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SÉRIE “ACORDES DA SAÚDE”
“Toma essa canção como um beijo”
Rio de Janeiro (RJ) - Nas manhãs de terça e quinta-feira, o setor 10A do Instituto de Doenças Torácicas, localizado dentro do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), recebe os integrantes do projeto de extensão de musicoterapia “Toma essa canção como um beijo”. O HUCFF faz parte do complexo hospitalar da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), administrado pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). Nesta segunda reportagem da série especial “Acordes da Saúde”, você conhecerá um pouco mais sobre essa iniciativa.
Com quatro enfermarias e 14 leitos nas áreas de Pneumologia, cirurgia torácica e Hepatologia, o setor 10A dá assistência a pacientes graves, com doenças avançadas, alguns deles em cuidados paliativos ou em processos de fim de vida. O semblante dos pacientes se suaviza com a chegada desse grupo, que há cerca de três anos marca presença no hospital.
“A música é um acalanto para todos os pacientes daqui. Eu acho fantástico. Na correria do dia a dia, a gente não consegue sempre ter aquela escuta demorada com o paciente. A gente vê que os pacientes se conectam rapidamente com o pessoal da musicoterapia”, afirma a chefe de Enfermagem do setor, Priscila Passarelli.
Quando os integrantes do projeto entraram na enfermaria, a paciente Caroline Freitas Sousa não escondeu a alegria. “Eu já conheço o trabalho deles. Ajuda muito a gente a distrair e a pensar em outras coisas”, disse, sorrindo. Caroline tem 27 anos e se recuperava de uma infecção no fígado que a obrigou a ficar muitos dias no hospital.
A paciente Viviane Silva, 39 anos, internada por problemas pulmonares, teve seu primeiro contato com a musicoterapia naquele momento. “Mudou o clima aqui, gostei muito. Fiquei surpresa de oferecerem isso para a gente”, comentou, antes de pedir para tocarem um louvor.
“Quem está de fora não tem noção da diferença que a musicoterapia faz”
A técnica em enfermagem Leia Aparecida acompanha o projeto desde o início e chegou a ser internada com hepatite aguda no mesmo setor. Ela vivenciou a presença da musicoterapia por dois lados: como profissional da saúde e como alguém que precisou ser cuidada. “Quem está de fora não tem noção da diferença que a musicoterapia faz. É um momento de acolhimento, até de desabafo. Tem pacientes que ficam na espera, pensando na música que vão pedir. Os pacientes ficam mais aliviados, otimistas, até porque o pessoal conversa muito com eles”, relata.
Humanização hospitalar
Com o nome inspirado na música “Menino do Rio”, de Caetano Veloso, “Toma essa canção como um beijo” é um projeto de extensão do curso de Musicoterapia da UFRJ. A iniciativa foi premiada com menção honrosa durante a Semana de Integração Acadêmica da UFRJ de 2024, quando foram apresentados mais de oito mil trabalhos de pesquisa e extensão da universidade.
Em sua maioria, os extensionistas são graduandos de Musicoterapia, mas há também estudantes de outras formações, como Fisioterapia, Serviço Social e Enfermagem. “A multiplicidade é um dos pilares da extensão, achamos importante envolver graduandos de outros cursos nessa experiência de humanização do cuidado hospitalar”, defende a coordenadora do projeto de extensão e professora do curso de graduação em Musicoterapia da UFRJ, Bianca Bruno Bárbara. Abordagem aos leitos, no entanto, é protagonizada pelos estudantes de Musicoterapia, com orientação.
“A música cria pontes”
Um desses orientadores é Marco Barbosa, que fez parte da primeira turma do curso de graduação em Musicoterapia da UFRJ, iniciada em 2019. Nessa época, ele já era formado em Enfermagem e tocava clarinete. Desde o início do projeto “Toma essa canção como beijo” no HUCFF, ele atua como preceptor dos extensionistas e já experienciou várias situações. “Uma vez, atendemos um senhor que estava bastante introspectivo, numa posição fetal. Quando a gente chegou, houve uma produção de vida muito perceptível. Ele viu os instrumentos e quis sair daquela posição, até segurou no meu braço se esforçando para se sentar no leito. Cantamos a música que ele pediu. Ele ficou muito feliz com a nossa presença ali”, lembra.
Durante o tratamento e a internação, a musicoterapia cria pontes também com a própria experiência do adoecimento, pois pode traduzir um sentimento vivido durante esse período. “Às vezes, você precisa de um recurso para dizer como você está passando por essa experiência. A música pode ser esse caminho de conexão entre as pessoas e de entrar em contato com sua própria emoção. A gente tem testemunhado isso”, relata Bianca, coordenadora do projeto.
A musicoterapia também é um importante elemento de humanização no hospital, que pode ser um ambiente árido, de relações delicadas, por vezes duras, pois lida a todo momento com a vida em risco. Bianca entende que a musicoterapia no ambiente hospitalar se volta para o usuário internado, seu familiar e, de alguma maneira, mesmo que indireta, também para a equipe em trabalho. “As relações são muito hierárquicas e a gente nota que a presença da música facilita, inclusive, as relações de trabalho entre os profissionais, que acabam também se beneficiando”, reflete.
“A música não é neutra”
A vice coordenadora do projeto, Marly Chagas, defende uma atuação responsável, científica e ética. “A música não é neutra. Ela pode curar, mas também pode ferir”, afirma Marly, que integra o corpo docente do curso e é ex-presidente da União Brasileira das Associações de Musicoterapia (Ubam). “O musicoterapeuta é um profissional afinado numa escuta clínica. Ele escuta e depois vai saber fazer alguma coisa diante daquela situação. É preciso agir com competência, para não fazer mal e fazer todo o bem possível, que é um princípio da bioética. Precisa ser formado com rigor”, afirma Marly.
A próxima reportagem desta série especial trará a experiência da musicoterapia no cuidado a pacientes pediátricos.
Confira também a primeira reportagem, “Do ouvido para dentro: os efeitos terapêuticos da música para o bem-estar de pacientes e profissionais da saúde” (clique aqui )
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 41 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Redação: Claudia Holanda, com edição de Danielle Campos.
Coordenadoria de Comunicação Social da Ebserh