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CNEN apresenta soluções nucleares avançadas que conectam ciência e mercado para transformar setores estratégicos
Dr. Wilson Calvo conduzindo a sua apresentação no Side Event da CNEN na NT2E 2025. Foto: Bianca Wendhausen
Sete tecnologias de ponta para resolver desafios da indústria foram os destaques da Comissão Nacional da Energia Nuclear (CNEN) no Side Event da Nuclear Trade & Technology Exchange (NT2E), evento promovido pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), entre os dias 20 e 22 de maio, na cidade do Rio de Janeiro.
Com o slogan “Quando a pesquisa é um bom negócio”, o painel de inovações faz parte da programação da NT2E, a CNEN apresentou sete tecnologias de três unidades de pesquisas – Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) e o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), localizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, respectivamente.
As soluções apresentadas — já disponíveis para uso como produtos ou serviços pela sociedade — abrangem áreas como sustentabilidade, saúde, equipamentos e indústria, treinamento e energia. São exemplos concretos do potencial tecnológico desenvolvido nos laboratórios da CNEN.
“Conectar tecnologia de ponta ao mercado, atraindo empresários e empreendedores dispostos a colaborar, investir e impulsionar esses projetos para assim gerar impacto real na sociedade é o nosso grande objetivo”, afirmou Eduardo Ferreira, analista de negócios da CNEN.
A unidade móvel com acelerador de elétrons para tratamento de efluentes industriais, desenvolvida no IPEN/CNEN, foi apresentada pelo diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da CNEN, Wilson Calvo, que também coordena a iniciativa. Ele destacou o potencial da tecnologia para permitir que indústrias eliminem poluentes de forma sustentável e eficiente — a exemplo do que já ocorre na China e na Coreia do Sul, onde soluções semelhantes são usadas para degradar corantes e reutilizar a água, reduzindo o impacto ambiental.
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A proposta, que conta com o apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Finep, CNPq, Nuclep e Truckvan, despertou o interesse de dois potenciais parceiros brasileiros durante o evento.
Ainda na área da sustentabilidade, a pesquisadora Sumair Araújo (IPEN/CNEN) expôs a tecnologia Biorrefinaria Azul, que realiza a conversão de resíduos do mar em insumos de alto valor como quitosana, biodiesel, entre outros.
Na área da saúde, Daniel Bonifácio (IPEN/CNEN) demonstrou como os radionuclídeos podem ser utilizados no combate ao câncer por meio de terapias personalizadas. A proposta envolve o uso de inteligência artificial para monitorar, em tempo real, a distribuição dos radiofármacos no organismo, permitindo ajustes precisos na dose administrada e aumentando a eficácia do tratamento.
A política de dose personalizada já é uma prática consolidada nos Estados Unidos e regulamentada na Europa há mais de uma década, e deve se tornar realidade no Brasil nos próximos anos.
A pesquisadora Alice Versiani (CDTN/CNEN) expôs uma solução inovadora para a área da saúde: nanossensores capazes de detectar precocemente o câncer e outras doenças crônicas com alta precisão. Esses dispositivos identificam alterações moleculares mínimas no organismo, permitindo diagnósticos rápidos e menos invasivos — o que aumenta significativamente as chances de sucesso no tratamento.
Na área de treinamento, o pesquisador Eugênio Marins (IEN/CNEN) apresentou a proposta do Laboratório de Realidade Virtual do Instituto, que possibilita capacitações imersivas, realistas e personalizadas sem a necessidade de deslocamento. A tecnologia é especialmente útil para o treinamento em procedimentos de alto risco, garantindo segurança e eficiência.
Já nas áreas de equipamentos e indústria, o pesquisador Armindo Santos (CDTN/CNEN), destacou o desenvolvimento de ímãs de alta performance, com grande potência magnética, menor custo e reduzido impacto ambiental. A tecnologia é considerada estratégica para o Brasil por sua ampla aplicação em setores industriais e tecnológicos, além de contribuir para o fortalecimento da autonomia nacional.
Para encerrar as apresentações, Adolf Braid, diretor executivo da Terminus Research and Development of Energy Ltda, expôs uma solução inovadora para a área de energia: o micro reator nuclear modular. Com estrutura significativamente reduzida em comparação às usinas convencionais, o sistema pode fornecer energia estável, sem a necessidade de cabeamento, sendo ideal para regiões de difícil acesso ou comunidades de até 50 mil habitantes.
A empresa já conta com a parceria do IPEN/CNEN e do IEN/CNEN na expansão dessa tecnologia e está em busca de novos investidores para viabilizar sua aplicação em larga escala.
Bom negócio para todos
O diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da CNEN, Wilson Calvo, destacou que mais de sete tecnologias desenvolvidas pela instituição já estão prontas para atender demandas da indústria. Segundo ele, as unidades de pesquisa da CNEN seguem diretrizes internas que orientam os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) a atuarem de forma integrada nesse processo.
“Dessa forma, conseguimos levar essas tecnologias à sociedade com segurança e oferecer aos investidores a confiança de que a pesquisa é, de fato, um bom negócio”, afirmou o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da CNEN.
Arnaldo da Silva Júnior, do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) do IPEN/CNEN, ressaltou a importância de eventos como este para aproximar a ciência do mercado no Brasil. Embora o país esteja entre os que mais produzem artigos científicos no mundo, ainda enfrenta o desafio de transformar esse conhecimento em inovação aplicada.
“Nossa legislação de patentes é relativamente recente, e ainda estamos amadurecendo o processo de conexão com a indústria. Por isso, iniciativas como essa são fundamentais para fortalecer a independência tecnológica do país”, ressaltou.
Em sua fala de encerramento, o presidente da CNEN, Francisco Rondinelli Júnior, enfatizou a relevância da cooperação para o avanço da inovação no setor nuclear. Ele destacou que a atuação integrada entre instituições, pesquisadores e empresas é essencial para transformar conhecimento em soluções concretas para a sociedade.
“Hoje, inovação é parceria. O mundo exige esse esforço conjunto. Temos trabalhado dentro da CNEN para fortalecer as experiências de transferência de tecnologia. Acredito fortemente que esse é o caminho para o setor nuclear: inovar e entregar resultados tecnológicos úteis para a sociedade. Parabéns a todos — e vamos sair daqui já com parcerias”, concluiu.
Texto: Tatiane Ribeiro (Bolsista BGE-DA/IPEN-CNEN)
Fonte: Cocom/CNEN
