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Movimento pela ciência aberta e transparência de dados
O Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), desde o dia 1º de janeiro de 2026, não acessa mais a Web of Science (WoS), da Clarivate Analytic, uma das maiores bases de dados bibliométricos comerciais. Ele também cancelou o acesso à Core Collection e ao Journal Citation Reports.
No site do CNRS, Alain Schuhl, diretor-geral Adjunto de Ciência, explica que a decisão parte do reconhecimento de que pesquisadores não podem continuar sendo avaliados por indicadores que pouco dizem sobre a qualidade do conhecimento científico produzido: “ditar as regras do jogo para a avaliação de pesquisadores, definindo o prestígio e a atratividade de periódicos, é uma visão reducionista da ciência que não devemos mais tolerar. Isso significa que precisamos agir agora para garantir a qualidade e a ética do sistema de avaliação da pesquisa”.
Desde 2019, com a publicação de seu primeiro Roteiro para a Ciência Aberta do CNRS, a organização vem adotando políticas voltadas à abertura dos resultados de pesquisa e à reformulação dos processos de avaliação dos cientistas, priorizando a qualidade e a contribuição real das pesquisas, e não a contagem de indicadores bibliométricos. Nesse contexto, também cancelou, em 2024, a assinatura da base de dados Scopus da Elsevier.
Pesquisadores e pesquisadoras do CNRS são estimulados a recorrer a bases de dados abertas como o OpenAlex, que oferecem número maior de periódicos também em outros idiomas e outras áreas – na WoS, áreas de humanidades e ciências sociais, por exemplo, são pouco representadas, assim como ciência da computação e matemática.
Alain Schuhl lembra que um dos principais motivos para a posição de destaque da WoS era a contribuição de funcionários do setor público – universidades e instituições de pesquisas que ajudavam a listar a maioria das instituições do mundo: “Trabalhamos gratuitamente para nos prendermos coletivamente a um sistema pago. Há muito trabalho a ser feito em termos de curadoria de metadados antes que o OpenAlex possa ser usado em todo o seu potencial, mas defendo a mesma dedicação de antes para aprimorar a qualidade dos bancos de dados bibliométricos abertos”.
Dados abertos e transparentes
O CNRS se insere no contexto de outras instituições que buscam reduzir a dependência de plataformas comerciais e fortalecer a soberania científica francesa.
Em 2024, a Universidade Sorbonne, em Paris, parou de assinar a Web of Science e, em 2026, anunciou que não fornecerá mais dados para os rankings acadêmicos produzidos pela revista Times Higher Education (THE) – o mais famoso deles é o World University (WU), que classifica 2.191 instituições de 115 localidades – a universidade ocupa a 75ª posição.
A reitora da Sorbonne, Nathalie Drach-Temam, explica no site da universidade que o principal motivo da decisão é a falta de transparência na seleção dos dados para avaliar o desempenho das instituições:
“Os indicadores utilizados para o cálculo da pontuação geral de uma instituição não expressam a diversidade nem o impacto multidimensional do trabalho realizado, uma vez que priorizam critérios de reputação e prestígio em detrimento dos benefícios de longo prazo da pesquisa básica, da formação e do sucesso dos estudantes, além do impacto social e comunitário das atividades de pesquisa e ensino universitário.”
O CNRS e a universidade integram a Coalizão para o Avanço da Avaliação da Pesquisa (Coara), que reúne universidades, agências de fomento e instituições de pesquisa na defesa de metodologias de avaliação transparentes, que não dependam prioritariamente de publicações – o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) também é membro da Coara.
Para a coalizão, não usar os rankings pode ajudar a comunidade e as organizações de pesquisa a recuperarem a autonomia para moldar as práticas de avaliação e, assim, não precisarem acatar critérios e metodologias definidos por empresas comerciais externas.
A revista Pesquisa Fapesp aponta que o movimento das instituições francesas não é o único. No fim de 2022, as faculdades de direito das universidades Yale, Harvard e Columbia, nos Estados Unidos, abandonaram os tradicionais rankings acadêmicos da U.S. News & World Report, uma revista semanal que deixou de circular em 2010, mas continua publicando na internet classificações de faculdades e universidades.
Em 2023, 52 universidades da Coreia do Sul anunciaram um boicote ao ranking da empresa inglesa Quacquarelli Symonds (QS), depois que uma mudança na metodologia provocou quedas drásticas no desempenho das instituições. Em 2024, a Universidade de Zurique, na Suíça, também desistiu do THE.