Notícias
As mulheres da floresta de Ehuana Yanomami ensinam sobre corpo, terra e coletividade
Museu Goeldi | COP30 com Ciência – A forte chuva da tarde desta segunda-feira (17/11), característica da região amazônica, não comprometeu a realização da conversa “As mulheres da floresta de Ehuana Yanomami”, na Planetary Embassy. Ao contrário: o som da chuva sobre as árvores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), aliado ao canto entoado por Ehuana Yanomami, criou um ambiente singular. Dário Kopenawa fez a tradução da fala da mulher indígena para o português, reforçando a relevância do tema e explicando como o conhecimento das mulheres – sobre o corpo, a terra e os ciclos da floresta – orienta práticas e decisões dentro das comunidades. Ao final do encontro, emocionado, o público aplaudiu de pé em agradecimento às lideranças Yanomami.
No espaço montado no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, Ehuana iniciou sua fala destacando o ponto central do encontro: a relação integrada do corpo feminino com a natureza, ressaltando a importância desse princípio para o modo de vida Yanomami. “A mulher (assim como a natureza) tem um papel fundamental refletindo a continuidade da vida, da fertilidade, da resistência à morte que é trazida pelas atividades destrutivas e predatórias”, disse a indígena.
Além de Ehuana e de Dario, o espaço recebeu, pela segunda vez neste período de COP30, o xamã Davi Kopenawa Yanomami, que, desta vez, integrou a plateia de maioria não indígena, interessada em aprender sobre o modo de viver dos povos da floresta. O público ouviu o recado de Ehuana, ensinando que é fundamental a preocupação com a natureza, como fazem as mulheres indígenas. “Protegê-la e fortalecê-la é uma responsabilidade que carregamos”, disse.
O espírito de coletividade das comunidades indígenas também foi apontado como um exemplo para as populações não indígenas. “Embora muitas mulheres ainda não estejam organizadas, estamos nos mobilizando para unir nossas forças, atuar na sociedade e representar a voz feminina nas reuniões e decisões coletivas. Hoje, enfrentamos grandes desafios junto à natureza, como a poluição e o desmatamento, que são nossas maiores preocupações. Não queremos mais beber água poluída por atividades ilegais, nem ver nossas terras destruídas, especialmente na Amazônia. Por isso, estamos nos mobilizando por meio da arte e da atuação das mulheres, para falar publicamente sobre a força da natureza”, disse Ehuana.
Ela disse que as ameaças às terras indígenas preocupam as mulheres, porque geram sofrimentos a elas e a crianças – como acontece em outras sociedades. “A gente sofre com as crianças. Como nós estamos participando COP30, a gente tenta colocar as nossas políticas indígenas, porque é importante a gente colocar as nossas vozes também. É importante manter a nossa floresta viva, sem destruição, sem desmatamento, sem acabar nossas riquezas, nossas culturas, para as nossas crianças crescerem saudável. Sem terra, onde nós vamos viver? Sem floresta, onde nós vamos caçar e pescar? Sem floresta, como a gente pode respirar? Por isso, como mulheres, a gente sempre luta, a gente sempre defende a comunidade”, disse Ehuana.
Denúncia e apelo – Em sua fala, Dário Kopenawa denunciou a exploração de terras, o garimpo ilegal e o desmatamento como os maiores problemas enfrentados pelos Yanomami: “Se não cuidarmos da floresta, enfrentaremos graves consequências no futuro. Sem a proteção da natureza, não teremos ar limpo, nem onde caçar ou onde nossas crianças possam brincar. Por isso, é fundamental que a sociedade não indígena compreenda o papel das lideranças que sempre defendem a floresta, seus rios e suas terras — que são a nossa casa e a nossa comunidade. A água limpa que chega dos rios também beneficia todos vocês, não apenas nós indígenas”, lembrou.
Texto: Gabriela Moura
NO CAMPUS DE PESQUISA
Aliança dos Povos pelo Clima conduz debate sobre a proteção dos povos indígenas
A segunda semana de COP30 no Espaço Chico Mendes e FBB, no Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), começou com debates organizados pela Aliança dos Povos pelo Clima, uma rede de luta ancestral articulada a partir da proposta de envolvimento na defesa das florestas, da Amazônia e da vida, em tempos de colapso climático. Em seu manifesto, a Aliança dos Povos afirma que sua proposta é um chamado para reflorestar aldeias, quilombos, comunidades e cidades. É um chamado para reflorestar o mundo.
Pela manhã, a proteção dos povos indígenas foi o tema condutor do primeiro debate do dia. Entre as organizações presentes estava a Federação Nativa do Rio Madre de Dios e afluentes (Fenamad), representante regional dos povos indígenas da bacia do Rio Madre de Dios. O organismo defendeu os direitos fundamentais e coletivos dos povos indígenas e das comunidades nativas, especialmente, os direitos dos povos indígenas isolados e em primeiro contato.
A Fenamad coordena o Grupo de Trabalho Internacional para a Proteção dos Povos Indígenas em Isolamento e Contato Inicial (GTI-Piaci), uma iniciativa colaborativa que envolve 21 organizações indígenas e aliadas da América do Sul. Elas lutam pelo reconhecimento da existência dos povos indígenas isolados e de recente contato em oito países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Venezuela e Suriname.
Estima-se que, nesses países, haja um total de 189 registros de povos indígenas isolados ou de recente contato. Desses, 128 registros ainda não foram reconhecidos pelos Estados, o que os torna vulneráveis em diferentes aspectos. Além disso, são diversas as ameaças à existência desses povos, como o aumento dos incêndios florestais e o avanço de modelos de desenvolvimento que colocam em risco os seus territórios, como é o caso do modelo agro-extrativo-exportador.
Para essas organizações, o reconhecimento da existência desses povos é o primeiro passo para garantir seus direitos fundamentais, a sua autodeterminação e a proteção de seus territórios. Ou seja, a garantia plena dos seus direitos de existir.
Tecnologias Sociais – Outra pauta debatida na manhã desta segunda-feira foi ‘Cooperativismo e Tecnologias Sociais como solução de fortalecimento das comunidades’. Na mesa, representantes de projetos de tecnologias sociais e de cooperativas que tiveram apoio e financiamento da Fundação Banco do Brasil contaram um pouco das suas experiências, avanços e desafios, inclusive, frente às mudanças climáticas.
Um dos projetos apresentados foi o Consórcio Socioambiental de Resíduos Sólidos no Estado da Bahia, uma parceria entre a Unisol Bahia, central de cooperativas e empreendimentos solidários, e a FBB, que busca capacitar catadores e catadoras de materiais recicláveis e trazer melhorias da capacidade de gestão dos empreendimentos e da infraestrutura para o processamento e o beneficiamento de resíduos sólidos. Anne Sena, presidente da Unisol destacou a importância desse trabalho e como as mulheres negras estão à frente de muitas iniciativas de economia solidária como esta.
“É importante entender que a Unisol não atua somente com a agricultura familiar, mas consegue englobar uma diversidade de organização da atividade produtiva. Essa diversidade se baseia na autogestão, na produção coletiva e, sobretudo, na organização de muitas mulheres. Nós, da economia solidária, temos o orgulho de dizer que as mulheres representam cerca de 70% da organização desse movimento. Muitas dessas são mulheres pretas que não só veem esse trabalho como parte da sua própria existência, mas também como um modelo de desenvolvimento sustentável e local."
No âmbito das discussões sobre tecnologias sociais, o Museu Goeldi também possui projetos, como o Observatório de Tecnologia Social, que é uma iniciativa do MPEG voltada ao estudo e à difusão de tecnologias sociais, coordenado pela pesquisadora Regina Oliveira da Silva, com a colaboração de bolsistas de diferentes áreas do conhecimento. Com o apoio e parceria da Fundação Banco do Brasil, o MPEG possui sete experiências de Tecnologia Social: Clube do Pesquisador Mirim, Dicionários Multimídia para Línguas Indígenas, Museu de Portas Abertas, Olimpíadas de Ciências da Floresta de Caxiuanã, Ponto de Memória da Terra Firme, Replicando o Passado e Restaurando a Mata.
Texto: Denise Salomão
O protagonismo de jovens e mulheres na luta por financiamento climático justo
A programação da tarde abriu com a mesa “Jovens e mulheres no protagonismo das ações climáticas”. Membros da Aliança dos Povos pelo Clima discutiram a importância desses grupos serem responsáveis pela renovação e pela diversidade dos novos movimentos sociais e ações climáticas. A inspiração vinda dos mais velhos, como os integrantes da Aliança dos Povos da Floresta, nos anos 1980, é uma força de continuação para as lutas e para a ampliação dos horizontes de mudanças.
As falas foram mediadas por Angélica Mendes, ativista socioambiental e neta de Chico Mendes, e composta por Xulu Waurá, jovem ativista indígena do povo Waurá; Sara Lima, jornalista e beradeira; e Sílvia Rocha, quilombola e coordenadora de Mulheres na Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná (ARQMO).
Na segunda mesa, “A gente cobra - Povos da Floresta na luta por financiamento climático justo”, juntaram-se ao grupo Joelmir Silva, beiradeiro da Comunidade Maribel, localizada na Terra Indígena Cachoeira Seca, no Pará; e Val Munduruku, presidente da Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós. A mediação foi de Raquel Rosenberg, ativista ambiental.
O debate foi sobre a campanha “A gente cobra”, criada pela Aliança dos Povos pelo Clima como a proposta de pautar a urgência de garantia de financiamento climático direto e justo para os povos protetores das florestas. A trajetória da campanha, como foi fundada, as suas vozes e suas lutas foram destaques durante o painel. Complementaram a discussão reflexões sobre o porquê é fundamental que os recursos cheguem diretamente aos territórios que mais sofrem as consequências da crise climática e os desafios que ainda impedem o financiamento climático de chegar de forma equitativa a quem faz parte da linha de frente da preservação.
Texto: Henrique Pimenta
Edição: Andréa Batista
CONFIRA AS PROGRAMAÇÕES DO MUSEU GOELDI NA COP30
As atividades citadas nesta matéria fazem parte de uma programação geral no contexto da COP30, com mais de 200 eventos, que está sendo realizada nas duas bases do Museu Goeldi (Parque Zoobotânico e Campus de Pesquisa), desde o último dia 7. Acesse as agendas dos quatro espaços montados no MPEG:
-
NO PARQUE – Casa da Ciência – Endereço: Av. Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém (PA).
-
NO PARQUE – Estação Amazônia Sempre – Endereço: Av. Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém (PA).
-
NO PARQUE – Presença Suíça/Planetary Embassy/Road to Belém : Chalé João Batista de Sá - Parque Zoobotânico Museu Paraense Emílio Goeldi, Av. Gov Magalhães Barata, 376 - São Braz, Belém-PA.
-
NO CAMPUS – Espaço Chico Mendes – Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi – Av. Perimetral, 1901 - Terra Firme, Belém (PA).