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Projeto DAVI transforma demanda real em tecnologia para autonomia
Uma demanda surgida dentro de uma sala de aula, em 2018, deu origem a uma experiência de tecnologia assistiva que, oito anos depois, ganhou nova dimensão no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI). O Projeto DAVI – Desenvolvimento Assistivo para Vida Independente está em desenvolvimento como um ecossistema de recursos tecnológicos voltados à redução de barreiras e à ampliação da autonomia de pessoas com deficiência.
O nome preserva a história de quem deu início a tudo: Davi, que tinha 9 anos e cursava o 4º ano do Ensino Fundamental na EMEB Vice-Prefeito Antônio Mamoni, em Valinhos (SP). Com paralisia cerebral, sem fala oral e com comprometimento motor, o menino tinha a cognição preservada, mas enfrentava dificuldades de coordenação motora fina que limitavam sua participação nas atividades escolares.
Na época, a professora de Davi, Alessandra, procurou Douglas de Sousa, hoje tecnologista da Divisão de Sistemas Embarcados Inteligentes (DISEI) do CTI Renato Archer, em busca de uma alternativa que utilizasse a tecnologia assistiva para apoiar a alfabetização e ampliar a participação do menino nas atividades escolares.
Douglas havia deixado temporariamente o CTI em 2015 para coordenar o projeto Fab Lab Livre SP, da Prefeitura de São Paulo. Em 2018, estava no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston (EUA), quando recebeu o contato da professora. Ao retornar ao Brasil, uma das primeiras providências que tomou foi conhecer Davi e avaliar de que maneira a tecnologia poderia contribuir.
“Fiz alguns testes pedindo para que ele pressionasse alguns botões que eu indicava no notebook. Percebi que o cognitivo estava preservado, porém havia graves problemas de coordenação motora”, recorda Douglas.
Uma solução a partir de uma necessidade real
A partir dessa observação, Douglas desenvolveu, em cerca de dez dias, um software específico para aquela situação. O programa, escrito em Delphi, precisava ser instalado no computador, inicialmente emprestado pela própria professora.
A ferramenta permitia que Davi acompanhasse conteúdos de alfabetização em vídeo, escrevesse utilizando o computador e depois ouvisse aquilo que havia produzido. Quando completava corretamente uma atividade, o programa oferecia retornos positivos, com aplausos e elogios.
Em aproximadamente 40 dias, Davi já conseguia participar de ditados realizados pela professora. A fase mais intensa de adaptação ocorreu durante cerca de dois meses, mas a ferramenta continuou sendo utilizada ao longo do ano letivo. À medida que dominava o recurso, Davi passou a demonstrar cada vez mais interesse em realizar as atividades sozinho.
Segundo Alessandra, os avanços foram além do aprendizado formal. “O aprendizado foi evoluindo de forma bastante positiva e gradual. A autonomia ficou cada vez maior, pois ele já não aceitava a ajuda da assistente de sala”, relata.
A professora também observou maior interação de Davi no cotidiano da escola. “A participação dele ficou cada vez mais interativa, tanto em sala quanto no intervalo, o que fortaleceu a autoestima e a autoconfiança. Apresentou desempenho exemplar nas atividades de alfabetização e matemática”, afirma.
O interesse de Davi pelo computador também mobilizou a doação de um equipamento para que ele pudesse continuar utilizando a tecnologia.
Em 2019, Davi mudou de cidade e Alessandra também deixou a escola. A experiência foi interrompida naquele formato, mas permaneceu como referência para o trabalho que seria retomado anos depois.
Projeto ganha nova dimensão no CTI
No início de 2026, já novamente no CTI Renato Archer, Douglas participou de uma visita a uma sala de recursos da Prefeitura de Campinas. O contato com a professora Tathiane Cuesta e com demandas relacionadas à educação inclusiva retomou a discussão iniciada com Davi. “Foi quando surgiu a ideia de criar um ecossistema mais completo, além do módulo Escola, que já havia sido utilizado na primeira experiência”, explica Douglas.
A partir daí, a proposta deixou de se limitar àquela primeira ferramenta e passou a contemplar a criação de um ecossistema de tecnologia assistiva, reunindo recursos que possam ser desenvolvidos e aperfeiçoados de acordo com necessidades apresentadas por usuários e profissionais.
A versão atual do Projeto DAVI – Desenvolvimento Assistivo para Vida Independente conta com uma Proposta Preliminar de Projeto (PPP) aprovada no CTI e prevê também a estruturação de um laboratório de apoio à tecnologia assistiva.
Integra ainda a iniciativa a bolsista Sara Squella, que há quase 20 anos atua no CTI Renato Archer nas áreas de fatores humanos, ergonomia, avaliação e desenvolvimento de produtos, demandas públicas e tecnologia assistiva. Sara também integrou o antigo Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA), que funcionou no CTI.
“Ao longo desses anos, passei a trabalhar profundamente com tecnologia assistiva, especialmente em demandas que exigem esse olhar para o ser humano, considerando aspectos de saúde, cognição e movimento”, afirma Sara.
Desenvolvimento com participação de profissionais e usuários
Um dos princípios do DAVI é que as tecnologias sejam desenvolvidas com a participação de quem conhece as necessidades na prática. A proposta envolve profissionais, instituições e futuros usuários no processo de aperfeiçoamento e validação dos recursos.
Douglas resume essa diretriz com uma frase que considera central na área de tecnologia assistiva: “Nada para nós, sem nós.”
“É muito importante que quem vai usar participe do desenvolvimento. O engenheiro pode ter muitas ideias, mas quem vai usar a tecnologia é peça fundamental nesse processo”, afirma.
A lógica é que os recursos não sejam concebidos de forma isolada, mas construídos e ajustados a partir das demandas de quem efetivamente irá utilizá-los. “Precisamos de parceiros para montar as equipes, para que os módulos sejam desenvolvidos em conjunto com os profissionais e com quem vai realmente utilizar”, acrescenta Douglas.
Entre as primeiras frentes previstas estão o DAVI Comunica, voltado à comunicação alternativa, e o DAVI Escola, inicialmente direcionado a atividades relacionadas a Língua Portuguesa e Matemática. O projeto já iniciou aproximações com a Prefeitura de Campinas para discutir possibilidades de desenvolvimento e validação dessas soluções.
Os demais recursos apresentados atualmente na plataforma estão em desenvolvimento, em estágio demonstrativo ou como protótipos. Alguns possuem funcionalidades implementadas, mas ainda não passaram pela utilização e validação direta junto aos profissionais e usuários que deverão contribuir para seu aperfeiçoamento.
Para Douglas, essa etapa é fundamental. “Enquanto não tiver uma validação com uma pessoa que usou, que eu veja que realmente está sendo útil, a gente não fala que está pronto”, explica.
O Projeto DAVI não substitui acompanhamento pedagógico, terapêutico ou clínico. As tecnologias são desenvolvidas como ferramentas de apoio e devem ser utilizadas considerando características e necessidades de cada pessoa e, quando necessário, com a participação dos profissionais responsáveis por seu acompanhamento.
A proposta é que o projeto tenha caráter público e gratuito. Também há interesse no registro do software e da marca DAVI, iniciativas que ainda estão em fase inicial.
Neste momento, um dos objetivos é ampliar a rede de colaboração com instituições públicas, universidades, profissionais, organizações e empresas interessadas em contribuir para o desenvolvimento e a validação das soluções.
O princípio permanece o mesmo desde a experiência iniciada em 2018: partir de uma necessidade concreta e desenvolver, junto com quem vivencia a barreira, tecnologias capazes de ampliar possibilidades de participação e autonomia.
Conheça o Projeto DAVI – Desenvolvimento Assistivo para Vida Independente:
https://projeto-davi-assistivo.vercel.app/


