21 de Março: Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial

- Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial
Há 66 anos, na África do Sul, houve um massacre contra homens e mulheres negros que reivindicavam o genuíno direito de caminhar livremente pelo seu território. O país, naquele 1960, vivia o ensaio de um dos regimes segregacionistas mais cruéis que o mundo conheceu no pós-guerra. Numa fração de segundos, a polícia matou 69 pessoas, desarmadas, em ato tão covarde e insano que a data, 21 de março, seria eternizada pela ONU.
O Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial virou, assim, símbolo e crítica da discriminação que permanece, em maior ou menor escala, em várias partes do mundo: o racismo sobrevive em escolas, artes, políticas públicas e até em campos de futebol.
Inspirado na luta contra este flagelo, o pesquisador da Coordenação de História da Ciência e da Tecnologia do MAST, Victor Limeira da Silva, escreveu o texto "Quem pode fazer ciência? Memória, história e luta antirracista". Trata-se de um grito que lança luz sobre outro drama mais sutil e por isso igualmente perverso: a ausência de reconhecimento que povos não brancos experimentam cotidianamente. E mesmo na Ciência não é diferente. No texto são citadas personalidades, essencialmente mulheres, que precisam ainda de artigos eloquentes para que seu lugar e importância sejam lembrados e, quem sabe um dia, reconhecidos.
Quem pode fazer ciência? Memória, história e luta antirracista
Victor Rafael Limeira da Silva*
O 21 de março entrou para o calendário internacional após um episódio brutal ocorrido em 1960, na cidade de Sharpeville, na África do Sul. Naquele dia, a polícia do regime do apartheid abriu fogo contra uma manifestação pacífica de pessoas negras que protestavam contra leis que controlavam por onde elas podiam circular no país. Sessenta e nove pessoas foram mortas. Anos depois, as Nações Unidas transformaram essa data no Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, convertendo um massacre em memória política. No Brasil, ao longo das últimas décadas, o dia também se tornou um momento de reflexão pública sobre um racismo que muitas vezes preferimos negar, mesmo quando ele continua presente em nossas instituições e práticas sociais.
Essa recusa em reconhecer o problema sempre foi acompanhada de um mito confortável: a ideia de que o racismo brasileiro seria brando ou pouco importante. A história mostra o contrário. O país que aboliu a escravidão sem criar qualquer projeto de inclusão social construiu, ao longo do século XX, universidades, museus e outras instituições científicas profundamente marcados por desigualdades raciais. A ciência, muitas vezes apresentada como um espaço neutro da razão, também participou desse processo.
Em diferentes momentos, teorias científicas foram usadas para justificar hierarquias humanas. Mediram crânios, classificaram corpos, atribuíram níveis de capacidade cognitiva a diferentes culturas e transformaram preconceitos sociais em supostas verdades naturais. Hoje sabemos que essas teorias, consideradas científicas por quem as formulou, eram científicas apenas na aparência. A genética moderna desmontou a ideia de raças humanas biologicamente distintas. A antropologia e a história mostraram que as classificações raciais nasceram dentro de contextos coloniais e racistas. A própria história da ciência revelou algo fundamental: o conhecimento nunca nasce fora da sociedade. Ele é produzido por pessoas que vivem em determinados contextos históricos e culturais, e que carregam consigo valores, interesses e visões de mundo.
Mas as ideias deixam rastros. Mesmo depois que as teorias raciais foram abandonadas, suas consequências continuaram presentes na maneira como organizamos a memória científica. Quando percorremos a história das instituições científicas, percebemos que muitos nomes simplesmente desapareceram das narrativas ou nunca chegaram a aparecer. Não porque não tenham produzido conhecimento legítimo, mas porque não correspondiam à imagem tradicional da pessoa que faz ciência, quase sempre imaginada como homem e branco.
Neste ano, o Museu de Astronomia e Ciências Afins inaugurará uma nova exposição dedicada ao lugar das mulheres na ciência. Como não poderia deixar de ser, trajetórias de mulheres negras e indígenas estarão presentes. Quase todas elas revelam duas coisas ao mesmo tempo: a persistência do racismo na história das mais diversas áreas científicas e a força transformadora da luta cotidiana, muitas vezes silenciosa, contra o racismo em suas múltiplas formas.
Quando olhamos com atenção para essas histórias, vemos mulheres negras e indígenas abrindo caminhos ao forçar a abertura de portas quase sempre fechadas. Vemos Enedina Alves Marques**, filha de uma família negra pobre, tornar-se engenheira nas primeiras décadas do século XX e participar de importantes projetos de infraestrutura no Paraná. Vemos Eliza Veras da Silva confrontar o racismo e se tornar doutora em matemática com as bolsas de estudo mais prestigiadas da Europa. Vemos Sônia Guimarães tornar-se doutora em física e ocupar o espaço do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, um ambiente que durante décadas sequer aceitava mulheres entre seus estudantes. Vemos Jaqueline Goes de Jesus, biomédica baiana, coordenar o sequenciamento do genoma do vírus SARS-CoV-2 apenas quarenta e oito horas após a confirmação do primeiro caso de COVID-19 no Brasil.
Essas trajetórias não são apenas histórias de esforço individual. Elas revelam algo mais profundo: a lenta reconstrução da própria ideia de quem pode ser reconhecido como produtor ou produtora de conhecimento. Quando vemos Alva Rosa Lana Vieira, educadora Tukano da região do Alto Rio Negro, falar sobre a capacidade de contribuição científica dos povos indígenas; quando Bárbara Carine***, química, escritora e professora, escreve sobre educação antirracista; e quando Anna Maria Canavarro Benite, cientista, professora e pesquisadora, propõe currículos científicos que valorizam referências negras, percebemos que algo importante está em transformação. Não se trata apenas de ampliar a presença de novos sujeitos na ciência. Trata-se de transformar a própria maneira como pensamos o conhecimento. A ciência também é cultura, memória e disputa por reconhecimento. O 21 de março, portanto, é um convite para olhar criticamente para as estruturas sociais que produziram e naturalizaram desigualdades. O racismo não nasceu da natureza.
Ele foi construído historicamente por meio de leis, instituições, teorias e narrativas que deram aparência de normalidade a relações profundamente desiguais e violentas. Reconhecer isso é um passo fundamental para desmontar essas estruturas. A ciência ocupa uma posição curiosa nesse processo. No passado, foi usada para legitimar hierarquias raciais. Hoje, oferece ferramentas intelectuais para desmontá-las. Pesquisas em genética, química, antropologia, ciências sociais e história mostram de forma cada vez mais evidente que as categorias raciais usadas pelo racismo científico não têm fundamento real. Ao mesmo tempo, novas gerações de cientistas ampliam os temas, as perguntas e os sujeitos presentes na pesquisa científica.
Nesse movimento, instituições de memória também têm um papel fundamental. Museus são espaços onde as histórias podem ser revistas, questionadas e contadas de outra maneira. Quando revisitamos acervos, coleções e trajetórias científicas, passamos a enxergar aquilo que antes permanecia escondido ou ignorado. Trazer à tona histórias silenciadas não muda apenas a memória da ciência, mas também o modo como imaginamos seus futuros possíveis.
O 21 de março existe para lembrar que a discriminação racial continua presente em muitas dimensões da vida social. Mas a própria história mostra que estruturas profundamente enraizadas podem ser transformadas. A ciência participou da construção de algumas dessas desigualdades. Hoje, ela também pode participar de sua desmontagem. Não como autoridade absoluta, mas como um campo capaz de refletir criticamente sobre si mesmo e de ampliar a maneira como entendemos a humanidade e suas diferenças.
*Victor Rafael Limeira da Silva
Pesquisador Coordenação de História da Ciência e da Tecnologia
Museu de Astronomia e Ciências Afins
Você pode assistir ao vídeo sobre a história de Enedina Alves Marques clicando aqui