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Com um dos maiores potenciais nucleares do mundo, Brasil quer explorar suas reservas de urânio
De acordo com dados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Brasil tem cerca de 250 mil toneladas em reservas reconhecidas de urânio, principal combustível para a geração de energia nuclear.
Fonte: Forum
O país está entre os cinco maiores detentores do recurso no mundo, com cerca de 6% do total mundial, o que ganha dimensão importante diante da demanda para abastecer novas tecnologias intensivas em energia.
Após anos de desaceleração da energia nuclear no Ocidente, associada a altos custos de implantação e a acidentes, as maiores potências nucleares do mundo voltaram a investir em geração nuclear continuada de baixo carbono. China, Índia, Rússia, Coreia do Sul, França e Estados Unidos estão entre os principais produtores.
No caso brasileiro, a mineração de urânio é conduzida principalmente pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, que produz o concentrado do metal e integra as etapas do ciclo de combustível nuclear segundo os marcos regulatórios adotados pelo país.
O principal centro de produção nacional está localizado em Lagoa Real, no sudoeste da Bahia, região que integra a Província Uranífera de Lagoa Real (PULR).
Lá, em uma área de cerca de 1.500 quilômetros quadrados entre a Chapada Diamantina e a Serra do Espinhaço, o teor médio do urânio é de 2.000 ppm (partes por milhão), considerado elevado pelos padrões internacionais.
As reservas de Lagoa Real somam cerca de 73,8 mil toneladas, com potencial de ampliação. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), cerca de 90 mil toneladas adicionais ainda permanecem não descobertas na região.
Informações divulgadas em 2024 mostram um mapa de regiões favoráveis para a prospecção de urânio em Lagoa Real, com novas áreas promissoras para campanhas de pesquisa mineral.
A energia nuclear representa, hoje, cerca de 3% da matriz elétrica nacional, o equivalente a aproximadamente 15,8 TWh anuais.
Há duas usinas em operação: Angra 1 e Angra 2, na Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), em Angra dos Reis (RJ), sob administração da Eletronuclear.
A Angra 3, cujas obras de implantação estão em andamento, está projetada para gerar 1.405 MW adicionais.
Com a entrada em operação de Angra 3, a demanda brasileira poderá subir para algo entre 700 e 900 toneladas anuais.
Na tecnologia de enriquecimento de urânio, o país desenvolve a ultracentrifugação com levitação magnética no Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), localizado em São Paulo, voltado a pesquisas em tecnologia nuclear e produção de insumos radiofármacos para o tratamento de câncer.
A tecnologia, presente em menos de 15 países no mundo, é considerada uma das mais eficientes e avançadas do setor, desenvolvida de forma independente pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN).
A história do país com a exploração do urânio começou com o Convênio Geofísica Brasil-Alemanha (CGBA), firmado em 1970, com o objetivo de treinar técnicos brasileiros no uso de equipamentos avançados de prospecção aérea.
Entre 1976 e 1977, foram descobertas as reservas de Santa Quitéria, no Ceará, e Lagoa Real, na Bahia, onde a antiga Nuclebrás identificou dezenas de anomalias radioativas, algumas das quais evoluíram para os depósitos minerais hoje explorados pela INB.
Além da Bahia, outro grande eixo estratégico da mineração de urânio brasileira está localizado em Santa Quitéria/Itataia, no Ceará, região com rochas fosfáticas ricas em fósforo, utilizadas na produção de fertilizantes.
O urânio, além de fonte de energia, também está associado à produção de fertilizantes fosfatados, setor em que o Brasil possui potencial para produzir cerca de 1,05 milhão de toneladas anuais.
Nos anos 1950, o governo brasileiro iniciou programas sistemáticos de prospecção de urânio, especialmente na região de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Posteriormente, a cidade se tornaria o primeiro grande centro de mineração de urânio do país.
Em 1982, Poços de Caldas passou a operar com capacidade anual próxima de 466 toneladas de urânio, empreendimento que se tornou economicamente inviável a partir de 1994.
Desde então, a região passou a ser afetada pela drenagem ácida do solo causada pelos rejeitos da mineração, que infiltravam reservas de águas subterrâneas.
Apesar dos desinvestimentos no setor, a Política Nuclear Brasileira estabeleceu, a partir de 2018, novas diretrizes e incentivos para a pesquisa e a prospecção de minerais nucleares. A partir do SGB, o país passou a contar com o Projeto Urânio Brasil, voltado à atualização do conhecimento geológico nacional sobre depósitos do recurso.
Depois de Lagoa Real, uma das áreas prioritárias em investigação passou a ser a região de Rio Cristalino, no sul do Pará, já estudada pela antiga Nuclebrás, com registros locais de até 5,2% de urânio em determinadas anomalias.
Os estudos ainda estão em andamento, mas dados preliminares indicam potencial para depósitos de grande porte e alto teor.
Além da mineração, o domínio da cadeia nuclear envolve etapas tecnológicas complexas, como conversão química, enriquecimento isotópico, fabricação de combustível e gestão de rejeitos radioativos. O Brasil já domina parte dessas tecnologias e é um dos poucos países do mundo com capacidade de enriquecimento de urânio por ultracentrifugação.
O país reúne condições geológicas fundamentais para dominar o ciclo nuclear, mas tem como desafio transformar esse potencial em projetos economicamente viáveis.
As etapas de conversão do yellowcake, pó concentrado de urânio obtido do processamento mineral, no composto necessário para o enriquecimento — o hexafluoreto de urânio (UF6) — ainda dependem parcialmente de processamento no exterior para alcançar escala industrial. Parte desse processamento é realizada pela estatal russa de energia nuclear Rosatom.
Na unidade de conversão em Resende, no Rio de Janeiro, a INB amplia as capacidades para a transformação do urânio no composto utilizado no enriquecimento nuclear.