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Dia Internacional da Matemática
A escolha da data para a celebração do Dia Internacional da Matemática não ocorreu ao acaso: 14/3 é uma representação do número do PI: 3,14. Trata-se da constante irracional da Matemática que representa a proporção entre o perímetro (circunferência) de qualquer círculo e o seu diâmetro.
Temida por muitos e admiradas por tantos outros, a Matemática ganhou representantes em escala mundial que vão muito além das salas de aula. Olimpíadas entre estudantes e competições pelo mundo afora estimulam o desenvolvimento do raciocínio lógico e transformam seu estudo em um desafio com muitos adeptos.
E, no Brasil, não foi diferente. Ao longo dos anos, muitos cientistas conquistaram relevância e histórica e internacional pela sua dedicação e amor a esta Ciência. Sua prática e seu ensino.
Dois dos brasileiros que alcançaram status de "gênios dos números" são os pernambucanos Maria Laura Mouzinho Leite Lopes e Leopoldo Nachbin. E ambos têm os acervos mantidos pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). Assim, sua trajetória acadêmica e pessoal pode ser pesquisada por professores, estudantes e pesquisadores aqui no museu.
Nascida em 1917, Maria Laura foi a primeira mulher a se doutorar em Matemática no Brasil. Foi vítima do machismo e superou desafios para alcançar um grau muito próximo da devoção de alunos e admiradores. A ditadura, no entanto, antecipou sua aposentadoria e a levou por muito tempo para longe das salas de aula. Mas ela daria a volta por cima.
Leopoldo ficou conhecido, entre outras coisas, pelo “Teorema de Nachbin” - usado para estabelecer limites nas taxas de crescimento de funções analíticas. Nascido em 1922, Nachbin desenvolveu o Teorema aplicado para determinar o domínio de convergência da transformada de Borel Generalizada (TBG) , também chamada de somatório de Nachbin.
Parece difícil? Eles garantem que não!
A pedido da Comunicação do MAST, os filhos destes dois matemáticos escreveram textos em memória dos seus pais. Angela Leite Lopes, pesquisador de teatro, professora e tradutora, filha de Maria Laura, e o jornalista, documentarista e professor Luís Nachbin, filho de Leopoldo.
E você pode ler os textos agora:
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"Meu Pai tomava um leve café da manhã, lia o Jornal do Brasil, caminhava até o escritório dele, na nossa casa, ligava o rádio em uma estação que só tocava música clássica, pedia para ninguém chamá-lo, fechava a porta... e então adentrava as profundezas inexplicáveis, incompreensíveis, para mim, da Matemática abstrata. Ainda adolescente, considerava “excesso de rigor” não poder dar uma palavrinha com o meu Pai, ao longo de horas seguidas. Muitas vezes, meu Pai só sairia do escritório para almoçar. Enquanto comíamos, era comum perceber que o olhar dele estava distante. Por volta de 18h, invariavelmente, meu Pai se afastava por completo dos livros e da máquina de escrever. Nem dúvidas básicas da minha Matemática de quinta série eu podia levar a ele, após seis da tarde. O gênio de temperamento nada genioso precisava de algumas horas para que todo o seu arsenal intelectual atingisse o desejado estado de repouso... e assim ele pudesse ter um sono tranquilo. Somente na vida adulta é que me dei conta que convivia com um gênio. Um gênio da Matemática cujo cérebro fazia uso de todos os seus “HDs internos e processadores” para acessar camadas de conteúdo que o consagraram internacionalmente. Meu Pai partiu em 03 de abril de 1993, aos 71 anos. Eu, na época com 29, já admirava a relação de amor puro que ele tinha pela chamada “Matemática pura”. Hoje em dia, sempre que coloco música clássica durante o trabalho, me sinto inspirado por ele". |
Minha mãe, Maria Laura Mouzinho Leite Lopes, ficou conhecida como a primeira doutora em Matemática do Brasil. Esse fato fez dela, sem dúvida, uma pioneira, alguém que ajudou a abrir caminho para a participação das mulheres no campo da ciência. Mas tenho certeza de que ela gostaria mesmo é de ser lembrada por seu empenho em melhorar o ensino da matemática, em renovar as bases da educação. A mais velha de oito irmãos, de quem ajudou a cuidar desde muito cedo, Maria Laura tinha talento para acolher e unir. Foi assim conosco, seus filhos e netos, como também com seus sobrinhos e amigos, que ela recebeu em sua casa nos diversos países em que morou. De temperamento decidido e, principalmente, otimista e bem-humorado, saiu de Timbaúba dos Mocós, na zona da mata de Pernambuco, e foi ganhando o mundo, às vezes por escolha, às vezes por força das contingências: Recife, Rio de Janeiro, Chicago, Pasadena, Paris, Pittsburgh, Estrasburgo. Nesta última, onde viveu anos de exílio por ter sido aposentada da UFRJ pelo AI-5, enveredou pelo campo da Educação Matemática, no qual permaneceu quando, de volta ao Rio e a esta universidade, esteve à frente do Projeto Fundão até os seus últimos dias de vida, conseguindo realizar o seu desejo de nunca mais se aposentar. |
"Meu pai era um gênio da Matemática"
"Minha mãe tinha talento para acolher e unir"