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Homenagem a Henrique Gomes de Paiva Lins de Barros
“Contato, Companheiro!!”
Essa era nossa saudação habitual cada vez que iniciávamos uma conversa. Henrique era uma pessoa charmosa, com vasta cultura e bom de papo, o que fazia dele uma agradável companhia. Nem sempre conheci o Henrique. Cheguei ao CBPF em 1997. Henrique esteve envolvido na direção do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) de 1989 a 2003. Na minha chegada, comecei a trabalhar com as doutoras Darci Motta de Souza Esquivel e Eliane Wajnberg, pesquisando a magnetorrecepção em formigas. Nas conversas com elas, sempre aparecia o nome do Henrique, mas nunca tive a oportunidade de encontrá-lo.
A vida me levou a trabalhar na Universidade do Vale do Paraíba (Univap), sediada em São José dos Campos, SP. Um belo dia, no meio de uma aula de pós-graduação, recebi uma ligação do Rio de Janeiro. Para minha surpresa, era Henrique me convidando para fazer o concurso do CBPF, em 2005, e ingressar no grupo de Biofísica.
Quando entrei, nossa convivência ficou mais estreita. Henrique era uma pessoa generosa, amável, brincalhona, com humor ácido e inteligente. Uma pessoa com rituais: assim que chegava ao CBPF, entrava na sala da Darci e da Eliane, sentava e começava uma breve conversa. Depois, voltava para sala dele e começava a trabalhar. Na hora do almoço, saía com todos do grupo e, no fim, tomávamos um café. Foi assim por vários anos.
No quesito científico, ele vai ser lembrado por suas várias contribuições na área de estudo das bactérias magnetotáticas. Primeiro, o descobrimento da biomineralização de sulfetos de ferro pelas bactérias magnetotáticas: na década de 1980, se acreditava que as bactérias magnetotáticas somente biomineralizavam nanopartículas do óxido de ferro magnetita. Henrique, Darci Esquivel e Marcos Farina de Souza estudavam as nanopartículas fabricadas por um micro-organismo magnetotático descoberto na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, o Candidatus Magnetoglobus multicellularis.
Ao tentar indexar os planos cristalinos dessas nanopartículas a partir da difração de elétrons, Henrique se deparou com o problema deles não corresponderem com nenhum óxido de ferro. Procurando pelos registros de outros minérios de ferro magnéticos na Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), ele identificou as nanopartículas como sendo o sulfeto de ferro pirrotita. A história, no entanto, foi cruel – não existia, no Brasil, a tabela de difração do sulfeto de ferro greigita, o outro mineral biomineralizado pelas bactérias magnetotáticas. Assim, o grupo de biofísica ficou com o reconhecimento do descobrimento da biomineralização de sulfetos de ferro magnéticos pelas bactérias magnetotáticas, mas não da identificação da greigita nestes micro-organismos.
Henrique contava que, para fazer a indexação dos planos cristalinos dessas nanopartículas, ele levava os negativos das imagens de difração para casa e projetava os pontos nas paredes, ampliando a distância entre eles e conseguindo uma medida das distâncias interplanares mais precisa. Digamos que isso foi um exemplo de ciência feita em casa... Esse trabalho foi publicado na revista Nature, em 1990 (1). Após a publicação, houve a discussão da vida em Marte pelos estudos feitos no meteorito ALH84001, onde foram achadas cadeias de sulfetos de ferro magnéticos, e um dos artigos citados foi o de Henrique, Darci e Marcos (2). Imediatamente, Henrique escreveu um breve texto intitulado “Tem marciano na lagoa”, comunicando que uma das evidências de vida extraterrestre era carioca e morava na lagoa Rodrigo de Freitas.
Uma década antes, Darci e Henrique tinham desenvolvido a teoria e a parte experimental de uma técnica para estimar o momento magnético de micro-organismos magnetotáticos: o estudo da volta em U (3), publicado em 1986. Nele, Henrique desenvolveu a análise teórica desse tipo de movimento, e os resultados são usados até hoje por todos que estudam a estimativa do momento magnético desses micro-organismos através do movimento.
Henrique desenvolveu uma paixão pelo estudo de um micro-organismo magnetotático muito especial, aquele encontrado na lagoa Rodrigo de Freitas: esférico, composto por várias bactérias magnetotáticas organizadas numa hélice esférica e que são interdependentes umas das outras. Se uma delas morrer, todo o resto morre. Inicialmente descoberto por Darci e Henrique, esse micro-organismo foi batizado de Candidatus Magnetoglobus multicellularis (4). Até suas últimas semanas de vida, Henrique se manteve em uma cruzada pelo reconhecimento dele como uma transição entre os procariotos e os eucariotos: um elo perdido evolutivo. Como a distribuição dos momentos magnéticos neste micro-organismo é muito peculiar (uma hélice esférica), ele brincava dizendo que o resultado não era um dipolo nem um quadrupolo magnético... era um “puta” polo magnético (desculpem a palavra, mas no contexto do magnetismo, é engraçado).
Poderia escrever mais sobre a relevância dos estudos científicos do Henrique, mas o espaço é curto. Vários textos recentes publicados na internet escreveram que Henrique era biólogo. Claro que não foi. A formação dele foi de físico, o que lhe orgulhava, mas ele era extremadamente curioso e um leitor voraz. Transitava em várias áreas do conhecimento com muita facilidade e conforto, o que lhe permitiu trabalhar em diversos problemas da natureza.
Henrique será lembrado também pelos seus livros e estudos sobre a aviação e, principalmente, sobre Alberto Santos-Dumont, defendendo sempre que o verdadeiro inventor do avião foi um brasileiro. Mas o legado científico dele, menos divulgado e compreendido, será sempre lembrado por todos aqueles que trabalhamos a seu lado e por aqueles que trabalham na mesma área. Após o falecimento do Henrique, comuniquei o fato ao professor Richard Frankel nos Estados Unidos. Ele lamentou profundamente o falecimento do querido amigo Henrique.
Resta dizer que ele era carioca, gostava de um bom vinho e, principalmente, de pastel frito.
Meu último “Contato, Companheiro!”. Descanse em paz, na companhia de todos os grandes que lhe precederam.
Referências
1. FARINA, M.; ESQUIVEL, D. M. S.; BARROS, H. G. P. L. de. Magnetic iron-sulphur crystals from a magnetotactic microorganism. Nature, [S. l.], v. 343, n. 6255, p, 256-258, 1990. Disponível em: https://www.nature.com/articles/343256a0. Acesso em: 3 out. 2025.
2. MCKAY, D. S. et al. (1996) Search for Past Life on Mars: Possible Relic Biogenic Activity in Martian Meteorite ALH84001. Science, [S. l.], v. 273, n. 5277, p. 924-930, Aug. 1996. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/science.273.5277.924. Acesso em: 3 out. 2025.
3. ESQUIVEL, D. M. S.; BARROS, H. G. P. L. de. Motion of Magnetotactic Microorganisms. Journal of experimental biology,Cambridge, v. 121, n. 1, p. 153-163, Mar. 1986. Disponível em: https://journals.biologists.com/jeb/article/121/1/153/4920/Motion-of-Magnetotactic-Microorganisms. Acesso em: 3 out. 2025.
4. ABREU, F. et al. ‘Candidatus Magnetoglobus multicellularis’, a multicellular, magnetotactioc prokaryote from a hypersaline environment. International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology, London, v. 57, i. 6, p. 1318-1322, Jun 2007. Disponível em: https://www.microbiologyresearch.org/content/journal/ijsem/10.1099/ijs.0.64857-0#tab2. Acesso em: 3 out. 2025.