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CBPF realiza evento sobre trajetórias e desafios das mulheres na ciência
Com o nome “Mulheres na Ciência: trajetórias e desafios”, o evento foi dividido em dois momentos. Pela manhã, 42 alunas do Colégio Alfredo Neves, de Nova Iguaçu, visitaram laboratórios e conversaram com pesquisadoras – de servidoras a alunas da pós-graduação – sobre áreas como inteligência artificial, física quântica, nanotecnologia, cosmologia e impressão 3D.
As alunas fazem parte do projeto Tem Menina no Circuito, iniciativa que busca incentivar o interesse de meninas pela ciência e promover valores como equidade, acesso à educação e letramento científico. Durante a visita, tiveram a oportunidade de conhecer laboratórios do instituto, dialogar diretamente com pesquisadoras sobre suas trajetórias, desafios e escolhas profissionais.
O percurso foi marcado por trocas de experiências e acolhimento. As alunas compartilharam dúvidas, expectativas e impressões sobre o universo científico. Para Mariana Silva de Castro, a experiência foi incrível: “Fiquei muito animada com cada pedacinho. A parte que eu mais amei foi a do maquinário. Fiquei muito interessada para saber como se constrói cada um deles, passo a passo. É uma coisa que, com certeza, eu trabalharia”.
Já Cristiny Vitória Inácio destacou o impacto da visita em seus planos futuros: “Eu já estou há um bom tempo interessada neste tipo de área. Estar aqui só reforçou mais minha vontade de estudar o que eu quero estudar, que é a astrofísica”, afirma.
Dados históricos e a luta por equidade
À tarde, a programação reuniu pesquisadoras e profissionais de diferentes áreas para discutir a presença feminina na ciência e os desafios ainda existentes. A programação começou com palestra dedicada à discussão sobre a invisibilização de mulheres cientistas no Brasil e no mundo proferida pela pesquisadora do CBPF, Gabriela Marques.
Sua apresentação destacou dados que evidenciam desigualdades de gênero na ciência, como o “Efeito Tesoura” – constante redução da presença feminina ao longo da carreira científica – e o “Efeito Matilda” – referente ao padrão histórico em que contribuições científicas feitas por mulheres são subestimadas, atribuídas a colegas homens ou simplesmente apagadas da narrativa científica.
“Por trás dessas estatísticas existe algo mais profundo: uma estrutura histórica de desigualdade que atravessa o mundo do trabalho e a sociedade como um todo. É dentro dessa estrutura que as trajetórias de mulheres na ciência também acontecem. Assim, discutir mulheres na ciência não é apenas falar de representatividade, mas de quem pode ocupar espaços de poder, quem é reconhecido e, em alguns casos, quem consegue simplesmente existir com segurança nesses espaços”, destaca a pesquisadora.
Consciência, diversidade e caminhos de atuação
Após, houve a apresentação, em formato de cordel, da trajetória da matemática Maria Laura Mouzinho e uma mesa-redonda debateu experiências pessoais e profissionais – desafios enfrentados, aprendizados e conquistas – em um diálogo voltado também para inspirar e fortalecer novas gerações de cientistas.
A mesa foi composta por Isa Assef dos Santos, Subsecretária de Pesquisa e Organizações Sociais, e Andrea Latgé, Secretária de Políticas e Programas Estratégicos, ambas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Suzana Peripolli, professora e coordenadora do Programa Futuras Cientistas na UERJ, e Gabriela Reznik, pesquisadora de divulgação científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Em sua fala, Andrea Latgé abordou sua vida pessoal e profissional. Física, com pesquisa na área de matéria condensada e sistemas de grafeno, a Secretária falou sobre as escolhas que se impõem a mulheres no decorrer de sua formação profissional:
“Os estereótipos de gênero nas áreas STEM (sigla em inglês para Science, Technology, Engineering and Maths – ciência, tecnologia, engenharia e matemática) são enormes, porque são áreas ainda vistas como masculinas. Professores e pais, muitas vezes, subestimam as habilidades matemáticas das meninas desde a pré-escola”.
Andrea, que também é professora da Universidade Federal Fluminense, apontou que como menos mulheres estudam e trabalham em STEM, essas áreas tendem a perpetuar culturas inflexíveis, excludentes e dominadas pelos homens que não apoiam ou não atraem mulheres e minorias: “as meninas têm menos modelos de comportamento para inspirar seu interesse nessas áreas, vendo exemplos limitados de mulheres cientistas e engenheiras em livros, mídia e cultura popular. Há ainda menos modelos de mulheres negras em matemática e ciências”.
Além da contextualização, apresentou dados e ações realizadas pelo Ministério para o aumento da inclusão promoção e permanência de meninas e mulheres na ciência, tecnologia e inovação, como o Edital do CNPq “Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação”.
Essa pauta também foi contemplada na fala de Isa Assef, que falou de seus 40 anos de experiência na área de ciência e tecnologia – foi presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação e diretora-presidente da Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica , instituição voltada para pesquisas e incremento à competitividade de empresas e organizações na região amazônica: “Trabalhamos para fortalecer a estrutura de ciência e tecnologia e garantir que os espaços estejam abertos para todos”.
Ações para inclusão
Já Suzana Peripolli narrou seu caminho profissional – da saída de uma cidade pequena do Rio Grande do Sul, passando pela graduação em matemática, suas experiências profissionais até as pesquisas internacionais em física e o trabalho como professora do Departamento de Engenharia Mecânica da UERJ.
Coordenadora do Laboratório Multiusuário de Nanofabricação e Caracterização de Nanomateriais (Nanofab), Suzana recebeu o Prêmio Capes Futuras Cientistas 2025, na Categoria Tutoras, com o projeto “As Futuras Cientistas e os materiais macro, micro e nano na Engenharia Mecânica da UERJ”. A premiação, promovida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pelo Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), tem o objetivo de estimular a participação feminina nos espaços de desenvolvimento científico.
Ela reafirmou a importância do trabalho de ajudar a promover a entrada de meninas e mulheres na área de STEM: “São poucas mulheres atuando nas Engenharias. Na Mecânica, o número é ainda menor. O Futuras Cientistas, por exemplo, é um projeto de mudança de vida para as meninas. Elas conhecem uma universidade pública, equipamentos de ponta, laboratórios de pesquisa, o que expande horizontes com a possibilidade de estudar, ter independência financeira e promover melhorias pessoais e também para a família”, explica Suzana.
Gabriela Reznik, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Público e Avaliação em Museus (Nepam) e coordenadora adjunta do Programa de Pós-Graduação em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde da Fiocruz, enfatizou fatores que afetam a participação feminina nas ciências, trazendo contribuições de perspectivas feministas de autoras como bell hooks, Sueli Carneiro, Sandra Harding, Donna Haraway, Yuderkys Miñoso e Grada Kilomba.
O estereótipo de gênero na infância, a educação científica diferenciada, a divisão sexual do trabalho doméstico, a maternidade, a representatividade nas mídias e nas artes ajudam a reafirmar estereótipos de cientistas e femininos que não necessariamente coincidem.
Para Resnik, a falta de diversidade nos espaços científicos é uma realidade na maioria dos países: “Ao longo da formação escolar e acadêmica, há uma perda preferencial de pessoas que não se encaixam na imagem “típica” de cientista. Entra em ação o viés implícito, mais comum do que o preconceito explícito até. Várias pesquisas indicam que a presença de estereótipos implícitos de gênero, associando características de maior brilhantismo e inteligência ao gênero masculino, é uma construção social que se inicia cedo, já nas crianças. Todas nós somos, assim, afetadas pelas estruturas sociais que moldam nossa percepção”.
Ela explicou que os estereótipos de cientista impactam no senso de pertencimento e na formação de uma identidade científica, assim, torna-se necessário alterar as narrativas sobre quem pode ser cientista. Nesse contexto, a divulgação científica pode ajudar a reforçar protagonismo feminino, principalmente o adotar as Práticas equitativas fundamentais: Reconhecer, Rever e Reformular, Co-criar, Reivindicar, Desafiar e alterar Narrativas tradicionais, Estar de forma crítica com, Abraçar a Humanidade e Partilhar a Autoridade.
“Com certeza, a divulgação científica pode reforçar o protagonismo de meninas e mulheres na produção de ciência e em todos os campos de conhecimento, e afetar positivamente a opinião pública”.
Reznik finalizou ressaltando que ações e iniciativas como Tem Menina no Circuito, Meninas e Mulheres na Redução de Riscos e Desastres (RRD), Meninas nas Exatas de Duque de Caxias, Projeto Meninas e Mulheres na Ciência, ao reconhecerem o protagonismo da juventude, apontam para a importância e a necessidade “de todas olharem para quem são, quem podem ser, em vez de quem deveriam ser”.
O evento foi o primeiro de outros que virão para reafirmar o compromisso do Centro com a construção de um ambiente científico mais diverso, plural e representativo, onde fortalecer o diálogo entre diferentes trajetórias contribui para a formação de novas gerações de cientistas.



