Notícias
SÉRIE "ACORDES DA SAÚDE"
Música é aliada no cuidado a pacientes pediátricos no IPPMG
Rio de Janeiro (RJ) – Em meio ao vai e vem dos corredores hospitalares, um som diferente chama a atenção. São vozes e instrumentos musicais que abrem caminho por entre os leitos, trazendo não só acordes, mas também acolhimento. No Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG), a musicoterapia vem ganhando espaço como prática fundamental de humanização hospitalar – especialmente para crianças em longas internações. É o que você vai conferir nesta terceira reportagem especial da série “Acordes da Saúde”, da Rede Ebserh.
O projeto no IPPMG é coordenado por Gabriela Koatz, musicoterapeuta que atua com apoio de extensionistas do projeto ComuniMúsica e de estudantes do curso de graduação em Musicoterapia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Estamos desde junho de 2024 no hospital. A ideia é atender crianças com condições crônicas que, por questões clínicas, muitas vezes não conseguem voltar para casa. Elas e suas famílias acabam praticamente morando no hospital. Além do cuidado, nosso trabalho tenta trazer leveza a essa realidade”, explica. O IPPMG faz parte do Complexo Hospitalar da UFRJ, vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) desde 2024.
Uma pausa no tempo hospitalar
O perfil do IPPMG atende crianças com doenças raras, muitas vezes crônicas. Em sua maioria, pacientes de longa permanência. Além de facilitar o tratamento, a musicoterapia nesse espaço atua como ponte para o lúdico e o afeto, sendo muitas vezes a única opção de lazer para pacientes e seus responsáveis.
“A musicoterapia aqui é essencial. É o momento de aliviar a minha ansiedade, porque ficar o tempo inteiro aqui dentro é muito complicado”, conta Cláudia Gastim Giagio de Melo, mãe de Matheus, internado há mais de dois anos por conta de uma doença degenerativa que o impede de andar, falar e se alimentar pela via oral. “Meu filho não fala, mas ele entende as coisas e ama música. Teve um dia que ele até chorou quando a professora foi embora, aí ela voltou para dar mais um pouquinho de atenção pra ele”.
Escuta ativa, repertório vivo
O atendimento especializado acontece diretamente nos leitos ou nas enfermarias, planejado para respeitar o estado de cada criança. “Não é um repertório fixo. A gente sente o que aquele paciente ou aquela família precisa naquele momento. Pode ser uma música que relaxe, uma que anime, ou apenas o silêncio compartilhado com um acorde de violão”, descreve Gabriela.
Em alguns casos, a musicoterapia ajuda a preparar a criança para procedimentos invasivos, como remédios injetáveis, coletas de sangue ou fisioterapia. “A nossa atuação muda a percepção da criança sobre o ambiente hospitalar”, diz Gabriela, que ressalta o uso jaleco branco pelos musicoterapeutas e estudantes durante as visitas para diminuir o medo de alguns pacientes.
Estímulo para corpo e mente
Os benefícios da musicoterapia também se estendem ao desenvolvimento motor e cognitivo, como aponta a fisioterapeuta e residente Emmanuelly Mageste: “Gabi está sempre estimulando as crianças com instrumentos. Isso favorece não só o aspecto psicológico, mas também a reabilitação física. A gente vê a importância dessa atividade para os pais também, que ficam alegres com a interação das crianças”.
No caso de crianças com limitações neurológicas severas, instrumentos menores e sons vibrantes ou coloridos são escolhidos com critério. “Às vezes, um simples som agudo ou uma cor chamativa é o que basta para criar uma interação”, explica Gabriela. E quando não há interação possível, ainda assim há presença e atenção.
Alento também para quem cuida
O projeto também contempla os familiares e os profissionais da unidade. “Às vezes, é a mãe que está mais estressada, às vezes é a enfermeira cansada no final do plantão. A musicoterapia pode mudar a vibração do ambiente. Traz outra lógica para aquele dia”, comenta Gabriela.
Essa percepção é confirmada por Alessandra Egito dos Santos, mãe da pequena Lara, de 6 anos: “A gente canta junto com elas. As crianças adoram, interagem bastante. Quando escutam a música vinda do corredor, já chamam para participar.” A própria Lara completa: “Gosto quando tem o pessoal tocando, peço logo música”. Lara vive no hospital desde o nascimento, por conta de uma síndrome rara.
“A musicoterapia traz efeitos para saúde física e mental para todos no ambiente hospitalar. A gente que fica trabalhando, também é beneficiado”, complementa Emanuelly, fisioterapeuta.
Cuidado que ultrapassa a técnica
O projeto de extensão ComuniMúsica integra ensino, pesquisa e cuidado. “Mais do que um estágio, é uma formação para os nossos estudantes entenderem como a música pode ser ferramenta de transformação”, afirma Gabriela.
Apesar dos avanços, a demanda é maior que a disponibilidade atual. Gabriela sonha com mais tempo e estrutura para ampliar os atendimentos. “A gente já conhece o espaço, o que ele precisa, e tudo o que a música ainda pode potencializar. É hora de pensar estratégias junto à direção para crescer”, projeta.
A coordenadora do curso de graduação em musicoterapia da UFRJ e coordenadora do ComuniMúsica, Beatriz Salles, diz que “a existência da musicoterapia num conglomerado hospitalar como o da UFRJ é algo inovador”. Para ela, “com certeza, é um serviço que merece ser expandido dentro do complexo e por toda rede”.
Em um ambiente em que o tempo parece suspenso, entre monitores, sondas e protocolos, a musicoterapia aparece como uma forma de presença humana. “A música nos transporta no tempo e no espaço”, diz Gabriela. No IPPMG, pela peculiaridade de sua assistência voltada a crianças, a musicoterapia se mostra mais do que um tratamento complementar, mas algo que desperta humanidade, alegria e cuidado.
Confira também as outras reportagens desta série:
“Do ouvido para dentro: Os efeitos terapêuticos da música para o bem-estar de pacientes e profissionais da saúde” (clique aqui)
“Tome essa canção como um beijo” (clique aqui)
Sobre a Ebserh
O IPPMG faz parte do Complexo Hospitalar da UFRJ, gerido pela Ebserh desde junho de 2024. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Redação: Claudia Holanda, com edição de Danielle Campos.
Coordenadoria de Comunicação Social da Ebserh