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Aula inaugural do PPACT aborda Patrimônio Cultural de Burkina Faso
Aula inaugural do PPACT com o tema ''Patrimônio Cultural de Ciência e Tecnologia de Burkina Faso''
Na última quinta-feira, 09 de abril, o Programa de Pós-graduação em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia (PPACT/MAST) promoveu a aula inaugural do primeiro semestre de 2026. Durante o encontro, os pós-graduandos puderam conhecer um pouco mais sobre o "Patrimônio Cultural de Ciência e Tecnologia de Burkina Faso". Falaram sobre o tema os pesquisadores Idrissa Deme, do Observatório Nacional (ON), e Pingréwaoga Savadogo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A moderadora da conversa foi Eloísa Sousa, doutora em Museologia e Patrimônio pelo PPG-PMUS/MAST-UNIRIO.
A aula foi aberta por Guadalupe Campos, coordenadora do Programa de Pós-Graduação e Cláudia Penha, organizadora do evento. Idrissa e Savadogo seguiram apresentando ao público aspectos históricos e científicos de seu país, que reúne dezenas de etnias e línguas. Savagogo mostrou imagens de diversos sítios arqueológicos que estão espalhados pelo território e remontam à milenar tecnologia desenvolvida pelos povos locais para o trabalho com o minério de ferro.
"As tecnologias dos fornos de redução de minério eram já muito sofisticadas. Isso comprova que as populações detinham já um conhecimento profundo de termodinâmica e geologia local pra extração do minério. As diferentes ferramentas produzidas e suas eficiências nas atividades de diferentes populações, de caçadores, pescadores, coletores, no desenvolvimento e consolidação da agricultura, no desenvolvimento de civilizações guerreiras, dos diferentes reinados e impérios. E nas sociedades africanas os grandes atores dessas revoluções são os ferreiros, que socialmente são considerados como primo, o primeiro filho da humanidade", explicou Pingréwaoga.

- Pingréwaoga Savadogo e Idrissa Deme no MAST
Juntos, os dois mostraram diversas tecnologias e iniciativas que fizeram parte do desenvolvimento científico de Burkina Faso, sempre ligadas aos saberes ancestrais. A violência da colonização sofrida nos territórios africanos em diferentes momentos de sua história também fez parte da conversa, já que a ocupação forçada de tantos territórios silenciou manifestações culturais e exterminou técnicas que o continente africano já dominava há milhares de anos.
"Outro ponto importante, a questão das escritas. Porque uma das coisas da história da África, inclusive o argumento que é utilizado para dizer que nossas línguas são dialetos é o de dizer que não tínhamos sistemas de escrita. Isso não é verdade, os sistemas de escrita também faziam parte da nossa cultura. São considerados sagrados. Então, quem tinha acesso a esses sistemas de escrita eram pessoas especiais. Inclusive foram os primeiros a serem mortos, os famosos Griôs. Quando os colonizadores chegavam, os primeiros que eles matavam eram essas pessoas. Então alguns povos africanos de fato perderam sua memória escrita, perderam literalmente pela violência da colonização", lembrou Idrissa.
Sobre os participantes
Idrissa Deme (Observatório Nacional) - Possui graduação em Física aplicada pela Université de Ouagadougou, pós-graduação em Mecatrônica pela Universidade Católica de Petrópolis / Instituto de Pesquisa e Tecnologia, pós-graduação em Ensino de Nanociência e Nanotecnologias pela Universidade Franciscana, pós-graduação em Proteção Radiológica e Segurança de Fontes Radioativas pelo Instituto de Radioproteção e Dosimetria / Agência Internacional de Energia Atômica, mestrado em Metrologia e Qualidade pelo Instituto Nacional em Metrologia Qualidade e Tecnologia e doutorado em Física pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Pingréwaoga Béma Abdoul Hadi Savadogo (Unifesp) - Pós-doutor em História da Arte pela Universidade Federal de São Paulo. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Especialista em Estudos Africanos e História da África. Membro e pesquisador do Núcleo Amanar da Casa das Áfricas. É Pesquisador Associado I do Instituto de Estudos da África da Universidade Federal de Pernambuco (IEAf-UFPE) e Membro e pesquisador da Cátedra Lourenço da Silva Mendonça-UNIFESP, que homenageia o príncipe Mbundu (hoje Angola) anti-abolicionista. É mestre em Terapia Ocupacional Social pela UFSCar/SP, graduado em Antropologia Social e Cultural pela Universidade de Bamako (Mali) e bacharel em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Eloísa Ramos Sousa (Fiocruz) - Doutora em Museologia e Patrimônio (PPG-PMUS - MAST/UNIRIO). Mestra em Relações Étnico-Raciais pelo CEFET/ RJ, especialista em Cultura, História e Literaturas Afro-brasileiras e Africanas. Museóloga graduada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense. Recebeu Menção Honrosa no Prêmio ANCIB de melhor Tese. Atualmente é servidora da Fundação Oswaldo Cruz.