umidade e o fechamento prolongado.

A partir da parceria entre a Secretaria estadual de Cultura e a Fundação do patrimônio Artístico (Fundarpe), foram feitas obras de manutenção.

Com apoio de instituições estrangeiras, foi possível recuperar os equipamentos de ar-condicionado que estavam danificados.

Quem foi dom Helder

Dom Helder Câmara em visita a Holanda em 1981; livros mostra como passos de religioso no exterior eram monitorados pela ditadura via Itamaraty — Foto: Marcel Antonisse/Wikimedia Commons

Dom Helder Câmara em visita a Holanda em 1981; livros mostra como passos de religioso no exterior eram monitorados pela ditadura via Itamaraty — Foto: Marcel Antonisse/Wikimedia Commons

Dom Helder foi ordenado sacerdote aos 22 anos, no Ceará. Em 1936, se mudou para o Rio de Janeiro , onde desenvolveu a ação apostólica. Tornou-se bispo em 1952 e exerceu o cargo de auxiliar na Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Em 1956, deu início ao projeto da Cruzada São Sebastião, dedicando-se aos moradores de favelas do Rio de Janeiro. Em 1959, fundou o Banco da Providência, para atender aos mais carentes e excluídos.

Em 1964, foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Na ditadura, denuncio torturas e desrespeito aos direitos humanos.

No Recife, abriu o Instituto de Teologia do Recife (ITER), com uma metodologia nova para a formação dos futuros padres e líderes da igreja.

Criou a Comissão de Justiça e Paz, fundou o “Encontro de Irmãos”, a Operação Esperança, além do Banco da Providência.

Dom Helder incentivou a Ação Católica, as pastorais dos diversos meios, bem como a "Campanha Ano 2000 sem Miséria". Em abril de 1985, por causa do limite de idade, foi substituído arcebispado de Olinda e Recife.

Até morrer, morou nos fundos da Igreja das Fronteiras. A sepultura está na Igreja da Sé de Olinda, na Região Metropolitana.

Fonte: G1 Pernambuco, 04/11/2022

Disponível em: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2022/11/04/com-mais-de-210-mil-paginas-de-documentos-acervo-de-dom-helder-camara-ganha-decreto-para-preservacao-da-memoria.ghtml

Categorias
Compartilhe: