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CIÊNCIA E ACOLHIMENTO
Heruza Einsfeld Zogbi: o olhar sensível e científico da Infectologia no SAE
Rio Grande (RS) – O SAE Infectologia do HU-Furg/Ebserh carrega, ao longo de seus 35 anos, histórias que misturam ciência, coragem e humanidade. É um espaço que formou gerações de profissionais e acolheu milhares de pacientes, acompanhando as transformações na forma de cuidar, tratar e compreender as doenças infecciosas. Entre os rostos que marcaram essa trajetória está o da médica Heruza Einsfeld Zogbi. Hoje, como infectologista, ela revisita memórias, reflete sobre as mudanças nos perfis epidemiológicos e reforça a importância do cuidado humanizado, marca registrada do Serviço. Heruza compartilha:
Como foi seu primeiro contato com o SAE Infectologia?
“Entrei na faculdade de Medicina em 2004 e, desde o início, tinha curiosidade pelas doenças infectoparasitárias. Durante o curso, cheguei a me interessar por outras áreas, mas tudo mudou quando iniciei o estágio na Unidade de Doenças Infectoparasitárias, no quarto ano. Foi ali que a paixão pela Infectologia se consolidou. Naquele período, o SAE já era bastante estruturado, com profissionais muito qualificados. Lembro da Dra. Jussara, que foi e continua sendo uma grande referência. Ela era exigente e extremamente comprometida, o que nos fazia estudar, buscar conhecimento e compreender profundamente os casos. Discutir um paciente com ela era sempre um aprendizado. Foi nesse ambiente de cuidado e de estudo que tive certeza de que queria seguir a Infectologia.”
Então foi no SAE que você consolidou sua escolha profissional?
“Sim. Posso dizer que aprendi a ser médica no SAE. Durante o estágio, compreendi o verdadeiro sentido da Medicina: o cuidado com o paciente, o olhar humano e a empatia. O Serviço sempre teve como prioridade o paciente, e isso me marcou profundamente. Quando o aprendizado técnico se alia ao compromisso com o cuidado, o trabalho ganha outro significado. O SAE me mostrou que é possível unir excelência científica e acolhimento, e isso me guiou desde então.”
O SAE passou por muitas mudanças, quais mais chamaram sua atenção?
“Muitas mudanças ocorreram. Quando eu era estudante, o Serviço era conhecido como Hospital-Dia, voltado principalmente ao atendimento de pessoas vivendo com HIV. Com o tempo, o perfil se ampliou, e o Serviço passou a abranger o cuidado a pacientes com diversas doenças infecciosas: virais, bacterianas e fúngicas. Essa ampliação foi essencial. Ela permitiu não somente o aprimoramento técnico, mas também a superação de estigmas. No passado, o HIV era fortemente associado à exclusão social. Hoje, o atendimento é mais abrangente e isso contribui para combater o preconceito. O SAE passou a representar um espaço de cuidado e acolhimento a todas as pessoas com doenças infecciosas, sem distinção.”
Como foi retornar anos depois, já como médica infectologista do mesmo Serviço em que fez estágio?
“Foi uma experiência muito significativa. Após concluir a graduação, fiz residência fora do Rio Grande e permaneci cerca de oito anos distante. Quando retornei, em 2017, como infectologista, senti grande alegria ao reencontrar o Serviço fortalecido, com estrutura ampliada e uma equipe ainda mais consolidada. O mais bonito é que o espírito do SAE permanece o mesmo: comprometimento, união e dedicação. Sempre existiu um sentimento coletivo de pertencimento e responsabilidade. A liderança do Serviço criou raízes fortes de comprometimento e humanização, inicialmente com a Dra. Jussara e seguindo a mesma trajetória a Dra. Rossana que sempre está na busca por melhorias e na construção de uma cultura de excelência. Fazer parte dessa história é motivo de orgulho.”
O SAE é reconhecido pelo acolhimento aos pacientes. O que torna esse cuidado tão característico?
“Ser paciente é sempre um momento de vulnerabilidade. No caso das doenças infecciosas, isso é ainda mais evidente. Por isso, o cuidado começa desde o primeiro contato, na recepção. E o que torna o SAE Infectologia especial é que todos os profissionais, da recepção à equipe médica, compartilham esse mesmo compromisso com o acolhimento. O paciente se sente visto, ouvido e respeitado. Isso tem um impacto profundo no tratamento. O cuidado humanizado não é um detalhe, é parte essencial do processo terapêutico. A escuta atenta e a empatia são, muitas vezes, tão importantes quanto o medicamento.”
Há pacientes ou colegas que tenham marcado sua trajetória ao longo desses anos?
“Muitos colegas e pacientes deixaram marcas importantes. As doutoras Jussara e Rossana são grandes inspirações, pela dedicação, pela liderança e pela capacidade de manter o Serviço vivo e atuante. Quanto aos pacientes, cada um traz uma história que nos ensina. Acompanhar as trajetórias, as dificuldades e as conquistas de quem enfrenta doenças complexas é sempre transformador. Lembro de um paciente jovem, com pouco mais de 30 anos, que chegou ao Serviço recém-diagnosticado com HIV. Ele recebeu a notícia com serenidade e iniciou o tratamento de forma exemplar, muito comprometido e participativo em todas as etapas. Conversávamos bastante sobre o processo, e ele demonstrava uma vontade genuína de compreender a doença e cuidar de si. Poucos meses depois, porém, foi diagnosticado com um linfoma agressivo, uma complicação que pode ocorrer em alguns casos. A partir dali, iniciamos um acompanhamento intenso, envolvendo várias especialidades. Foram dias e noites de esforço coletivo, em que toda a equipe se mobilizou para oferecer o melhor tratamento possível. Ele manteve a esperança até o fim, sempre gentil e confiante, mesmo nos momentos mais difíceis. Infelizmente, a doença evoluiu de forma rápida e ele não resistiu. Essas experiências nos marcam profundamente. Não apenas pela perda, mas pelo quanto aprendemos sobre coragem, resiliência e humanidade. Cada paciente que passa por nós deixa um legado. Esse caso, em especial, me fez refletir sobre o valor de estar presente, de oferecer escuta e conforto mesmo quando não há mais possibilidade de cura. O cuidado, em muitas situações, é isso: estar junto até o fim.”
Como lidar com o estigma que ainda existe em torno do HIV?
“O estigma ainda é um desafio real. Apesar dos avanços, muitas pessoas ainda associam o HIV a preconceitos antigos, e isso afasta o diagnóstico precoce, que é justamente o que salva vidas. No SAE, procuramos trabalhar com os pacientes e com a comunidade para reforçar que o HIV é uma condição crônica tratável e que o diagnóstico não define a pessoa. O tratamento é eficaz e garante qualidade de vida. Além disso, o Serviço ampliou sua atuação e hoje atende uma gama muito maior de doenças infecciosas, como tuberculose, infecções fúngicas e bacterianas complexas. Essa diversificação reforça o papel do SAE como referência regional, mas o enfrentamento ao estigma em torno do HIV ainda é um compromisso central do nosso trabalho.”
Como manter o cuidado humanizado diante de tantos avanços tecnológicos e científicos?
“O avanço da ciência e da tecnologia é fundamental, mas ele precisa caminhar com o olhar humano. A Infectologia lida com pacientes em situações delicadas, e o vínculo de confiança é indispensável. A tecnologia auxilia o diagnóstico e o tratamento, mas o que dá sentido à prática médica é a empatia. Enxergar o paciente em sua totalidade — com sua história, seus medos e suas vulnerabilidades — é o que diferencia o cuidado verdadeiramente humanizado. A Medicina contemporânea enfrenta muitos desafios, e o que mantém o profissional motivado é justamente perceber o impacto positivo que o seu trabalho tem na vida do outro. Essa é a essência da nossa atuação. Também, trabalhar no SAE é um privilégio. A equipe é formada por profissionais comprometidos, que compartilham valores comuns e se apoiam mutuamente. Aqui, o diálogo é constante, e as diferenças são tratadas com respeito. As discussões de caso são sempre construtivas e voltadas para o melhor interesse do paciente. A integração entre as áreas faz toda a diferença. É um ambiente de aprendizado contínuo, em que todos contribuem com seu olhar. E essa harmonia se reflete no cuidado oferecido à população.”
Que mensagem você deixaria aos estudantes e jovens profissionais que desejam seguir a Infectologia?
“A principal mensagem é que a escolha da especialidade deve vir do coração. A Infectologia é uma área fascinante, mas exige curiosidade, dedicação e desejo genuíno de aprender continuamente. É uma especialidade dinâmica, que desafia o raciocínio clínico e exige atualização constante. A cada dia surge algo novo: um agente infeccioso, uma resistência bacteriana, um novo protocolo... Isso faz com que o aprendizado nunca termine. Mas o mais importante é o vínculo humano. A Infectologia ensina a olhar o paciente de forma integral e a compreender a importância da escuta. É uma especialidade que forma não somente médicos, mas pessoas mais sensíveis e conscientes do valor da vida.”
Sobre a Ebserh
O HU-Furg faz parte da Rede Ebserh desde julho de 2015. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Andreia Pires
Apoio de Leonardo Andrada de Mello/UCR15 e Alan Bastos/UAO5
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh