Wolfgang Harand: a ciência que extrai soluções da natureza
Nascido na Áustria, o biólogo Wolfgang Harand encontrou no Nordeste brasileiro não apenas um novo lar, mas o cenário ideal para aplicar sua expertise em fitoquímica. Sua trajetória na ciência começou pela curiosidade sobre o potencial das plantas, uma paixão que o trouxe ao Brasil há cerca de duas décadas. O que selou sua permanência em Pernambuco foi o encontro com sua esposa, também pesquisadora a quem conheceu na Áustria, quando ambos faziam doutorado. Hoje, como tecnologista do CETENE, ele disponibiliza seu repertório acadêmico para buscar soluções de demandas da sociedade brasileira.
Atualmente, Wolfgang concentra seus esforços em duas frentes estratégicas: a bioenergia e a saúde pública. No campo das energias renováveis, ele busca reativar estudos sobre espécies oleaginosas alternativas para a matriz energética. Para ele, o uso do óleo vegetal pode ser uma alternativa mais econômica e eficiente para geradores elétricos do que o biodiesel processado. "Estou disponibilizando o meu histórico para o CETENE e para o que a sociedade quer de mim. Temos projetos que vão da pesquisa básica até a aplicada", afirma o tecnologista.
A motivação mais profunda de seu trabalho atual, no entanto, nasce de uma experiência pessoal: seu filho sofre de epilepsia refratária e depende da cannabis medicinal. Ao vivenciar as barreiras financeiras e técnicas para acessar o tratamento, Wolfgang decidiu usar seu conhecimento para democratizar esse insumo. "Um frasco de 30ml pode custar R$ 500. Isso é inviável para a maioria das famílias. Decidi que precisava usar minha experiência como fitoquímico para mudar essa realidade", pontua.
O grande desafio identificado por Wolfgang é o custo proibitivo e a falta de padronização nos extratos produzidos por associações de pacientes. Muitas vezes, essas organizações não possuem maquinários de milhões de reais necessários para uma extração sofisticada. Diante disso, ele desenvolveu uma técnica de baixo custo que não exige equipamentos caros e que pode ser replicada de forma mais simples, mantendo a segurança e a eficácia do produto final.
No laboratório, o método de Wolfgang consiste em oferecer suporte técnico e controle de qualidade para essas associações. A ideia é que o CETENE funcione como um braço tecnológico que valida a pureza e a concentração dos extratos de cannabis.
Para Wolfgang, a ciência deve ser uma ponte entre a descoberta acadêmica e a melhoria da qualidade de vida. Ele acredita que o o seu papel é justamente encurtar esse caminho, transformando o conhecimento sobre a biodiversidade em produtos que gerem bem-estar e soberania. Seja purificando óleos para gerar energia ou extraindo compostos medicinais, seu foco é a aplicabilidade e o impacto social de cada experimento.
Ao olhar para o futuro, Harand espera que sua atuação no CETENE consolide o uso de tecnologias sociais e sustentáveis no Nordeste. Ele encerra reforçando que o investimento em ciência é o que permite a um país enfrentar seus problemas reais. "O objetivo é fazer com que a tecnologia que desenvolvemos chegue mais rápido à vida real, transformando a realidade de quem mais precisa", conclui o cientista.