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MEIO AMBIENTE
Ciência pública impulsiona a recuperação de manguezais no Nordeste
O experimento avaliou o desempenho de mudas cultivadas em diferentes substratos
Um estudo recém-publicado na revista internacional Ecological Engineering apresenta avanços na produção de mudas de mangue-vermelho (Rhizophora mangle L.), espécie estratégica para a restauração de áreas costeiras degradadas. A pesquisa traz contribuições diretas para práticas de viveiro mais eficientes e sustentáveis, com potencial de subsidiar políticas públicas ambientais (Albertin-Santos et al., 2026).
O experimento avaliou o desempenho de mudas cultivadas em diferentes substratos, comparando o uso de solo nativo de manguezal, adotado como controle, com alternativas como vermiculita, um substrato florestal comercial que retém água e nutrientes (Basaplant Florestal®) e uma mistura dos dois materiais. Ao longo de treze (13) semanas de cultivo em viveiro, foram analisadas características como comprimento total, diâmetro do caule, desenvolvimento do sistema radicular e atributos foliares.
A pesquisa foi conduzida pela doutora Cândida Juliana Albertin-Santos, do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (CETENE) — unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) —, em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e contou com a participação das pesquisadoras Laureen Michelle Houllou e Mariana Caroline Gomes de Lima, além de Robson Souza.
Resultados e implicações práticas
Os resultados indicaram melhor desempenho das mudas produzidas com substratos comerciais e vermiculita, que apresentaram crescimento mais rápido e maior vigor estrutural em comparação às cultivadas em solo nativo de manguezal. Embora ecologicamente representativo, o uso do sedimento natural mostrou limitações para aplicação em larga escala, especialmente por depender da retirada de material de áreas sensíveis.
Segundo a pesquisadora responsável pelo estudo, os achados demonstram a viabilidade de produzir mudas mais fortes, em maior quantidade e de forma ambientalmente responsável, ampliando as possibilidades de padronização e escala da produção em viveiros comunitários e institucionais.
“Na prática, o estudo oferece uma solução simples, replicável e sustentável para fortalecer os programas de restauração de manguezais e apoiar metas de recuperação costeira e de adaptação às mudanças climáticas.” afirma Cândido.

Importância para a restauração ambiental
A produção de mudas de qualidade é uma etapa decisiva para o sucesso de programas de restauração de manguezais. Antes mesmo do plantio em campo, as plantas precisam estar preparadas para enfrentar variações de salinidade, dinâmica hídrica e competição por recursos naturais. Nesse contexto, o uso de substratos alternativos e sustentáveis contribui para aumentar a taxa de sobrevivência das mudas e reduzir impactos ambientais associados à retirada de solos naturais.
“Em Pernambuco, os manguezais perderam espaço com o crescimento das cidades e dos portos, sofrendo mais pressão humana do que em áreas isoladas do Norte do país.” destaca a doutora Laureen Houllou.
O estudo reforça o papel da ciência pública brasileira no desenvolvimento de soluções práticas para a recuperação de ecossistemas costeiros, alinhadas às estratégias nacionais de conservação da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas.
Mangue-vermelho: por que ele é essencial
Esses sistemas radiculares funcionam como berçários naturais para peixes, crustáceos e moluscos, sustentando a pesca artesanal, a segurança alimentar e a conexão entre ambientes marinhos e terrestres.
“O mangue-vermelho (Rhizophora mangle) é uma espécie-chave dos ecossistemas costeiros. Suas raízes aéreas ajudam a estabilizar o solo, proteger a linha de costa contra a erosão e reduzir os impactos de eventos extremos.” afirma Houllou.
Na pesquisa, a produção de mudas em viveiro com substratos alternativos favorece o desenvolvimento de raízes mais fortes, aumentando a fixação das plantas, a absorção de nutrientes e a resistência após o plantio em campo.