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Notícias

Reflexão, denúncia e chamado à resistência encerram “Ciclo de Diálogos COP30”

As diretrizes construídas durante os seis eventos no Museu Goeldi estão sendo transformadas em recomendações sobre temas como financiamento climático, biodiversidade, resiliência da floresta, transição energética e vulnerabilidade socioambiental no campo e na cidade, como contribuições aos debates da COP30
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Publicado em 18/09/2025 16h35 Atualizado em 06/11/2025 15h06
Ciclo de Diálogos

- Foto: Janine Valente

Agência Museu Goeldi - Reflexões sobre os benefícios das experiências de coexistência entre a floresta, povos indígenas e comunidades tradicionais; denúncia de racismo estrutural e ambiental com as populações que atuam na conservação das florestas e sequer têm liderança representativa na Blue Zone da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30); e um chamado à resistência para a manutenção da floresta e para reconhecer os saberes tradicionais. Essas questões deram o tom do último evento do “Ciclo de Diálogos COP30 com Ciência”, iniciativa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), com apoio de parceiros, na última sexta-feira (12/09), em seu Campus de Pesquisa.

Os relatórios dos Diálogos, cujo ciclo iniciou em maio com eventos mensais, estão sendo transformados em síntese, diretrizes e recomendações, expressas durante os seis encontros. O documento será entregue à organização da COP30 como contribuição para as discussões que embalarão a Conferência das Nações Unidas e o mundo entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025.

Com o tema “Povos da floresta e criação de paisagens Amazônicas”, o evento foi coordenado pela arqueóloga e pós-doutoranda do Museu Goeldi, Erêndira Oliveira. A primeira mesa foi formada por Carolina Levis (Universidade Federal de Santa Catarina), Carlos Augusto da Silva, conhecido por Dr. “Tijolo” (Universidade Federal do Amazonas) e Ana Carolina Melo (Laboratório da Cidade). A mediadora, a jornalista e antropóloga Helena Palmquist, iniciou o primeiro debate com a pergunta orientadora: “Como os conhecimentos tradicionais e o manejo da paisagem, ao mesmo tempo em que moldaram a Amazônia, podem ser integrados à ciência e às políticas públicas e de que maneira podem orientar soluções para os desafios socioambientais das cidades amazônicas?

Já a segunda mesa foi mediada pela jornalista, escritora e comentarista Cristina Serra e contou com a participação do educador, linguista da etnia baniwa e pós-doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGL) da Universidade de Brasília (UnB), Artur Walipere Baniwa; do pesquisador do Museu Goeldi, o etnobotânico, cineasta, mestre e doutor em antropologia médica, Glenn Harvey Shepard Jr; e da liderança quilombola graduada em Letras, mestre em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido e doutora em Antropologia, Maria Páscoa Sarmento de Sousa.

Convidados da primeira mesa discutiram conhecimentos tradicionais e o manejo da paisagem.jpg
Convidados da primeira mesa discutiram conhecimentos tradicionais e o manejo da paisagem

Desafio coletivo de ter esperança

A ecóloga Carolina Levis refletiu sobre o desafio de ter esperança diante da beira do colapso da Floresta Amazônica: “Num exercício coletivo, a gente propõe essa possibilidade de olhar para pontos de esperança socioecológicos. Onde estão esses lugares de esperança em que emergem a possibilidade de respeitar outros sistemas de conhecimento?” A pesquisadora defende que os conhecimentos tradicionais devem ter o mesmo status da ciência que se constrói na academia. “As paisagens são frutos de interações entre humanos e uma multiplicidade de seres que se conectam, negociam e têm relações, inclusive, de parentesco. Os povos tradicionais são guardiões, mantenedores e amplificadores desses patrimônios”, diz a ecóloga.

A floresta como farmácia viva

“A floresta assobia, ela canta, ela namora, ela cheira e chora… A floresta tem alma, ela tem corpo, ela representa”, lembra o doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia Carlos Augusto, o Dr. Tijolo. Partindo da percepção que cada ser da floresta cumpre um papel para sua preservação, o especialista demonstrou a  floresta amazônica como “uma farmácia viva”, onde os povos amazônicos, que preservam e interagem com as plantas, conhecem o seu DNA. Dr. tijolo também chamou a atenção para o uso errôneo do termo “extrativista” para designar pessoas que manejam as florestas de uma forma sustentável. “Para mim, essa expressão “extrair” é criminosa e maltrata essas pessoas, pois é o ‘capital’ que tira e não repõe”, defendeu. O professor destacou os danos causados pelo agronegócio, que impôs 525 anos de sofrimento às florestas, e por “quem faz as leis” e desconhece os saberes ancestrais da Amazônia.

Planejada para a abundância

Já para a arquiteta, urbanista e economista Ana Carolina Melo, “a Amazônia foi historicamente manejada para a produção de abundância, contrariando os modelos atuais da monocultura”. Ela lembrou que a Amazônia legal representa 60% do território brasileiro, mas menos de 30% da população da Região Norte tem acesso à rede de esgoto sanitário e 40% das pessoas mais afetadas pela mudança climática estão na região. A doutora em Economia também falou do projeto reducionista responsável pela perda de 20% da Floresta Amazônica nos últimos 40 anos. “As cidades, que poderiam ser pensadas em outros termos, têm problemas de cobertura vegetal, aumento absurdo de impermeabilização do solo e sistemas construtivos pouco adaptados às condições climáticas locais. As referências indígenas têm possibilidades muito mais adaptadas, mas a gente nega e não traz essas referências para as cidades”, alertou.

Maior participação indígena no parlamento

Após cumprimentar a plateia na língua baniwa e lembrar o sofrimento dos povos indígenas no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, Artur Baniwa apresentou a pergunta norteadora da segunda mesa antes de desenvolver a sua fala. “De que maneira as abordagens bioculturais e os conhecimentos produzidos por povos indígenas, comunidades locais e ciências amazônicas podem ser incorporados às estratégias de desenvolvimento sustentável e conservação da região?”. Ele defendeu que o mapeamento dos territórios e preservação das formas de viver dos povos indígenas, bem como o acesso a financiamento para as comunidades que preservam a Amazônia são prioridades. O acadêmico acrescentou que políticas públicas, manejo sustentável, sistemas agroflorestais, proteção territorial e monitoramento, além de maior participação indígena no parlamento brasileiro, também são estratégias urgentes para o desenvolvimento sustentável da região amazônica.

Domesticação de paisagens e preservação

Na sequência, foi a vez do pesquisador Glenn Shepard contribuir com os diálogos. Ele enfatizou a importância dos encontros entre cientistas, indígenas e quilombolas para pensar a Amazônia e mencionou a Declaração de Belém, de 1988, revisada 30 anos depois, em 2018, no Congresso Internacional de Etnologia. No evento, foi elaborada a Declaração Belém +30, que, entre outros pontos, reconhece a importância dos saberes das comunidades amazônidas para a construção da ciência. “Existe uma conexão indiscutível entre a biodiversidade e a diversidade cultural”, disse, explicando que nos territórios onde houve sobreposição da presença de espécies bioindicadoras e de povos indígenas, é constatada maior biodiversidade. “A domesticação das paisagens promovida pelos povos indígenas, como o povo Baniwa, contribuiu para a manutenção ou regeneração da floresta”, assegurou.

Falta de transparência e racismo ambiental

Munida de dados estatísticos e da vivência ancestral no Quilombo Barro Alto, localizado na Ilha do Marajó, a doutora Maria Páscoa deixou evidente o atraso do poder público na demarcação dos territórios quilombolas na Amazônia Legal, falou sobre racismo ambiental e fez um protesto contra a forma como estão sendo negociados os créditos de carbono da Floresta Amazônica pelo Estado do Pará. “A Consulta Livre, Prévia e Informada foi uma farsa e só aconteceu porque era condição para a negociação. Não houve transparência. Como os benefícios vão chegar em nossas comunidades?”, questionou. Páscoa citou outro número revelador da vulnerabilidade no Brasil: a população quilombola soma 1,3 milhão de pessoas, mas apenas 12,6% vivem nos 494 territórios demarcados. “A crise climática atinge mais as pessoas vulnerabilizadas. A gente vê quais são os bairros que mais alagam em Belém”, protestou. E, novamente, demonstra os desafios constantes que a desigualdade impõe aos povos tradicionais,  citando o Marajó: enquanto as plantações de soja e arroz avançam, beneficiadas pela terra preta da região legada pelos povos da floresta, as pessoas quilombolas perdem suas roças, que são as suas únicas fontes de alimento.

Fortalecimento da ciência

Iniciado em maio deste ano, o Ciclo de Debates Diálogos COP 30 com Ciência, realizado pelo Museu Goeldi, com apoio do ICRAF-CIFOR e da Fapespa, foi composto por seis eventos que atraíram um público diversificado para o auditório do Campus de Pesquisa da instituição.

De acordo com o diretor do MPEG, Nilson Gabas Júnior – que fez o encerramento do evento –, os debates estão sendo compilados e devem servir como contribuição para as discussões que envolvem a Amazônia no contexto da COP30 e os desafios da crise climática mundial, reunindo uma série de recomendações que surgiram no decorrer da programação finalizada na última sexta-feira, 12 de setembro.

“Podemos dizer que a ciência da Amazônia começa aqui [Museu Goeldi], porque somos a primeira instituição a promover pesquisa na região, fundada há 160 anos. Como instituição de pesquisa fincada na Amazônia, temos procurado inovar em vários aspectos e esse evento é uma contribuição sobre as questões da Amazônia. Na série de diálogos, discutimos financiamento climático, biodiversidade, resiliência da floresta, transição energética e vulnerabilidade social”, ressaltou Nilson Gabas.

O diretor do Museu Goeldi ainda destacou a importância da comunicação e da educação para a divulgação da ciência produzida pela instituição. “O fortalecimento da ciência passa pela comunicação e pela educação. Precisamos saber comunicar e ter efetividade na comunicação. Nós estamos melhorando e temos muito o que melhorar e, assim, conquistar novos espaços”, vislumbrou. Gabas pontuou também que a melhoria da atuação passa pela diversidade e o reconhecimento da contribuição da população indígena, das mulheres, das comunidades tradicionais e das pessoas negras para a instituição e para a Amazônia.

O Ciclo de Diálogos COP30 Com Ciência está disponível no canal do Museu Goeldi no YouTube. Clique nos temas e acesse a íntegra dos debates:

PALESTRA DE ABERTURA

A COP 30 como catalisadora de soluções climáticas para a Amazônia e o Brasil - Ima Célia Guimarães Vieira

Moderador: Daniel Nardin (Amazônia Vox)

1º CICLO : Financiamento climático perspectivas e desafios dos mecanismos REDD+

Coordenador: Marlúcia Martins

Mesa 1 Debatedores: Roberto Araújo Santos (MPEG), Francisco de Assis Costa (NAEA UFPA), Andrew Miccolis (CIFOR-ICRAF) e Haydee Marinho (SEMAS-PA).

Moderador: Ismael Machado (Amazônia Real)

Mesa 2 Debatedores: Iracadju Ka'Apór, Valdeci Tembé, Thomas Mitschein (UFPA e Trópico em Movimento), Herena Corrêa de Melo (MPF-PA) e Monique Vanni (WWC)

Moderadora: Joice Santos (LabCom MPEG)

Financiamento e Relatoria: CIFOR-ICRAF

2º CICLO - Vulnerabilidade Ambiental, Resiliência de Rios e da Floresta

Coordenador: Márlia Coelho-Ferreira

Mesa 1 Debatedores: Marcelo Tabarelli (UFPE), Antônio Carlos Lôla da Costa (UFPA/MPEG) e José Ivanildo Brilhante (Conselho Nacional de Seringueiros)

Moderador: Guilherme Guerreiro (Sumaúma)

Mesa 2 Debatedores: Divino Vicente Silvério (UFRA), Aline Maria Meiguins de Lima (UFPA) e Ô-é Kayapó (Coordenadora da CR Kayapó - Sul do  Pará)

Moderador: Cecília Amorim (Carta Amazônia)

3º CICLO - Respostas da Biota amazônica frente às mudanças climáticas

Coordenador: Ana Prudente

Debatedores: Gabriela Ribeiro Gonçalves (MPEG), Camila Ribas(INPA), Maria de Fátima de Aguiar Guilherme (Espaço Madalena Pantoja), Josiel Jacinto Pereira Juruna (Monitoramento Ambiental Territorial Independente da Volta Grande do Xingu).

Moderador: Fabyo Cruz (revista Cenarium)

 

4º CICLO - O contexto Amazônico na transição Energética e enfrentamento da crise climática

Coordenador: Alberto Akama

Debatedores: Ivan Luiz Guedes de Aragão (Equatorial Energia); Patricia Nunes ( Empresa de Pesquisas Energéticas), Philip Fearnside (INPA), Ronaldo Mecenas (Associação das comunidades ribeirinhas extrativistas da Vila Tauiry).

Moderador: Fábio Bispo (InfoAmazonia)

5º CICLO - Vulnerabilidade social e Alternativas para Territórios Amazônicos

Coordenador: Roberto Araújo (MPEG)

Mesa 1 Debatedores: Edel Nazaré Moraes Tenório(MMA) Tatiana Sá (EMBRAPA), Raimunda Monteiro (MPPA/PR)

Moderador: Marcos Wesley (portal Tapajós de Fato)

 

Mesa 2 Debatedores: Parakye (Gilson Curuaia -(COIAB),  Ivanildo Brilhante (CNS Gurupá) e Kelvyn Gomes (Museu da Vila da Barca) Moderador:

Catarina Barbosa (Amazônia Real)

 

6º CICLO - Povos da floresta e criação de paisagens amazônicas

Coordenador: Erêndira Oliveira

Mesa 1 - Debatedores: Carolina Levis (UFSC), Carlos Augusto da Silva (UFAM), Ana Carolina Melo (Laboratório da Cidade)

Moderadores:Helena Palmquist (OPI)

Mesa 2 - Debatedores: Artur Walipere (Baniwa) (UNB), Glenn Shepard (MPEG), Maria Páscoa (Liderança quilombola Salvaterra - UFPA)

Moderadores: Cristina Serra (ICL Notícias)

Texto: Andréa Batista e Carla Serqueira

Edição: Joice Santos

Imagens: Janine Valente

Meio Ambiente e Clima
Tags: ParáCOP30
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