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CBPF se despede da microscopista Therezinha Torres Villar
No último dia 18/02, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) se despediu de Therezinha Torres Villar. Microscopista aposentada, construiu ao longo de sua carreira uma trajetória marcada pela precisão científica e pelo trabalho minucioso na análise de interações de partículas em emulsões nucleares. Para celebrar sua memória, colegas compartilham lembranças que revelam a marca profunda deixada por Therezinha no CBPF.
Entre microscópios, análises rigorosas e anos de convivência, construiu-se uma história feita de ciência, colaboração e vínculos humanos que seguem presentes no CBPF.
Início de sua trajetória
Therezinha chega ao CBPF no fim da década de 1950. Já havia uma amiga que trabalhava por aqui, e o professor – e depois diretor do instituto de 1964 a 1968 – Hervásio de Carvalho precisava de uma microscopista para trabalhar com fissão nuclear.
Naquela época, não haviam concursos ou longos exames de admissão, as pessoas eram contratadas por se conhecerem. O treinamento era feito pelos próprios profissionais do instituto, e um teste muito usado para avaliar o foco da equipe era o de identificar caracteres específicos e a quantidade que apareciam nas páginas de um livro russo.
No começo da década de 1960, Therezinha inicia seu trabalho com duas importantes figuras femininas no CBPF, Elisa Frota-Pessôa e Neusa Amato, em uma pesquisa envolvendo prótons e estrelas. Logo após, com a chegada da pesquisadora Anna Maria Endler, a microscopista se aproximou de uma das cooperações mais longas do CBPF – a Colaboração Brasil-Japão (CBJ).
As chapas do projeto, fruto da CBJ, eram diferentes do que ela estava acostumada: maiores e mais pesadas, precisaram de adaptações no suporte e nas escalas para maior fixação e proteção contra falhas. Cada aspecto era relevante e influenciaria o trabalho de Therezinha.
As análises de cada chapa demoravam em média 30 minutos, mas além desse trabalho havia a observação do raio X, a emulsão e a identificação dos eventos, divididos em setores. Só depois eram levados ao microscópio para que fossem identificados cada traço e curva, contabilizados como um mapa para classificar o que era visto.À época, pesquisadores e microscopistas trabalhavam lado a lado. E como diria Anna Endler, era uma atmosfera borbulhante de conhecimento e cooperação.
Therezinha atuou na CBJ até a última câmara, em 1995. Ficou no CBPF até 2007 – foram quase cinco décadas de dedicação. Deu especial valor às categorias técnicas – eletrônica, mecânica, marcenaria, vidraria –, imprescindíveis, segundo ela, para que a colaboração pudesse produzir bons resultados.
Depoimentos
Já não me recordo quando conheci a Terezinha. Antes de conhecê-la pessoalmente, cruzei várias vezes com ela; creio que ainda estava na ativa. Eu a via frequentemente na sala da Valéria (Fortaleza, do Núcleo de Informação C&T do CBPF). , que nos apresentou e me disse que ela tinha trabalhado no laboratório de emulsões; tinha sido colaboradora do Lattes, da Neusa Amato e de muitos outros pesquisadores. Logo percebi que deveria conversar com ela para saber como tinha sido aquele local, muito importante na história do CBPF. Apesar de ser pessoa educada, muito gentil e ter sempre um sorriso no rosto, Teresinha evitava falar sobre seu trabalho. Era muito discreta. Afinal, consegui ganhar a sua confiança e passamos a conversar sobre os tempos passados. Muitos anos depois, com a ajuda do João (Martins, do Núcleo de Comunicação Social do CBPF), filmamos Teresinha com as placas de vidro, remanescentes do laboratório que ela guardou com tanto carinho por muitos anos. Infelizmente, esse vídeo se perdeu. Era um prazer ouvi-la contar sobre o que estava em cada uma daquelas placas. Mais do que sentir prazer, eu ficava comovido, pois percebia que estava diante de uma pessoa que genuinamente amava seu trabalho e tinha orgulho dos muitos anos que passou destrinchando aqueles “risquinhos”. Teresinha era daquelas pessoas que nos fazem sentir que, apesar de todas as dificuldades que possamos encontrar, seja na vida, seja nas nossas atividades profissionais, temos que enfrentá-las com coragem e, se possível, sorrindo. Obrigado!
Antonio Augusto Passos Videira
Historiador e pesquisador colaborador do CBPF
Eu não trabalhei com a Therezinha Torres, mas na época coordenava o laboratório de química que ficava em frente ao laboratório dela.
Com isso, era muito comum nos encontrarmos na parte externa dos nossos laboratórios. Ela sempre chamou minha atenção pela delicadeza e tranquilidade que transmitia.
Trocamos algumas palavras, já que na época nem tinha celular e conseguíamos conversar um pouco mais com nossos colegas de trabalho.
Escrevo esta mensagem com a visão dela na minha cabeça, e sei que estará bem!
Obrigada!
Elena Mavropoulos
Tecnologista aposentada do CBPF
Um legado de dedicação
Entre placas de vidro e microscópios, Therezinha ajudou a revelar histórias da matéria que escapam ao olhar comum. Com paciência e rigor, transformou pequenos sinais em conhecimento científico e deixou sua marca na construção da Física no CBPF. Hoje, as emulsões podem ser guardadas, os microscópios são silenciosos, mas o que permanece vivo é o cuidado de Therezinha com o trabalho, a dedicação à ciência e a memória de quem soube olhar com atenção para aquilo que poucos conseguiam ver.

