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Pequenos passos, grandes conquistas: Ebserh avança no cuidado ao pé torto congênito via SUS
Com diagnóstico precoce e apoio de especialistas, crianças com pé torto congênito têm mais chances de alcançar uma vida sem limitações
Brasília (DF) – O pé torto congênito, também conhecido como pé equinovaro congênito (PEVC), é uma má-formação que afeta ossos, músculos, tendões e ligamentos do pé, fazendo com que o membro se curve para baixo e para dentro. O PEVC ocorre ainda na vida intrauterina e em 50% dos casos afeta ambos os pés, sendo mais comum em meninos. Em junho, por ocasião do Dia Mundial de Conscientização do Pé Torto Congênito (3), a Rede Ebserh, reforça a importância do diagnóstico, tratamento e reabilitação, serviços que seus hospitais oferecem pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Se houver detecção precoce e apoio de especialistas, crianças que nascem com o pé torto têm mais chances de alcançar uma vida sem limitações. A condição pode ser identificada durante a gestação por meio da ultrassonografia obstétrica morfológica, geralmente realizada a partir da 20ª semana, segundo explica o ortopedista pediátrico do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM-UFSM), Vanderson Roso. Nesses casos, o exame mostra uma posição anormal do pé em flexão plantar, rotação interna e inversão. A confirmação do diagnóstico, no entanto, é clínica e só ocorre após o nascimento.
“Durante a gravidez, a intervenção corretiva intrauterina não é recomendada. Contudo, o diagnóstico precoce permite planejamento multidisciplinar do parto, orientação dos pais e encaminhamento antecipado para acompanhamento especializado logo após o nascimento”, afirmou Vanerson.
Tratamento
Os tratamentos atuais disponíveis são realizados após o nascimento. Segundo explica o ortopedista do Serviço Especial de Ortopedia e Traumatologia da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da UFMG (HC-UFMG/Ebserh), Davi Coutinho, na maioria das vezes, a intervenção começa já nas primeiras semanas de vida do bebê, embora também seja possível tratar crianças mais velhas.
O padrão-ouro internacional para o cuidado é o Método Ponseti. É um tratamento de baixo custo e resultados duradouros que busca corrigir as deformidades e permitir que o pé atinja uma posição funcional, ou seja, um pé plantígrado — aquele que se apoia totalmente no chão. Essa intervenção não-cirúrgica consiste em manipulações suaves e gessos que são trocados periodicamente, tenotomia - pequeno corte no tendão de Aquiles - e o uso de uma órtese. O HC-UFMG foi pioneiro em Minas Gerais no uso técnica, em 2005.
“Esse tratamento, quando bem-sucedido, pode dar função e qualidade de vida normais no curto e no longo prazo”, explicou Davi Coutinho. “O maior desafio é a adesão da família ao uso da órtese, o qual idealmente deve ir até os 4 anos de idade e é indispensável para o sucesso do tratamento. No nosso meio, temos o desafio adicional da dificuldade para obtenção da órtese por grande parte dos nossos pacientes”, disse.
Qualidade de vida
Com o tratamento e reabilitação adequados, é possível ter qualidade de vida. Em muitos casos, após a correção e a fase de manutenção com órteses, a pessoa pode caminhar, correr e realizar atividades físicas normalmente, sem dor ou limitações significativas. O acompanhamento contínuo de profissionais especializados é fundamental para manter bons resultados a longo prazo e evitar recidiva, que está relacionada ao não uso das órteses e ao início do tratamento em fase tardia.
“Imediatamente após o parto, sendo feito o diagnóstico, devemos iniciar as intervenções; já que a deformidade, se não tratada, pode ser, além de funcional, estética, com a incapacidade de uso de sapatos e impacto principalmente na fase adulta, quando não existe mais correção”, afirmou Jefferson Martins, ortopedista da Unidade de Traumato-Ortopedia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG/Ebserh). O serviço atende pacientes com essa patologia e fornece atendimento adequado no âmbito do SUS.
Os avanços recentes têm se concentrado no aprimoramento do acompanhamento e na personalização do cuidado. Ferramentas digitais, como aplicativos e sistemas de lembrete, têm sido utilizadas para auxiliar os pais no uso correto das órteses, enquanto a telemedicina permite o monitoramento remoto por especialistas, especialmente em regiões com acesso limitado a centros especializados. Além disso, terapias complementares como fisioterapia especializada e estimulação precoce têm contribuído para o desenvolvimento motor global.
Políticas públicas
Desde novembro, o Ministério da Saúde tem levantado discussões sobre a assistência a essa população por meio da Câmara Técnica Assessora sobre o Pé Torto Congênito – CTA/PTC. A ideia é oferecer subsídios ao aperfeiçoamento, integração e qualificação do cuidado às pessoas com Pé Torto Congênito no Sistema Único de Saúde - SUS, em consonância com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa com Deficiência. A CTA/PTC terá duração de um ano e suas análises e recomendações influenciarão diretamente políticas, protocolos e ações do governo direcionados a essa população.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Redação: Luna Normand com edição de Danielle Campos