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CETENE valida em estudo científico tecnologia que barateia implantes dentários no SUS
Equipe integrante do grupo de pesquisa de Nanobiomateriais do Cetene
Um estudo publicado na revista científica Química Nova apresenta avanços na avaliação da interação entre células do corpo humano com superfícies de titânio. A tecnologia desenvolvida no Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (CETENE) — unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) — aprimora implantes biomédicos e pode torná-los mais acessíveis à população.
O principal avanço do estudo foi o desenvolvimento de um protocolo aprimorado de preparação de amostras biológicas para análise em microscopia eletrônica de varredura (MEV), reduzindo o tempo de preparação de 72 horas para apenas 60 minutos, além de preservar melhor a integridade estrutural das células e permitir visualização mais clara.
A tecnologia desenvolvida no CETENE tem potencial para reduzir o custo unitário do implante de R$ 260,00 para R$ 120,00 — uma economia de mais de 50% —, viabilizando a ampliação da oferta no Sistema Único de Saúde (SUS).
A pesquisa foi conduzida pela cientista Giovanna Machado em colaboração com os pesquisadores Audrey Andrade, Jaqueline da Silva, Luzia Santos, Mércia Oliveira, Victor Camurça e Jeann Branco-Junior, do Laboratório de Bionanomateriais do CETENE. O estudo investigou se as células de teste conseguiam manter sua aderência, forma e estrutura em superfícies de dióxido de titânio (TiO₂) modificadas por nanotecnologia.
Inovação técnica com validação científica
O experimento comparou dois protocolos de preparação de amostras fixadas com um composto químico orgânico chamado glutaraldeído. Enquanto o Protocolo I (secagem por ponto crítico) resultou em amostras excessivamente secas e com fissuras, dificultando a visualização das estruturas de adesão, o Protocolo II (desidratação com tert-butanol) preservou a integridade celular, permitindo observar com clareza as redes celulares e projeções da membrana.
Essa validação científica é um passo decisivo para o desenvolvimento da tecnologia de implantes dentários de nova geração do CETENE, que substitui as superfícies microporosas convencionais por nanotubos de dióxido de titânio obtidos por meio de um processo eletroquímico. As nanoestruturas promovem maior área superficial, melhor molhabilidade e aceleram a integração com o tecido ósseo, reduzindo riscos de rejeição.
"O diferencial da nossa abordagem é a possibilidade de realizar, em uma única etapa eletroquímica, a formação dos nanotubos e a deposição de hidroxiapatita, cerâmica que favorece a regeneração óssea", explica a pesquisadora titular do CETENE e coordenadora do projeto, Giovanna Machado.
A equipe também pretende investigar o revestimento das superfícies com filmes poliméricos bioativos, como quitosana e óleos essenciais, para atuarem como barreira antimicrobiana adicional — um avanço para reduzir complicações infecciosas pós-cirurgia.
Impacto social e democratização do acesso
O desenvolvimento chega em um momento estratégico para a saúde pública brasileira. Entre indivíduos com 60 anos ou mais, o Brasil tem média de edentulismo (perda total de dentes) de 36,48%, superior à média global que é estimada em 23%, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (2023). Um dado aparentemente contraditório considerando que o Brasil concentra o maior contingente de cirurgiões-dentistas do planeta. Nas regiões Norte e Nordeste, as barreiras de acesso são ainda mais acentuadas devido à desigualdade de renda e à menor cobertura de serviços especializados.
"Investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação no Nordeste não apenas contribui para ampliar o acesso da população a tecnologias de reabilitação oral, mas também impulsiona o fortalecimento de um polo regional de biomateriais com potencial de inserção competitiva no país e no exterior", ressalta a pesquisadora responsável pelo projeto, a doutora Audrey Nunes.
Investimento público como alicerce da inovação
O projeto recebeu investimento de R$ 1.859.821,49 (um milhão, oitocentos e cinquenta e nove mil, oitocentos e vinte um reais, quarenta e nove centavos) para sua fase estratégica e conta com o suporte fundamental de instituições federais. A infraestrutura laboratorial é mantida com apoio do MCTI por meio do SisNano, enquanto o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) financia as bolsas dos pesquisadores envolvidos. A Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) atua como parceira no fomento à inovação e no desenvolvimento de novos materiais para o setor de saúde na região.
A tecnologia desenvolvida no CETENE já alcançou maturidade equivalente aos níveis TRL 4-5, numa escala que vai até 9, estando validada em ambiente laboratorial com protótipos desenvolvidos. A próxima fase do projeto prevê a transição estratégica do ambiente acadêmico para etapas mais próximas da aplicação clínica, mantendo o rigor científico e o compromisso com as normas internacionais de qualidade.
"A próxima etapa envolve parcerias com a iniciativa privada para escalonamento industrial, adequação regulatória e validação, transformando conhecimento científico em inovação concreta para a sociedade", afirma Audrey Nunes.
Com a conclusão do projeto, a expectativa é que a tecnologia desenvolvida no CETENE contribua para fortalecer a indústria nacional de biomateriais, reduzir a dependência tecnológica externa e, sobretudo, devolver qualidade de vida a milhares de brasileiros que aguardam por reabilitação oral no SUS.