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MAST recebe visita do primeiro professor titular negro da Física da UFRJ
José Benito Abellás, Heráclio Tavares, Antônio Carlos Fontes Santos, Marcio Rangel, Larissa Medeiros e Everaldo Frade
No último mês, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) recebeu a visita do professor Antônio Carlos Fontes Santos, especialista em Física Atômica e Molecular e, mais recentemente, em Física Nuclear.
O encontro aconteceu em 30 de abril, quando o cientista veio ao MAST a convite do pesquisador Heráclio Tavares, da Coordenação de História da Ciência e Tecnologia (COCIT) do museu. Ao longo da visita, Antônio conheceu a estrutura arquivística do MAST e participou de uma reunião, na qual estiveram presentes: Marcio Rangel, diretor do MAST; Larissa Medeiros, coordenadora de Ciência e Tecnologia; José Benito Abellás; coordenador de Documentação e Arquivo; Everaldo Frade, chefe do Serviço de Arquivo de História da Ciência; e o pesquisador Heráclio Tavares (COCIT/MAST). O objetivo da reunião foi discutir a possibilidade de doação do acervo profissional e pessoal do cientista ao MAST.
Um passo importante
Ao longo dos anos, o MAST vem promovendo eventos que estimulam a reflexão e o debate sobre o protagonismo negro e sua representatividade na ciência, dentre outros temas referentes a minorias políticas. Diante disso, a atual gestão do museu tem buscado preencher uma grande lacuna em seu acervo: ter, sob a guarda do MAST, arquivos de cientistas negros.
Nesse sentido, a visita do físico Antônio Carlos Fontes Santos foi de fundamental importância para um primeiro passo nessa direção. Isso porque, além de militante do movimento negro, Antônio é o primeiro professor titular negro da Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Com o intuito de aprofundar o tema e conhecer melhor a trajetória do físico, a equipe de Comunicação do MAST conversou com Antônio Carlos sobre representatividade negra na ciência, racismo e legado. Confira a seguir:
Como enxerga a presença de pessoas negras na ciência hoje em dia, nas possíveis áreas de atuação, especialmente ao abordarmos o campo STEM?
Antônio Carlos Fontes Santos - A ciência é uma empreitada social, ou seja, o conhecimento científico não é produzido de forma isolada ou neutra, mas sim no interior de uma comunidade humana, influenciado por contextos culturais, econômicos, históricos e políticos. Quando a ciência é dominada por um pequeno grupo, quase homogêneo, com uma origem muito particular, fica muita limitada com respeito aos contextos que citei. Então, a presença de pessoas negras e indígenas enriquece a ciência. Na área de exatas, em particular, onde a presença - seja de pessoas negras, seja de mulheres de modo geral -, ainda é minoritária , só temos a ganhar.
2 - Como a questão racial atravessou sua formação e seu trabalho ao longo dos anos?
ACFS - Eu me entendo como negro desde a infância. O racismo sempre esteve presente, nas mais diversas formas. Em particular, durante o meu doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), onde há uma estratificação clara, em que há alunos, professores e técnicos administrativos majoritariamente brancos, enquanto os negros estavam presentes como servidores braçais. Nesse momento, eu comecei a perceber o meu papel naquele espaço. Um grupo de funcionários negros me disse: "Você é um de nós no meio dos bacanas". Na ocasião, eu já colaborava em cursos pré-vestibulares sociais.
Muito mais tarde, como professor da UFRJ, me juntei à EDUCAFRO [ONG que tem como missão promover a dignidade da pessoa humana, com ênfase na população afro-brasileira e de baixa renda, por meio da educação, da defesa e promoção de direitos e da articulação comunitária], fundada pelo Frei David. Mais ou menos na mesma época, comecei a trazer estas questões para a academia, por meio de artigos, orientações com temática racial etc. Também fui membro do Grupo de Trabalho de Minorias da Sociedade Brasileira de Física (SBF), em que criamos o Prêmio Anselmo Paschoa para pesquisadores negros jovens.
3 - De acordo com uma análise do Ipea, vem crescendo a proporção de pessoas negras no comando de grupos de pesquisa do país. Consegue constatar isso no seu cotidiano?
ACFS - Como meu trabalho é dentro de um Instituto de Física, ainda não vemos um número significativo de pessoas negras no comando de grupos de pesquisa, embora haja, de forma bem tímida, mais pessoas negras na área das Ciências Exatas.
4 - Faz parte das suas ações a integração da ciência com o movimento? Se sim, como atua nesse sentido?
ACFS - Sim, tenho procurado fazer essa integração. Vários trabalhos de mestrado e doutorado que orientamos são desenvolvidos em escolas periféricas, onde a maioria dos estudantes é negra. Tenho levado essa discussão também para o instituto onde atuo. Alguns anos atrás, era impensável, por exemplo, ter um colóquio em um instituto de Física sobre a temática racial. Alguns alunos de graduação negros me procuram, também interessados sobre estas questões.
Um fato interessante é que, há alguns anos, fui contemplado com o Edital Abdias do Nascimento, promovido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), momento em que pudemos discutir questões raciais e inclusão de alunos cegos.
5 - Tanto no campo profissional quanto pessoal, que legado gostaria de deixar para os futuros cientistas?
ACFS - Sou fruto do ensino público, gratuito e de qualidade. Acredito que a minha maior contribuição na academia seja a formação de capital humano, como mestres e doutores. Alguns de meus ex-alunos hoje são pesquisadores. Tenho atuado e formado doutores nas áreas de Física Atômica e Molecular, ensino de Física e Matemática e, mais recentemente, em Física Nuclear. Assim como sou grato aos meus orientadores, procuro passar esse conhecimento à frente, formando e incentivando novos pesquisadores.
6 - De que maneira, acredita que seu conjunto memorialístico pode contribuir para o avanço da presença de pessoas negras no campo científico no futuro?
ACFS - Creio que meu legado servirá principalmente para os jovens. Percebo que muitos buscam referências, pessoas como eles ou elas. Carl Wieman e colaboradores, em um artigo instigante publicado na Physics Today, argumentam que a motivação e o aprendizado podem ser significativamente prejudicados quando estudantes temem que indivíduos com seu perfil não sejam vistos como pertencentes à Física — ou que sejam avaliados negativamente por professores e colegas em função de sua identidade social. Em contextos acadêmicos de alta exigência intelectual, é comum que indivíduos estejam conscientes de estereótipos negativos associados ao seu grupo. No campo das ciências físicas, tais estereótipos tendem a afetar de maneira mais intensa mulheres e minorias étnicas não asiáticas.
Saiba mais sobre o cientista
Antônio Carlos Fontes Santos é formado em Física Atômica e Molecular, com a utilização de aceleradores. Graduado pela UFRJ, possui mestrado pela mesma universidade e doutorado pela PUC-Rio; dois pós-doutorados nos Institutos de Química e de Física da UFRJ; e dois estágios de pós-doutoramento nos EUA e no Canadá. Atualmente, além de professor titular na UFRJ, é Cientista do Nosso Estado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Atua em pesquisa relacionada ao Ensino de Física e Matemática e, mais recentemente, em Física Nuclear.
Outras ações
Além de eventos e cursos que discutem a representatividade negra na ciência, o MAST inclui, em suas ações educativas, a atividade “Lugar de Erê é no MAST”, que promove: reflexões sobre representatividade e invisibilização das culturas negras da mitologia à ciência, destacando personalidades de diversas etnias; a percepção de cor/profissão e a ciência sob uma perspectiva antirracista; e a contribuição do continente africano ao conhecimento matemático, por meio do jogo mancala. A atividade, que acontece todo terceiro sábado de cada mês, também conta com a apresentação do panteão de uma etnia africana, com foco no Erê, relacionando-o a outros panteões conhecidos.
Ainda, vale destacar que o MAST integra parte do Programa de Museus Antirracistas, conduzido pelo Instituto Pretos Novos (IPN). Nesse sentido, foi uma das instituições que se comprometeu a contribuir com a elaboração da cartilha “Museus Antirracistas”, que conta com diretrizes para ações antirracistas em museus.