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MAST lança Programa de História Oral da Ciência e Tecnologia
O MAST lança no próximo dia 12 de junho o Programa de História Oral da Ciência e Tecnologia (ProHoct). O programa, que visa a incentivar a pesquisa sobre a Ciencia e a Tecnologia no Brasil utilizando a metodologia da história oral, estará sob a condução da pesquisadora Larissa Medeiros, da Coordenação de História da Ciência e Tecnologia (COCIT).
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A Comunicação do MAST conversou com Larissa Medeiros:
Quais os objetivos do Programa de História Oral da CT?
Larissa Medeiros - O Programa tem como objetivo incentivar a produção, a guarda, a preservação, a pesquisa e a divulgação de entrevistas de história oral que contribuam para o entendimento da história e do processo de constituição da Ciência e Tecnologia (C&T) no Brasil. O MAST já realizou e continua realizando pesquisas que utilizam a metodologia da história oral. Com o Programa, buscamos padronizar os instrumentos de pesquisa e assegurar que todas as iniciativas sigam procedimentos éticos adequados. Além disso, planejamos desenvolver ações como cursos, oficinas e debates, com o propósito de promover um espaço de reflexão e troca de experiências sobre métodos e técnicas da história oral, especialmente no contexto da Ciência e Tecnologia.
Comunicação - A metodologia da pesquisa pode facilitar a obtenção de respostas no contato entre pesquisador e pesquisado? De que maneira?
LM - Sim. A história oral apresenta algumas diferenças importantes em relação às entrevistas comuns, que favorecem a aproximação com a pessoa entrevistada. Enquanto entrevistas, em geral, buscam respostas mais objetivas e diretas, muitas vezes limitadas a um roteiro fixo de perguntas, a história oral privilegia a escuta atenta e a abertura para que o entrevistado narre livremente sua trajetória, memórias e percepções. Isso cria um ambiente mais acolhedor e colaborativo, favorecendo que as respostas não sejam apenas superficiais, mas também tragam reflexões, afetos e sentidos mais profundos. Além disso, a história oral reconhece o entrevistado como um sujeito ativo na construção do conhecimento, e não apenas como uma fonte de dados. Assim, essa metodologia amplia a qualidade e a complexidade das informações coletadas, contribuindo para análises mais sensíveis.
Comunicação - Como se dá, na prática, o contato entre pesquisador e pesquisado?
LM - O contato varia conforme as especificidades de cada projeto e a relação prévia que os pesquisadores mantêm com as pessoas entrevistadas. Em alguns casos, já existe uma aproximação institucional ou pessoal, em outros, será necessário estabelecer um vínculo inicial, explicando os objetivos da pesquisa e convidando para a participação.
Comunicação - Tendo em vista o modelo tradicional de pesquisa, o que irá mudar na relação entre pesquisadores e pesquisados (presencial ou poderá ser por meio digital?)
LM - Isso ainda é um tema em debate no campo da história oral. Antes da pandemia, havia uma preferência predominante pela realização de entrevistas presenciais, por se considerar que esse formato favorece a aproximação entre pesquisador e entrevistado, permitindo observar aspectos importantes, como expressões faciais, gestos e outros elementos não verbais. No entanto, mesmo naquele período, alguns projetos já recorriam a entrevistas à distância, quando fatores como a localização geográfica tornavam inviável o encontro presencial. Com a pandemia, as entrevistas on-line passaram a ser, em muitos casos, a única alternativa possível, abrindo novas possibilidades metodológicas que passaram a ser incorporadas em diversos projetos. No MAST, continuaremos a privilegiar as entrevistas presenciais, justamente pela riqueza que oferecem ao encontro mas, quando não for possível, seja por questões financeiras ou logísticas, também realizaremos entrevistas on-line.
Comunicação - Quais os temas que serão abordados nas pesquisas?
LM - As pesquisas incluirão temas relacionados à história e ao processo de constituição da ciência e tecnologia no Brasil, considerando diferentes perspectivas institucionais, sociais e culturais. A metodologia da história oral será utilizada como ferramenta central para captar memórias, trajetórias e experiências de diversos sujeitos envolvidos com a ciência, ampliando a compreensão sobre como ela é construída, praticada e percebida no país.
Comunicação - Existem públicos - alvos de pesquisa - que podem se sentir, digamos, incomodados com a abordagem do pesquisador? Pode citar exemplos?
LM - Sim, existem públicos que podem se sentir incomodados com a abordagem do pesquisador, especialmente quando os temas tratados envolvem aspectos sensíveis ou experiências pessoais difíceis. Por isso, é fundamental que o pesquisador adote procedimentos éticos rigorosos para minimizar esses riscos. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que deve ser apresentado e assinado antes da entrevista, garante que a pessoa esteja plenamente informada sobre os objetivos da pesquisa, sobre como seus relatos poderão ser utilizados, e que tenha a liberdade de recusar responder a determinadas perguntas ou, ainda, solicitar que trechos da entrevista sejam apagados. O TCLE assegura a autonomia do entrevistado e estabelece um compromisso ético de respeito. Além disso, a própria metodologia valoriza uma abordagem empática e sensível por parte do entrevistador, que deve estar preparado para lidar com temas potencialmente delicados, como memórias relacionadas à ditadura, episódios de violência, luto, entre outros. O respeito, a escuta atenta e a disposição para adaptar-se ao ritmo e aos limites de cada pessoa são fundamentais para que a entrevista seja conduzida de forma ética e responsável.
Comunicação - Quantos são os pesquisadores envolvidos no Programa?
LM - A elaboração do documento estruturante do Programa contou com a participação de oito pesquisadores, entre servidores e bolsistas, das Coordenações de História da Ciência e Tecnologia (COCIT) e de Documentação e Arquivo (CODAR) do MAST. Da COCIT, participaram: Agda Britto, Alfredo Tolmasquim, João de Campos, Larissa Medeiros, Maria Gabriela Bernardino, Marta de Almeida e Moema Vergara; e, da CODAR, Everaldo Frade.
Comunicação - Qual sua expectativa enquanto coordenadora da COCIT para este trabalho? Que retorno você espera obter desta nova diretriz?
LM - A estruturação do Programa foi selecionada como uma iniciativa estratégica no Plano Diretor do MAST (2022-2026) antes mesmo de eu vir trabalhar na instituição. Antes de virar uma iniciativa, foram mapeadas algumas fontes importantes de história oral já presentes em nosso acervo, que necessitam de tratamento e organização adequados. O Programa representa um passo importante neste sentido, pois estamos recebendo todo o apoio da Direção para garantir a preservação desses materiais e, ao mesmo tempo, fomentar a produção e a captação de novas fontes relacionadas à ciência brasileira, que irão compor e ampliar o nosso Acervo de História das Ciências. Além disso, minha expectativa é que o Programa contribua para consolidar e aperfeiçoar procedimentos, com a adoção de instrumentos padronizados e o alinhamento aos padrões éticos reconhecidos na área. Dessa forma, buscamos fortalecer ainda mais a qualidade, a transparência e a preservação das fontes de história oral produzidas e preservadas pelo MAST.
Comunicação - Qual destino será dado ao material apurado pelos pesquisadores? Livros, publicações digitais, vídeos?
LM - O Programa inclui os projetos de pesquisa que utilizam a metodologia de história oral no MAST. Existem inúmeras possibilidades de uso das entrevistas realizadas nesses projetos, e isso dependerá das escolhas do grupo de pesquisa. Livros, podcasts, vídeos curtos para mídias sociais e documentários são alguns dos produtos que podem ser desenvolvidos no âmbito dessas iniciativas.
Comunicação - Há um prazo para término deste trabalho?
LM - Não. A proposta é que o Programa seja uma iniciativa permanente, institucionalizada no MAST, garantindo a continuidade das ações de preservação, produção e difusão de fontes de história oral relacionadas à ciência e tecnologia no Brasil. O objetivo é que ele seja mantido de forma contínua, integrando-se de maneira definitiva às atividades da instituição.