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Darci Motta deixa legado de inquietude e inovação acadêmicas
A ciência e a física brasileira perderam no último dia 15/10 um importante nome da área de Materiais Magnéticos e Propriedades Magnéticas de Microrganismos e Insetos: a pesquisadora Darci Motta.
Motta fez Licenciatura em Física pela Universidade de São Paulo (USP), em 1968, mesma instituição onde três anos depois concluiu seu Bacharelado em Física e, em 1974, seu mestrado em Física. Doutorou-se em Física pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (1980), onde atuava, desde 1976, como pesquisadora.
Para celebrar sua carreira e vida, o Núcleo de Comunicação Social (NCS) do CBPF convidou três pesquisadores para relembrar a cientista.
Ampliando horizontes
Henrique Lins de Barros, pesquisador aposentado do CBPF, contou sobre seus primeiros contatos com a pesquisadora: “1972. Cheguei ao CBPF para terminar o doutorado iniciado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Eu ia continuar fazendo cálculos de Física Atômica e distante dos laboratórios. Foi quando conheci Darci, que estava terminando o doutorado. Ela me apresentou as bactérias magnetotácticas, um assunto curioso que despertava interesse. Jacques Danon (1924-1989) trouxe Richard Frankel, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), com um filme dos organismos nadando. E ela dizia: vamos ver essas bactérias?”.
“Em 1981 ela foi ao Ceará com Frankel e Flavio Torres, da Universidade Federal do Ceará (UFC), encontrar as bactérias no Equador Geomagnético e os três publicaram um artigo na Science. Aí o interesse aumentou e ela propôs pesquisarmos com amostras coletadas em águas do [estado] Rio de Janeiro: Lagoa Rodrigo de Freitas, Jardim Botânico, Itaipu, Araruama. E [em outras] águas que encontrávamos, quando um de nós viajava. Virávamos meio naturalistas, aprendendo a usar um microscópio emprestado das microscopistas de [César] Lattes, aprendendo a fazer fotografias e vídeos no microscópio e sonhando em ter acesso à microscopia eletrônica, que foi possível graças ao Marcos Farina, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Aí voltamos a trabalhar em física com os microbiologistas.
“Darci ampliava o horizonte, trazendo novas ideias e juntando novos colaboradores. O grupo começou a crescer enquanto fazíamos reforma no laboratório e a nossa sala, que dividíamos, foi virando um anexo do laboratório, com aquários e muitas plantas. A sala era um ponto de encontro e publicávamos alguns artigos e capítulos de livro. O primeiro, um artigo na Biologie Celulaire, em 1983. Depois outros, já com a contribuição da microscopia eletrônica e de pesquisadores da UFRJ. Darci abria o espaço, inquieta e animada gostava de ampliar. As horas sagradas do café eram ótimas para falarmos do dia a dia e ouvir conselhos. Quando publicamos um trabalho na Nature (1990), comemoramos. Mas ela não parava e começou a estudar magnetismo em insetos sociais com Eliane Wajnberg, Daniel Acosta, entre outros ... Não a termos junto conosco é um vazio enorme, mas seguimos sabendo que ela continua presente em nossas memórias.”
Extremos
“Escrever sobre Darci... Sou de poucas palavras, ao contrário dela, sempre pronta para uma boa conversa. Mulher forte e única até seu último minuto. Tive o privilégio de conviver com Darci por 37 anos. Foram trabalhos, orientações, hidro, almoços, cafés e compras juntas. Compartilhamos a sala, o laboratório, roupas e sapatos. Foram muitas discussões acaloradas e ricas, sem jamais interferir na nossa relação. Mulher de extremos: acadêmica – intuitiva, de muito sol – cuidava da saúde, briguenta – extremamente bondosa. Deixou muitos ensinamentos. Ficam a saudade e lembranças ímpares”, lembrou Eliane Wajnberg, pesquisadora aposentada do CBPF.
Cientista inovadora
“Conheci a Darci em 1997. Ela sempre mostrou ser uma pessoa com uma personalidade forte, mas um ser humano fantástico, sempre preocupada com o bem-estar do outro. Era sempre inspirador ver ela comprando comida para pessoas em situação de rua. A morte dela significou a perda de um grande ser humano numa época em que a falta de humanidade está prevalecendo na nossa sociedade. Como cientista ela tinha ideias inovadoras, sempre as compartilhando em conversas agradáveis ou em conversas de trabalho difíceis, mas que sempre resultaram em publicações de impacto. Sentimos muito a perda de nossa amiga, que sempre fará falta. Os doutores Richard Frankel (CalPoly, USA) e Alejandro Heredia (UNAM, México) lamentam muito a morte de nossa amiga Darci”, relata Daniel Acosta Avalos, pesquisador titular do CBPF.
CV Lattes Darci Motta: http://lattes.cnpq.br/2630361385341232