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Brasil e União Europeia buscam ampliar parcerias e investimentos após acordo com Mercosul
A entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia abre uma nova etapa para os investimentos entre os dois blocos, com impacto sobre comércio, compras públicas, transformação digital, infraestrutura, indústria verde e cadeias estratégicas. Essa foi a avaliação geral dos participantes durante a abertura do II Fórum de Investimentos União Europeia–Brasil, realizado nesta terça-feira (23/6), em Brasília, com a presença da ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck.
Organizado pela ApexBrasil e pela União Europeia, em colaboração com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), o encontro integra a agenda do Diálogo de Investimentos União Europeia–Brasil. A ministra ressaltou que o acordo, em vigor desde maio deste ano, representa o maior pacto de livre comércio em população abrangida, alcançando mais de 700 milhões de pessoas. “Para os investimentos, o acordo Mercosul-União Europeia garante previsibilidade, regras estáveis e acesso privilegiado a grandes economias mundiais”, disse.
Dweck associou o novo momento da relação entre Brasil e União Europeia ao processo de recuperação econômica, social e ambiental do país. Ela citou o crescimento econômico mantido desde 2023, a redução do desemprego ao menor patamar histórico, a saída de mais de 8,6 milhões de pessoas da pobreza, a retirada do Brasil do Mapa da Fome e a queda de 50% no desmatamento da Amazônia em relação a 2022. A ministra também destacou a reforma tributária como uma mudança institucional relevante para reduzir a cumulatividade de impostos que afetava a indústria brasileira e para promover maior alinhamento regulatório com o bloco europeu.
“O desenvolvimento econômico não acontece sem capacidade estatal”, afirmou Dweck, ao defender que a melhoria do ambiente de negócios depende também de serviços públicos mais simples, digitais e transparentes. Segundo a ministra, o MGI tem mantido parcerias com países europeus, como Dinamarca, Alemanha, França, Portugal, Noruega e Espanha, para ampliar capacidades institucionais, qualificar a gestão pública e avançar em agendas ambientais e digitais.
A transformação digital foi um dos destaques na fala da ministra. Dweck citou a parceria entre o Brasil e a União Europeia em temas como governança da inteligência artificial, infraestruturas digitais públicas, conectividade, proteção de dados e reconhecimento mútuo de assinaturas eletrônicas. Segundo ela, esse último ponto é central para facilitar trocas entre os dois blocos e melhorar o ambiente de negócios.
De acordo com a ministra, Brasil e União Europeia podem agir, conjuntamente, para alcançar maior autonomia no contexto tecnológico. “Somos usuários do ambiente digital, mas ainda precisamos atuar em conjunto para definir regras e avançar na soberania digital, respondendo aos novos desafios que exigem estratégias ousadas e pragmáticas”, disse a ministra, que entende a tecnologia como meio para promover um desenvolvimento sustentável e inclusivo, com respeito aos direitos humanos, aos valores democráticos e à autonomia tecnológica.
Para o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, o acordo entre Mercosul e União Europeia representa uma resposta ao avanço do isolacionismo e de barreiras (tarifárias e não tarifárias) no comércio internacional. Para ele, o novo bloco econômico formado a partir do acordo reforça a defesa do multilateralismo e da integração produtiva.
O ministro do MDIC ressaltou que a indústria brasileira voltou a crescer após 13 anos e afirmou que a Nova Indústria Brasil tem o objetivo de tornar a produção nacional mais exportadora, competitiva e sustentável. “O Brasil tem uma política industrial”, frisou. O investimento na área é condição fundamental para que que o país alcance objetivos como “desenvolvimento inclusivo, integração produtiva e atração de investimentos”. Nesse contexto, o ministro apresentou as seis missões da Nova Indústria Brasil: cadeias agroindustriais, complexo econômico-industrial da saúde, infraestrutura e mobilidade, transformação digital, bioeconomia e complexo de defesa. Segundo ele, o governo cria instrumentos para orientar o desenvolvimento, mas o setor privado tem respondido de forma significativa.
Acordo amplia cooperação entre Brasil e União Europeia
A embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, argumentou que o acordo permite que a relação entre as regiões seja analisada não apenas pela perspectiva do comércio, mas também pelo investimento, pela competitividade e pela cooperação estratégica de longo prazo. Segundo ela, o acordo pode ser um divisor de águas, mas os resultados dependerão da capacidade de governos, empresas, instituições financeiras e parceiros transformarem o novo quadro em projetos concretos.
“Acordos não geram resultados por si só. Eles criam oportunidades, confiança e um quadro de referência”, frisou a embaixadora. Ela destacou que o fórum busca discutir como o acordo pode apoiar uma agenda mais forte de investimentos sustentáveis e inclusivos entre Brasil e União Europeia.
Schuegraf apontou setores em que a cooperação pode ganhar escala, como indústria verde, energia, bioeconomia, infraestrutura, conectividade digital, transportes, logística e minerais críticos. Para ela, o Brasil é parceiro fundamental em um mundo mais complexo, fragmentado e competitivo, especialmente diante da necessidade de construir cadeias de valor mais resilientes.
Os minerais críticos foram citados como exemplo dessa complementaridade. Segundo a embaixadora, o Brasil tem grande potencial, enquanto a Europa reúne demanda, tecnologia, capacidade de financiamento e interesse em construir cadeias sustentáveis. “A oportunidade não está simplesmente em comercializar mais minerais. Está em gerar mais valor, processamento, inovação e cooperação industrial em benefício de ambos os lados”, pontuou.
O comissário europeu para Parcerias Internacionais, Jozef Síkela, também defendeu que a cooperação entre Brasil e União Europeia avance para cadeias produtivas de maior valor agregado. Ao tratar de minerais críticos, Síkela declarou que o bloco europeu está disposto a apoiar o desenvolvimento do setor no Brasil para além da extração, com investimentos em processamento local, refino, transferência de tecnologia e formação de mão de obra.
Durante o evento, Síkela anunciou no fórum um pacote de mais de 135 milhões de euros, equivalente a R$ 795,5 milhões, para quatro projetos no país. O valor será destinado a iniciativas voltadas à conectividade digital, à transição energética e à proteção da Amazônia.
Investimentos miram cadeias de valor estratégicas
O presidente da ApexBrasil, Laudemir André Muller, contextualizou que a aproximação entre Brasil e União Europeia ocorre em um cenário internacional desafiador, marcado por maior complexidade no comércio exterior. Muller acrescentou que, mesmo nesse ambiente, o Brasil tem registrado recordes de exportação e atração de investimentos. Em 2025, o país exportou US$ 348 bilhões e atraiu US$ 77 bilhões em investimentos. “Isso não se dá por acaso, é por conta de uma decisão acertada, de um caminho que o Brasil trilha (talvez de forma diferente de outros países), que é o caminho do entendimento, da negociação e da abertura.”
Muller destacou que a União Europeia é o principal investidor estrangeiro no Brasil. Segundo ele, o estoque europeu de investimentos no país chega a US$ 464 bilhões, quase meio trilhão de dólares, o equivalente a cerca de 40% do total de investimento estrangeiro recebido pelo Brasil. Ainda assim, avaliou que há espaço para ampliar a presença europeia no país e os investimentos brasileiros no mercado europeu.
O presidente do Conselho Curador do CEBRI, José Pio Borges, avaliou que o fórum fortalece laços econômicos entre Brasil e União Europeia, estimula investimentos produtivos e cria um ambiente favorável à inovação, à competitividade e ao desenvolvimento. Ele avaliou que o encontro ocorre em um momento de grandes transformações econômicas, tecnológicas e geopolíticas.
Entre as mudanças, citou os impactos da inteligência artificial, dos sistemas autônomos e das novas tecnologias na reconfiguração do poder global. Sua visão é de que esses desafios não podem ser superados com isolamento, e o alinhamento entre os blocos fortalece a capacidade de resposta dos países a essas demandas. O presidente do CEBRI também sinalizou para a possibilidade de cooperação em terras raras e energia limpa.
Borges citou ainda relatório lançado pelo CEBRI, que traz dados que reforçam o potencial da parceria: cada real investido por uma empresa europeia no Brasil tem potencial de duplicar na produção nacional e na economia brasileira. Para ele, o desafio agora é direcionar esses investimentos para setores de inovação, transformando volume em qualidade.