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MUSEU GOELDI: TERRA INDÍGENA
MPEG celebra trajetória e prospecta desafios da pesquisa colaborativa com indígenas
Museu Goeldi | COP30 com Ciência – A articulação da ciência com os povos indígenas da Amazônia é uma constante na história de 159 anos do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Essa forte ligação das pesquisas com os conhecimentos tradicionais se amplia cada vez mais na longa trajetória institucional e se acentua a ponto do Museu Goeldi declarar simbolicamente seu Parque Zoobotânico como Terra Indígena. Um panorama dos trabalhos realizados em diferentes áreas do conhecimento foi destaque, nessa quinta-feira (20), na programação especial da COP30, na Estação Chico Mendes, espaço instalado no Campus de Pesquisa do MPEG.
As pesquisas científicas desenvolvidas em diferentes campos possibilitaram, por exemplo, a identificação e a descrição da diversidade biológica da Amazônia, mas também da sua sociodiversidade construída por sociedades com cosmologias, culturas, línguas, saberes, práticas distintas. O resultado desse esforço traz avanços para a ciência, assim como contribui diretamente para a afirmação e a garantia de direitos dos povos indígenas.
De acordo com o antropólogo Márcio Meira, as pesquisas do Museu Goeldi contribuíram para dar subsídio à demarcação de cerca de 6 milhões de hectares de terras indígenas na região. O dado foi apresentado na sessão sobre os projetos consolidados nas regiões do Alto Rio Negro e no Mosaico do Gurupi, onde as ações se dedicam a entender as dinâmicas da conservação dos territórios e também as lutas para a proteção dos conhecimentos locais.
Por meio de depoimento lido aos participantes, a pesquisadora Lúcia Hussak – que não pôde estar presencialmente no evento – destacou a iniciativa que garantiu, em 2010, o registro do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro como patrimônio cultural imaterial brasileiro, um componente essencial para a vida e a sobrevivência de 22 povos do noroeste da Amazônia. Da mesma forma, o trabalho de pesquisa também foi essencial para a demarcação da terra indígena Jurubaxi-Téa, em 2017.
Esses são apenas dois exemplos das atividades em colaboração entre cientistas e comunidades tradicionais, que se estendem também por áreas do nordeste amazônico, onde está a influência do chamado arco do desmatamento. No Mosaico do Gurupi, que guarda os últimos remanescentes de floresta amazônica no estado do Maranhão, o Museu Goeldi atua ativamente não só para investigar a biodiversidade local, mas para construir conhecimentos em parceria com as populações locais.
Nessa região, a pesquisadora Claudia López-Garcés tem realizado experiências junto com os Ka’apor em que busca de compreender as relações destes povos com seus territórios, os conflitos existentes, a luta por soberania alimentar e os diálogos possíveis a partir de coleções etnográficas. O aprendizado que fica pode ser sintetizado pela fala de Waldemar Ka’apor destacado pela pesquisadora: “Vocês precisam de museus, porque vocês não têm território”, lembrou Claudia López, citando a provocação que os indígenas fazem ao refletir sobre o papel das instituições museais.
Já a servidora da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão, Jane Rodrigues, ressaltou a importância da atuação do Museu Goeldi no conselho gestor do Mosaico do Gurupi, fortalecendo uma rede de organizações preocupadas com alternativas aos modelos de atividades econômicas voltadas para o desmatamento e a degradação.
“O Mosaico do Gurupi foi finalmente reconhecido em julho deste ano. Essa é uma luta de muitos anos. Essa categoria de proteção florestal, ambiental e de biodiversidade se vale dos órgãos ambientais, mas devemos tudo isso à ciência e ao Museu Paraense Emílio Goeldi”, declarou Jane.
Novos desafios – A segunda mesa, “Projetos para o Futuro: Vozes e Conexões”, trouxe a arqueóloga Helena Lima, a linguista Ana Vilacy e o zoólogo Wolmar Benjamin, que trataram das iniciativas em outros campos que visam ampliar a participação dos povos indígenas na construção do conhecimento produzido pela instituição. Os projetos fazem parte do programa de pesquisa Terra Indígena, do Museu Goeldi. Arqueologia, linguística e zoologia são algumas das áreas confluídas em prol da documentação dos conhecimentos e das culturas das populações originárias.
No âmbito do projeto “Vozes da Amazônia: processo históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do Antropoceno”, Helena pontua: “Um desafio é pensar como as ciências da natureza e as ciências humanas podem se integrar justamente tendo no conhecimento indígena, que é usualmente integrado, uma ponte. [Além disso] documentar essa biodiversidade dentro da sua relação com os conhecimentos e as práticas culturais dos povos no presente e no passado”.
Atualmente, Helena Lima trabalha no Alto Rio Negro, Amazonas; no Xingu, Mato Grosso; e no Kayapó, Pará. As três regiões têm em comum alta biodiversidade e configurações étnicas, históricas e sociais variadas. Aliado a isso, possuem conhecimentos muito específicos e histórias de longa duração que precisam do olhar atento da ciência e do poder público.
Já o pesquisador Wolmar Benjamim, a partir do projeto “Vozes para o Futuro”, parte do questionamento: quais caminhos o museu pode trilhar para incluir a presença indígena e suas ações e fortalecer redes e colaborações científicas da cultura? “Um dos caminhos é ampliar o conhecimento da biodiversidade e estudar as relações dos povos indígenas com grupos biológicos, compreendendo as relações entre a biodiversidade e as atividades humanas a longo prazo, aproximando e integrando os conhecimentos; além de salvaguardar, divulgar e compartilhar os resultados”.
O zoólogo destaca que os três programas de pós-graduação do Museu Goeldi – em Biodiversidade e Evolução; em Diversidade Sociocultural e em Botânica – são espaços acessíveis para os povos indígenas e mantêm iniciativas em prol da ampliação da produção de conhecimento e da manutenção das culturas indígenas.
Ana Vilacy trouxe a experiência do projeto “Conexões Amazônicas: centros avançados para a documentação, fortalecimento e revitalização de línguas e culturas indígenas na Amazônia”. A iniciativa busca promover a valorização da diversidade sociocultural, por meio da documentação e da revitalização de línguas de 23 povos indígenas, além de desenvolver a capacidade das instituições na Amazônia Legal, criando acervos regionais para salvaguardar os materiais.
“A gente só tem dois acervos de línguas indígenas no Brasil, um que fica no Museu dos Povos Indígenas, no Rio de Janeiro, e o outro aqui, no Museu Paraense Emílio Goeldi. Então, há muita documentação sendo feita por iniciativa individual com vários povos, mas esse material não está sendo armazenado, não está sendo arquivado de forma segura para o futuro” ressalta a linguista, que atua em territórios onde as línguas sobrevivem com poucos falantes.
"É muito triste a gente saber que é indígena, mas não ter a língua materna. Eu me sinto muito orgulhosa, depois de mais de 60 anos, poder aprender a falar a minha língua. O trabalho da Ana Vilacy foi muito importante para nós. Sabíamos que existia a nossa língua materna porque minha mãe e meus tios falavam. Quando ela foi lá ainda tinha 12 falantes. Hoje, nós temos um só. Além disso, temos um jovem que é o nosso sabedor indígena e é através do trabalho dele com a Vilacy que a gente está aprendendo a língua", contou Hosana Puruborá, cacica do povo que vive no estado de Rondônia.
Ciência mais perto do público - A terceira mesa, “Exposições e popularização da ciência” abordou o esforço da instituição na tradução e divulgação científica para a sociedade por meio das exposições mantidas no Parque Zoobotânico. A sessão contou com a participação do coordenador de Museologia do MPEG, Emanoel Fernandes Júnior; da antropóloga indígena Ana Manoela Karipuna; e da produtora cultural do Centro Cultural Vale do Maranhão (CCVM), Deyla Silva.
Essa preocupação em aproximar o público do conhecimento produzido nas diferentes áreas é visível em três das exposições disponíveis atualmente: “Brasil: Terra Indígena”, aberta durante o período da COP30, no Centro de Exposições Eduardo Galvão, com curadoria do Centro Cultural Vale do Maranhão; “Ahetxiê um tesouro da costa amazônica”, presente no Aquário Jacques Huber; e a exposição de longa duração do Museu Goeldi, “Diversidades Amazônicas”.
Emanoel Fernandes Júnior pontua que as exposições são um caminho importante para estabelecer a mediação entre a pesquisa produzida e o grande público, levando em conta que as investigações muitas das vezes ficam restritas aos cientistas, aos seus pares e às instituições de pesquisa. “A exposição é propositalmente para ser uma estratégia de comunicação massiva, de posicionamento político e de comunicação daquilo que a instituição pretende enquanto centro de pesquisa”, afirma.
A antropóloga Manoel Karipuna destacou como o povo Karipuna entra no MPEG e integra as exposições, por meio do trabalho da servidora Suzana Karipuna, sua mãe e técnica da Coleção Etnográfica Curt Nimuendajú. Suzana está na instituição desde a década de 1980. “Ela começou como estagiária quando fazia o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Pará e depois foi incorporada ao quadro de funcionários no início da década de 1990. Então, dentro da instituição, tem uma pessoa que é uma curadora indígena e que vem com todas as técnicas que traz do território, cuidando desses objetos, cuidando desses artefatos que estão dentro desta casa”, ressalta.
O povo Karipuna está presente no Museu, por meio da curadoria de Ana Manoela e de sua mãe, em duas exposições em cartaz no Museu: Diversidades e Ahetxiê. “Nós (indígenas) estamos nesses espaços de museus, da universidade, de locais que se faz ciência no Brasil, uma ciência que é do território. Mas também estamos nos apropriando daquilo que os antropólogos escreveram e escrevem sobre os povos indígenas, que é uma maneira de a gente conhecer também como a nossa história é contada”.
Texto: Henrique Pimenta e Fabrício Queiroz
Edição: Andréa Batista