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RELATOS DE QUEM CUIDA
"Eu costumo dizer que os pacientes sempre foram os meus grandes professores"
Meu nome é Tiago Maas. Sou médico de Família e Comunidade, Paliativista, e atuo no Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), desde o final de 2015, completando agora dez anos de instituição. Minha trajetória no hospital é uma história de descobertas e aprendizado. Entrei jovem, com poucos anos de formado, muito habituado à Atenção Primária à Saúde, e, de repente, me vi diante do desafio de trabalhar no Serviço de Atenção Domiciliar, cuidando de casos complexos: muitos pacientes em cuidados paliativos, pessoas com doenças oncológicas avançadas, condições clínicas desafiadoras, sofrimentos, dores e angústias que eu ainda não conhecia de perto.
Foi nesse contexto que a vida me apresentou a Maria Antônia, em 2018, então uma menina de quase oito anos, com malformações faciais complexas. Ela já havia passado por diversas cirurgias, usava traqueostomia e se alimentava por sonda. Chegou até nós com infecções recorrentes que exigiam internações frequentes. Nossa equipe assumiu o cuidado e, a partir dali, começaram anos intensos, não apenas com ela, mas com tantos outros pacientes, que exigiram que eu me redescobrisse profissionalmente. Precisei continuar estudando, ampliar competências, especialmente em cuidados paliativos, e aprender a olhar cada pessoa para além do diagnóstico.
Eu costumo dizer que os pacientes sempre foram meus grandes professores. E a Maria Antônia foi uma delas. Com ela, aprendi a olhar integralmente, a sorrir, a ser resiliente e criativo. Aprendi sobre buscar caminhos possíveis quando os caminhos tradicionais parecem se esgotar, e sobre a força do trabalho em equipe. Aprendi a enxergar a vida que pulsa mesmo nos contextos mais difíceis e a cuidar para que essa vida fosse vivida com dignidade, conforto e afeto, o mais perto possível do lar.
Hoje, sete anos depois, participar da festa de 15 anos da Maria Antônia é um presente imenso. Sinto alegria e gratidão por ter acompanhado essa trajetória e por, de algum modo, ter contribuído para que ela chegasse até aqui. Tenho convicção de que não foi por mim, mas pela dedicação de muita gente — pela força do Serviço de Atenção Domiciliar e de tantas pessoas que caminharam junto — que a Maria Antônia pôde viver mais perto de casa, longe das hospitalizações intermináveis que tantas vezes pareciam inevitáveis.
Quando olho para trás, vejo que cresci como médico e como pessoa. A Maria Antônia me ensinou a sustentar um cuidado humano, integral e possível, mesmo diante de uma situação complexa. Ela é uma menina que precisa de cuidados paliativos, não porque está próxima da morte, mas pelo contrário: há muita vida nela! Vida que precisa ser cuidada e protegida. E é por isso que celebrar seus 15 anos não é apenas uma festa de aniversário: é a celebração do cuidado que dá certo quando é feito em equipe, com ciência, sensibilidade e compromisso com a vida.
Tiago Maas, chefe da Unidade de Atenção Domiciliar e dos Cuidados Paliativos do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), em seu relato por ocasião da celebração dos 15 anos da paciente Maria Antônia, realizada na segunda-feira, 27 de outubro de 2025.
Rede Ebserh
O HE-UFPel faz parte da Rede Ebserh desde outubro de 2014. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo em que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Edição: Marília Rêgo
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh