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REVOLUÇÃO VERDE
Jardins Filtrantes: a revolução verde do CITinova na despoluição do Capibaribe
Foto: Giselle Cahú/CITInova/Divulgação
Recife (PE) avança na busca por soluções ambientais inovadoras com o projeto CITinova, uma iniciativa de cooperação internacional voltada para o desenvolvimento urbano sustentável. Coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com a Prefeitura do Recife e instituições como a Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES) e o Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (CETENE), o CITinova recebe apoio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Seu principal objetivo é integrar Ciência, Tecnologia e Inovação à sustentabilidade urbana.
Entre as soluções implementadas pelo projeto, destacam-se os Jardins Filtrantes, inaugurados em abril de 2023, que oferecem uma alternativa eficiente e sustentável para a despoluição das águas que desembocam no Rio Capibaribe. Esse rio, que nasce no município de Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste pernambucano, percorre aproximadamente 280 km até sua foz, no Recife. Além de melhorar a qualidade da água em até 95%, os Jardins Filtrantes contribuem para a requalificação urbana e a preservação ambiental da cidade.
Como funcionam os jardins filtrantes?
Os Jardins Filtrantes utilizam plantas e pedras para degradar, extrair, conter ou imobilizar poluentes da água por meio da fitoremediação. Localizados no Parque do Caiara, na Zona Oeste do Recife, esses jardins já são responsáveis pelo tratamento de aproximadamente 350 mil litros de água por dia, utilizando cerca de 7.500 mudas de macrófitas aquáticas. Essa tecnologia natural permite a retenção de impurezas, melhorando significativamente a qualidade da água antes de seu retorno ao meio ambiente.
Além dos benefícios ambientais, os Jardins Filtrantes criam novos espaços verdes, valorizam a paisagem urbana e incentivam o uso consciente dos recursos hídricos, conectando a comunidade a uma visão mais sustentável de desenvolvimento urbano.
O desafio dos microplásticos
Apesar da eficácia do sistema na remoção de impurezas convencionais, estudos conduzidos pelo CETENE indicaram que os microplásticos permaneciam na água tratada. Em resposta a essa limitação, pesquisadores do CETENE propuseram a inclusão de uma nova etapa de filtragem no sistema, com o objetivo de eliminar até 80% desses contaminantes. Essa inovação, desenvolvida com tecnologia de baixo custo, promete tornar os Jardins Filtrantes ainda mais eficientes na purificação da água e na mitigação dos impactos ambientais causados pelo descarte inadequado de plásticos.
Laureen Houllou, doutora em engenharia nuclear e pesquisadora titular do CETENE, destaca: "Testamos a presença do microplástico tanto na água que entrava no sistema quanto na saída, e detectamos que ainda havia resíduos. Por isso, propusemos adicionar uma nova etapa ao Jardim Filtrante para aumentar sua eficiência na remoção desses contaminantes."
O pesquisador do CETENE, Erik Bussmeyer, complementa: "A partir desses resultados, estamos projetando um filtro complementar, com o objetivo de alcançar uma taxa mínima de remoção de 80% dos microplásticos presentes no efluente tratado, aprimorando ainda mais a eficiência do sistema."
Benefícios e impactos socioambientais
Os impactos dos Jardins Filtrantes vão muito além da qualidade da água. Entre os principais benefícios, destacam-se:
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Gestão Sustentável da Água: Contribuem para a despoluição do Riacho do Cavouco e, consequentemente, do Rio Capibaribe.
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Biodiversidade Urbana: Criam habitats para espécies nativas, promovendo o equilíbrio ecológico.
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Requalificação Urbana: Transformam espaços degradados em áreas de convivência, lazer e aprendizado ambiental.
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Segurança Comunitária: Tornam parques mais atraentes e seguros, aumentando sua utilização pela população.
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Educação Ambiental: Servem como ferramentas didáticas para escolas e projetos educativos, incentivando a consciência ecológica desde cedo.
Mariana Pontes, arquiteta e urbanista e Diretora Presidente da ARIES, reforça: "A ideia dos Jardins Filtrantes é integrar a sustentabilidade ao planejamento urbano, oferecendo soluções inovadoras que beneficiam tanto o meio ambiente quanto a população."
Desafios e expansão da tecnologia
Embora os Jardins Filtrantes apresentem inúmeros benefícios, sua implementação em outras cidades ainda enfrenta desafios como:
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Necessidade de áreas adequadas: Espaços urbanos devem ser adaptados para receber os sistemas de filtragem.
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Alto custo inicial: O investimento para instalação é significativo, exigindo apoio financeiro de órgãos públicos e privados.
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Capacitação técnica: É essencial formar equipes para a manutenção e monitoramento da eficiência do sistema.
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Gestão de resíduos: A remoção periódica de resíduos acumulados exige planejamento adequado.
Para superar esses desafios, especialistas defendem a ampliação de parcerias institucionais, a busca por fontes de financiamento e a inclusão de políticas públicas voltadas para o fortalecimento de soluções baseadas na natureza.
Marcelo Carneiro Leão, diretor do CETENE, explica: "Nosso objetivo é expandir essa tecnologia para outras cidades, garantindo que os Jardins Filtrantes possam contribuir para a recuperação de corpos d’água poluídos em diferentes contextos urbanos."
Os Jardins Filtrantes do CITinova representam uma nova abordagem na gestão hídrica urbana, demonstrando que é possível aliar inovação, sustentabilidade e qualidade de vida. Além de despoluir rios e riachos, essa solução natural promove inclusão social, educação ambiental e a ressignificação do espaço público. Com os avanços na remoção de microplásticos e a possibilidade de expansão para outras regiões, essa iniciativa se consolida como um modelo para cidades que buscam alternativas eficazes e sustentáveis para enfrentar os desafios ambientais do século XXI.
Glossário de termos técnicos
Para facilitar a compreensão do público leigo, explicamos abaixo alguns dos termos técnicos mencionados ao longo do texto:
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Fitoremediação: Processo em que plantas são utilizadas para remover, conter ou transformar poluentes do solo, ar e água, tornando o ambiente mais saudável.
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Macrófitas aquáticas: Plantas que crescem na água e desempenham um papel fundamental na purificação de rios e lagos, absorvendo substâncias poluentes.
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Microplásticos: Pequenos fragmentos de plástico, geralmente menores que 5mm, que contaminam oceanos, rios e solos, causando impactos ambientais negativos.
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Efluente tratado: Água que passou por um processo de purificação antes de ser devolvida ao meio ambiente.
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Requalificação urbana: Processo de revitalização de áreas degradadas, tornando-as mais seguras, sustentáveis e adequadas para uso comunitário.