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TÉCNICA PIONEIRA
IPEN/CNEN recupera escultura degradada com radiação ionizante e reforça papel da ciência na preservação do patrimônio
Escultura passando pelo processo de restauração (E. R. Paiva/CNEN)
Uma técnica inovadora de consolidação de esculturas em madeira policromada, desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), está abrindo novos caminhos para a conservação de bens culturais no Brasil. Utilizando radiação ionizante, o método foi aplicado com sucesso na recuperação estrutural de uma obra sacra severamente degradada: a escultura de São Jerônimo, pertencente ao acervo do Museu do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.
O trabalho é resultado de uma colaboração institucional de longo prazo entre o IPEN — unidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN/MCTI) — e o Museu, com mais de 18 anos de atuação conjunta no uso da tecnologia nuclear para fins de preservação cultural.
Liderada pelo pesquisador Pablo Vasquez, com participação da restauradora Adriana Pires, a equipe desenvolveu um protocolo de tratamento baseado na impregnação de resinas poliméricas e posterior cura por radiação gama, promovendo o reforço estrutural da madeira altamente porosa e fragilizada.
A escultura, de aproximadamente um metro de altura, apresentava danos severos e risco iminente de colapso. Foram aplicadas técnicas avançadas de caracterização — como tomografia, raio X digital e análises físico-químicas — para avaliar o estado interno do objeto e guiar as etapas do processo.
A consolidação envolveu duas fases de impregnação com formulações à base de poliéster e estireno, seguidas por irradiação com baixa taxa de dose no Irradiador Multipropósito de Cobalto-60 do IPEN/CNEN. A polimerização induzida por radiação proporcionou uma excelente eficiência com alta penetração nas camadas internas da madeira e alta estabilidade química e mecânica.
Além de eliminar a necessidade de catalisadores químicos, o uso da radiação apresenta vantagens importantes: evita aumento de temperatura durante o processo, permite o reuso da resina, reduz resíduos e gera uma proteção duradoura contra fungos, bactérias, insetos e umidade — fatores críticos na degradação de acervos históricos.
A pesquisa foi apresentada internacionalmente durante o International Conference on Applications of Radiation Science and Technology (ICARST), realizado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em abril, onde foi reconhecida como um dos exemplos mais relevantes do uso pacífico da tecnologia nuclear voltada à conservação do patrimônio. O caso brasileiro despertou o interesse de especialistas de diversos países e evidenciou o potencial da abordagem em situações-limite, em que métodos convencionais de restauração não são eficazes.
Também durante a ICARST 2025, com apoio da embaixada do Brasil em Viena, Pablo Vásquez participou do side event “Radiation-Based Technology for Preservation of Cultural Heritage Objects” (Tecnologia Baseada em Radiação para Preservação de Objetos do Patrimônio Cultural, em tradução livre), onde apresentou a expertise brasileira. Países como França, Egito, Croácia e Malásia, entre outros, apresentaram suas principais conquistas com esta tecnologia.
O IPEN/CNEN é referência internacional na aplicação de radiação para a preservação de acervos artísticos e históricos. Na década de 1990, o Instituto iniciou as primeiras pesquisas, atualmente este método foi aplicado na descontaminação e conservação de mais de 50 mil objetos culturais, incluindo obras de grandes nomes da arte brasileira como Tarsila do Amaral, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Anita Malfatti e Tomie Ohtake.
No entanto, o caso da escultura de São Jerônimo representa uma ampliação importante no escopo da tecnologia: trata-se de sua aplicação como mais uma alternativa eficaz para consolidar peças gravemente comprometidas, além de inovadora no Brasil.
“Esse método deve ser considerado quando não há outras soluções viáveis para preservar a integridade da obra”, afirma Pablo Vasquez. Segundo o pesquisador, a cura por radiação permite alcançar áreas internas de difícil acesso, formando uma rede polimérica que dá coesão à estrutura sem interferir visualmente na superfície original. Além disso, a compatibilidade química das resinas utilizadas com materiais orgânicos presentes nas peças contribui para a preservação dos aspectos históricos e artísticos.
A experiência brasileira alia conhecimento técnico, infraestrutura laboratorial de excelência e sensibilidade cultural. A atuação integrada entre cientistas e restauradores demonstra como a ciência aplicada pode contribuir efetivamente para políticas de preservação do patrimônio, tornando-se aliada da memória e da identidade nacional.
Com essa inovação, o Brasil reafirma seu protagonismo regional no uso de tecnologias nucleares em benefício da sociedade. O projeto consolida o IPEN/CNEN como centro de referência na conservação de bens culturais por radiação ionizante e fortalece a imagem do país na comunidade internacional voltada à ciência, à cultura e à sustentabilidade.
Contato do pesquisador: pavsalva@ipen.br / pavsalva@usp.br
Fonte: COCOM/ CNEN

