110 anos da Academia Brasileira de Ciências (ABC)

- Everaldo Pereira Frade, especialista em organização de arquivos pessoais e preservação da memória científica do MAST
Teve início nesta terça-feira (28), com uma série de palestras, a comemoração dos 110 anos de criação da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Aberto pela presidente da entidade, Helena Nader, o seminário “ABC 110 Anos: Legado e Futuro”, foi o primeiro de uma série de eventos que terão continuidade até abril do ano que vem. Durante o ato foi lançado o site do Centro de Memória da ABC José Murilo de Carvalho, numa referência ao renomado historiador, cientista político e membro da Academia Brasileira de Letras morto em 2023. O MAST foi representado pelo doutor em história e pesquisador tecnologista, Everaldo Pereira Frade.
Discursaram e destacaram a importância da ABC os seguintes representantes de entidades científicas: Antônio Nardi, presidente da Academia Nacional de Medicina (ANM), Francilene Garcia, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, (SBPC); Denise Carvalho, da Coordenadoria de aperfeiçoamento de pessoal do ensino pessoal (CAPES) ; Eliete Bouskela, diretora científica da Faperj. Também estiveram presentes representantes do Instituto Nacional de Matemática Aplicada (IMPA), UERJ, UFF e UFRJ, entre outras instituições.
O Brasil e o mundo: desafios comuns
Em sua fala, Helena Nader, primeira mulher a presidir a ABC, lembrou que o aniversário da Academia, em 13 de maio, merecerá comemoração por um ano - até abril do ano que vem. Helena disse que a homenagem é extremamente relevante não apenas para o universo acadêmico, mas para o Brasil: "É importante olhar o que fizemos, mas também o que deveremos fazer pela Ciência no país e um momento tão difícil", disse.
Nader lembrou que o mundo, hoje, vive duas guerras: a física - como a guerra do Iraque - e a de palavras - baseada no negacionismo. À sua manifestação seguiu uma referência às demissões impostas pelo presidente americano, Donald Trump, aos 24 membros do Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos, no dia 26 último. O órgão, destacou, um referência mundial, é o responsável por orientar as políticas de ciência via Casa Branca e o Congresso Americano. Para ela, as demissões foram uma demonstração de que a Ciência, em todo o mundo, está sob ataque de negacionistas.
Sobre o momento científico do Brasil, Helena Nader lembrou que o país enfrenta graves problemas energéticos, climáticos, educacionais, sanitários e desigualdades sociais. E só a Ciência, disse, poderá ajudar a resolver tais problemas: "temos imenso potencial científico e precisamos investir em Educação e pesquisa com a valorização de cientista e fortalecimento das instituições científicas".
Resultados da parceria MAST/ABC
Everaldo Pereira Frade, especialista em organização de arquivos pessoais e preservação da memória científica, coordenador da parceria pelo MAST, destacou que o acordo entre o MAST e a ABC vem sendo construído desde 2007, porém com sua efetivação feita somente em 2016/2017 com a cessão, por comodato, da biblioteca da Academia, e assinatura de Acordo de Cooperação Técnica e Científica entre as duas instituições, durante encontro na Biblioteca Henrique Morize/MAST. Ele ressaltou também que em 2023 outro projeto foi pensado para dar conta da organização do arquivo da ABC, com financiamento da FAPERJ para realização de processamento técnico de parte da documentação arquivística, além da sua digitalização e produção do inventário, concluídos em 2026. Na fase atual da parceria, foram organizados 25 mil documentos e digitalizadas cerca de 60 mil páginas de documentos da Academia, entre registros administrativos – estatutos e atas de reuniões -, dossiês de acadêmicos e fotografias, que serão disponibilizados para pesquisa, na Base Zenith do MAST, a partir do próximo mês de maio com acesso gratuito.
A parceria MAST/ABC, para além dos produtos apresentados no evento, tem se caracterizado por incentivar e promover a preservação da memória da ciência brasileira, através do tratamento da relevante biblioteca da ABC e do seu acervo arquivístico centenário.
- O MAST tem sob sua guarda 75 arquivos pessoais de cientistas, mas a negociação com doadores diretos, familiares e representantes é sempre muito difícil. Com a chancela e visibilidade dadas pela ABC, o Arquivo de História da Ciência/MAST tem encontrado menos resistência à doação de arquivos pessoais por cientistas. Essa mudança de postura é referenciada, nos últimos anos, por exemplo, pela incorporação ao MAST de cinco arquivos pessoais importantes, tais como o do astrônomo Sylvio Ferraz, do matemático Jorge Sotomayor, do físico Luiz Pinguelli Rosa, do químico José Israel Vargas e do geólogo Diógenes Campos, todos acadêmicos da ABC. Ao todo o AHC/MAST guarda 22 arquivos de cientistas com passagem pela Academia, destacando-se Henrique Morize e Mauricio Mattos Peixoto, ex-presidentes da instituição.
História da ABC
O doutor em física e professor da UFRJ,Ildeu de Castro Moreira lembrou que o Brasil foi um dos últimos países a ter sua academia científica. A maior parte dos países europeus instituiu suas academias ainda no século XVII, como foi o caso da Itália.
Mas ele lembrou que no Rio de Janeiro, ainda no século XVIII, houve duas tentativas de criar academias de ciências. A Academia Científica do Rio de Janeiro e a Sociedade Literária do Rio tentaram organizar pessoas para discutir ciência no Brasil. Mas as pessoas foram presas e exiladas por isso: "por tentar discutir Ciência no final do século XVIII".
O professor fez uma explanação sobre a história da ABC ao longo desses 110 anos e revelou que apenas com a democratização do país houve o fortalecimento e a consolidação da entidade.
Mas, apesar de tardia, Ildeu Moreira, a criação da ABC apresentou alguns ineditismos. Um deles foi a posse do psiquiatra negro, Juliano Moreira, ainda na década de 20 do século passado, na presidência da entidade. O médico baiano, que foi vice-presidente de Henrique Morize por 10 anos, em 1926 tornou-se o primeiro negro a presidir uma entidade científica em todo mundo. Seu mandato durou de 1926 a 1929.
Ildeu lembrou ainda que no século XX o Brasil passou por duas ditaduras. E este ciclo, somados, representa 1/3 da história do país no século. A repressão também incidiu negativamente sobre a pesquisa científica. Mas o físico lembrou que nem tudo foram flores neste período:
- A Academia Brasileira de Ciência, na deflagração do AI5, não se posicionou em defesa dos cientistas exilados. Foram 50 pesquisadores perseguidos - lembrou.
Por outro lado, a instituição do Prêmio Mulheres na Ciência foi importante para ampliar a participação feminina nas academias.
Outra marca importante, e que confirma a tendência da renovação científica, foi a eleição da atual presidente, Helena Nader, em 2022 e sua recondução em 2025 para a presidência da ABC. Ela entra para a história como a primeira mulher a chegar à presidência.

