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Família, estudo e descanso
Conheça Alexandra, a primeira educadora museal surda do MAST
Alexandra Araújo Findlay, 23 anos, é a primeira bolsista surda da história dos 40 anos do MAST. Atualmente ela cursa Pedagogia Bilíngüe no Instituto Nacional de Educação de Surdos (Libras e Português) e é estagiária na Coordenação de Educação em Ciências. Com um irmão gêmeo e outro mais velho, ela vê aspectos positivos e negativos no fato de ser a primeira surda no museu: encerra-se um ciclo e inicia-se um processo de inclusão, mas é prova de que há um longo caminho a trilhar neste campo. Após a graduação, ela terá como metas a conclusão de uma pós, mestrado e doutorado. Seu sonho? Ser uma mulher surda que inspire outras surdas.
A Comunicação do MAST entrevistou Alexandra:
Comunicação - Qual a origem da sua surdez?
Alexandra - Eu nasci ouvinte, porém conforme foram passando os anos, a minha audição foi diminuindo. Houve um momento que eu não percebi que a minha mãe estava me chamando e não escutei. Foi nesse momento que eu perdi a audição no ouvido direito, que é profunda e no esquerdo, severa.
Comunicação - Como a família a descobriu surda?
Alexandra - Eu sou gêmea do meu irmão surdo. Minha mãe descobriu quando éramos bebês de 1 ano de idade, e minha bisavó fez um teste de barulho para testar a gente. Nessa idade, só meu irmão gêmeo que não escutou, e eu fui perdendo a audição aos poucos.
Comunicação - Como foi a adaptação da família? Você desenvolveu a comunicação por Libras?
Alexandra - Quando a minha mãe descobriu que o meu irmão gêmeo é surdo, ela procurou um jeito para poder se comunicar com o filho e fez curso de Libras por 4 anos no Instituto Nacional de Educação de Surdos. E eu fui aprendendo junto com ela, praticando junto em casa. Minha família se comunica em Libras com meu irmão gêmeo e comigo em Libras ou português.
Comunicação - Sua educação ocorreu em um colégio tradicional para ouvintes? Se sim, como foi a adaptação? Foi alvo de preconceito? Havia professores preparados?
Alexandra - Eu estudei em uma escola particular que não tinha intérprete de Libras. E apesar de eu ser surda oralizada, precisei me esforçar para aprender os conteúdos. Os professores não estavam preparados, mas minha mãe sempre conversava com eles para que eu fosse colocada na primeira cadeira, para eu conseguir ouvir e fazer leitura labial e usava aparelhos auditivos para isso.
Comunicação - Em 2010, com o Congresso de Vancouver, e o cancelamento do modelo de Milão, houve uma guinada, pelo menos no campo teórico, no método de ensino com a priorização da língua de sinais. Você percebe melhorias no campo prático?
Alexandra - Percebe-se que existem leis que garantem o direito de acessibilidade dos alunos surdos como a Lei 10.436/2002 e o Decreto 5.626/2005. Contudo, na prática, a realidade ainda é bastante falha: falta de professores capacitados para ensinar, falta de intérprete de Libras, de projeto bilíngues e insuficiência de recursos materiais adequados.
Comunicação - Há, de verdade, um desenvolvimento e ampliação da comunicação em Libras?
Alexandra - Sim, devido ao reconhecimento legal da língua - Libras, algumas escolas têm intérpretes de Libras e instrutores surdos, porém é necessário melhorar e avançar.
Comunicação - Um dos maiores problemas que se verifica ao longo da Educação de Surdos é o preconceito e a crença de que seriam intelectualmente menos preparados. Hoje este tabu está superado? Por quê?
Alexandra - Não. Ainda existe preconceito, acham que as pessoas surdas não têm capacidade ou são menos inteligentes. Mas muitas pessoas surdas conseguem estudar, trabalhar e desenvolver atividades profissionais. A surdez não impede o aprendizado ou desenvolvimento profissional.
Comunicação - O que você espera de um projeto como este, desenvolvido pela COEDU, chamado "Universo em Libras - - Lugar de surdo é no MAST"?
Alexandra - Como a primeira surda a trabalhar no Museu de Astronomia, quero ampliar o acesso dos alunos surdos ao conhecimento de forma acessível, por meio da Libras, valorizar a língua e a cultura surda, e o mais importante: reduzir as barreiras de comunicação e exclusão social.