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Popularização do conhecimento é estratégia no combate à desinformação
Museu Goeldi | COP30 com Ciência – "O Museu Goeldi, instituição respeitada, faz ensino e pesquisa, mesmo quando ameaçada. São 159 anos nessa luta incessante. Desde 1866, plantando ciência para a gente. E tem quem diga por aí: Isso é gasto, não é urgente. E essa comunicação toda é para combater o negacionismo que se espalha feito praga na sombra do falso moralismo. O que não falta é caba dizendo isso aí é comunismo. O remédio para essa onda é ciência bem compartilhada. Cuidado com a informação, de onde ela foi tirada. O Sagan já dizia que a pseudociência ocupa a fala não ocupada. A estratégia vai além da postagem da curtida. É olho no olho, conversa, ciência compartilhada. É valorizar saber antigo de toda essa gente que sempre foi apagada”, declamou Mayara Larrys, chefe do Serviço de Educação do Museu Paraense Emílio Goeldi, em uma mesa-redonda da Casa da Ciência, instalada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), no Parque Zoobotânico do MPEG. Com o cordel de sua autoria, ela demonstrou, na prática, como inovar na comunicação científica. A plateia aplaudiu.
Com o título “A comunicação científica amazônica no combate ao negacionismo climático”, o debate – que aconteceu na tarde desta segunda-feira (17/11) – também contou com a participação da coordenadora de Comunicação e Extensão do MPEG, Sue Costa; da coordenadora-geral de Administração, Planejamento e Gestão Estratégica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Luiza Henriques; e do codiretor do Instituto Brasil da Universidade de Birmingham, Angelo Martins Junior. A mesa foi mediada pela professora da Universidade Federal do Amazonas, Aline Lira; e aberta pelo diretor do Instituto Mamirauá, João Valsecchi.
Ciência mais inteira – Paraibana, Mayara Larrys se inspirou nos cordelistas da sua terra natal para apresentar os projetos de extensão do Museu Goeldi, considerados estratégias importantes da instituição para o combate ao negacionismo no campo da popularização da ciência e da divulgação científica, ao lado das exposições organizadas pela Coordenação de Museologia. “A ciência antigamente era luz de gente rica, privilégio da elite, coisa muito da restrita do tal gabinete de curiosidade, só quem tinha vez e voz era tal das autoridades. Com o tempo, o Museu foi rompendo essa barreira, narrando a Amazônia Viva na sua forma mais certeira, abrindo porta e janela por uma ciência mais inteira”, continuou Mayara, que trocou a formalidade de uma palestra convencional pela linguagem da cultura nordestina para apresentar a forma do Museu Goeldi de popularizar a ciência.
Entre os projetos apresentados, a chefe de Educação do MPEG falou sobre o Clube de Pesquisadores Mirins, idealizado pelo professor Luiz Videira, pelo qual já passaram mais de 4 mil jovens. O Núcleo de Visitas Orientadas foi outra estratégia de divulgação científica mencionada, direcionada às escolas que visitam o Parque Zoobotânico, principalmente. Segundo informou, anualmente, uma média de 12 mil estudantes participam das atividades. “Mas no ano passado chegamos a ter 16 mil”, comemorou, falando ainda sobre o Museu de Portas Abertas, que nasceu do interesse da comunidade do entorno do Campus de Pesquisa, em Terra Firme, conhecer o que se fazia por trás dos muros da unidade de pesquisa; e do Programa de Caxiuanã, na Floresta Nacional de mesmo nome, onde são realizadas a Feira de Ciências e as Olimpíadas Científicas.
“A ciência não pode ser enciclopédica” - Coordenadora de Comunicação e Extensão do Museu Goeldi, Sue Costa falou sobre a necessidade de quebrar paradigmas na comunicação científica e fazer uso da interdisciplinaridade para levar a mensagem da ciência a mais pessoas, adotando o afeto como estratégia. "Quando eu falo em interdisciplinaridade, eu falo mesmo numa quebra de paradigmas, de termos profissionais e representantes do público pensando nesta comunicação. Sabe por quê? Porque a gente precisa criar afeto. Você não consegue ser lembrado, reconhecido ou respeitado sem afeto e vínculo", afirmou.
"No combate às narrativas negacionistas direcionadas às massas, a gente também precisa falar para o coletivo" (Sue Costa).
Sue Costa ressaltou que a ciência precisa de uma comunicação que alcance a coletividade. "O influencer que está espalhando fake news está falando para 40 milhões de pessoas”, lembrou, dizendo que para alcançar mais pessoas, a ciência pode se valer da experiência de outros profissionais. "Um discurso interdisciplinar requer o contato com designers, com artistas, com fotógrafos, comunicadores, pessoas que entendem de como a mensagem vai para o coletivo de uma forma que possa ser recebida com mais impacto. No final das contas, é isso que queremos".
Como exemplo de inovação na forma de comunicar ciência, a coordenadora do MPEG falou sobre a montagem da exposição "Diversidades Amazônicas", aberta ao público no Centro de Exposições Eduardo Galvão do Museu Goeldi. Ela disse que para a construção da narrativa proposta, a equipe contou com pessoas da arquitetura, do design, da museologia e da biologia, dando atenção especial ao público infantil. "A ciência não pode ser enciclopédica. No combate às narrativas negacionistas direcionadas às massas, a gente também precisa falar para o coletivo. Os espaços da ciência não podem se transformar em sucursais de salas de aula”, reforçou.
Texto: Carla Serqueira
"Muito dificilmente existe preservação sem os povos indígenas"
"Muito dificilmente existe preservação sem os povos indígenas", afirmou Cláudia López-Garcés, antropóloga e pesquisadora do Museu Goeldi, durante a mesa-redonda da manhã desta segunda-feira, na Casa da Ciência, que abordou a relação entre justiça climática e povos da Amazônia, com o foco na ciência e nos saberes tradicionais. “Existe um equilíbrio entre a maneira de viver dos povos indígenas, em uma relação de equilíbrio com o entorno e com os ecossistemas onde eles habitam, contribuindo para a preservação e a conservação da biodiversidade”, ressaltou.
“Onde existem povos indígenas, existe maior biodiversidade" (Cláudia López-Garcés).
Com participantes e pesquisadores do MCTI, do Inpe, do IDSM e do Museu Goeldi, o debate abordou como a justiça climática depende dos povos indígenas, e como a aliança entre o conhecimento científico e o tradicional pode contribuir para combater as mudanças climáticas na Amazônia. Para Cláudia, é essencial a presença dos povos tradicionais na discussão sobre o meio ambiente, “Eu trouxe na minha apresentação uma reflexão sobre a necessidade de considerar os conhecimentos indígenas dentro das discussões éticas e políticas da justiça ambiental.”
A conservação da biodiversidade pelos povos indígenas, pela sua harmonia com a floresta, é um importante aprendizado ao se falar de justiça climática. “Onde existem povos indígenas, existe maior biodiversidade, pelo fato de que seus estilos de vida estão muito atrelados a essa biodiversidade, a essa conservação dos bosques, conservação das florestas, conservação das águas. Então, é preciso mostrar como esses conhecimentos estão contribuindo de uma maneira efetiva para o enfrentamento das mudanças climáticas,” finalizou ela.
Texto: Isabella Gabas
Cientistas defendem mais investimentos para adaptação às mudanças climáticas
“Adaptações às mudanças climáticas. Soluções baseadas na natureza” foi o tema da mesa-redonda mediada por Marlúcia Martins, ecóloga e coordenadoria de Pesquisa e Pós-graduação do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). A programação, realizada na manhã desta segunda-feira (17/11), integrou a agenda da Casa da Ciência, iniciativa do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), durante a COP30, com estrutura instalada no Parque Zoobotânico da unidade de pesquisa vinculada ao MCTI, em Belém.
Jean Pierre Henry Balbaud Ometto, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), deu início às reflexões, destacando o papel central do mapeamento de riscos a que os sistemas estão submetidos como parte da escolha de soluções baseadas na natureza. “A gente avançou na criação de uma plataforma para identificar o nível de risco e isso pode ser usado por gestores nas medidas de adaptação”, disse ele, referindo-se à plataforma: adaptabrasil.mcti.gov.br.
Experiências dramáticas vividas por populações do Médio Solimões, durante a seca extrema dos anos de 2023 e 2024, foram reiteradas por Ayan Santos Fleischmann, pesquisador do Instituto Mamirauá. Ele defendeu que as soluções climáticas estejam aliadas, necessariamente, à justiça social, mencionando os esforços e os bons resultados conquistados pelo instituto ao longo de 25 anos junto a ribeirinhos da região. Nesse contexto, a cartilha ilustrada “Navegando pelas mudanças climáticas no Médio Solimões” foi lançada nesta segunda-feira para despertar, sobretudo, o interesse de crianças e adolescentes sobre o tema.
A bióloga Fernanda Wernek, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), argumentou que “as emergências climáticas e a crise da biodiversidade são crises interligadas e, portanto, as soluções têm que ser pensadas de forma interligada, evitando qualquer viés reducionista de só se preocupar com espécies de interesse comercial ou focado em uma única região”.
Arnaldo Carneiro, coordenador do Observatório Regional Amazônico (ORA) da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), destacou a necessidade de se pensar em estratégias específicas para a Amazônia urbanizada e para a Amazônia ribeirinha, especialmente considerando que quase 80% da população amazônica vive nas cidades.
"Há uma necessidade grande de focarmos muito mais nas ações de adaptação, porque o financiamento tem sido direcionado à mitigação" (Marlúcia Martins).
Meteorologista e professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA), Everaldo Souza relatou alguns dos efeitos das altas temperaturas – que têm sido combinadas com clima mais seco e menos ventilado – para a saúde humana, a exemplo da perda da qualidade do sono. Ele espera que, com a COP30, sejam destravados os financiamentos para ações de adaptação.
Objetivos comuns na diversidade – Como mediadora, a ecóloga Marlúcia Martins identificou aspectos em comum na diversidade de perspectivas abordadas na mesa. "Há uma necessidade grande de focarmos muito mais nas ações de adaptação, porque o financiamento tem sido direcionado à mitigação. Adaptação cria as condições de resiliência das sociedades para responder às mudanças climáticas e aos adventos dessas mudanças, além de dar chance ao processo evolutivo aos não-humanos, para também terem respostas mais efetivas e maior chance de sobrevivência”. Isso porque a mitigação, ainda que fundamental, está voltada à redução das emissões de gases de efeito estufa, cuja alta concentração na atmosfera provoca o aquecimento global.
Marlúcia apontou, ainda, a concordância da mesa em relação a financiamento do gerenciamento e do compartilhamento de dados produzidos, para que sirvam tanto aos gestores quanto à sociedade de um modo geral. Ela também destacou o valor da integração de conhecimentos científicos com conhecimentos das populações locais.
Texto: Erika Morhy
Edição: Andréa Batista