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MEDICAMENTO SEGURO
Remédio na dose certa: diminuindo os riscos da automedicação e da dependência
O uso prolongado, a automedicação e a falta de acompanhamento adequado podem transformar o remédio em risco — e os hospitais da Rede Ebserh mostram como enfrentar esse desafio com responsabilidade e cuidado.
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Brasília (DF) – A cada edição desta série de reportagens especiais sobre o Uso Racional de Medicamentos, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) busca conscientizar sobre práticas seguras no consumo e prescrição de remédios. Especialistas explicam como promover o uso adequado de medicamentos, reforçando o compromisso dos hospitais universitários com a segurança do paciente e a melhoria da assistência em saúde.
Neste último episódio, o foco está na dependência medicamentosa: um problema silencioso, mas com impacto profundo na saúde individual e coletiva. O uso prolongado, a automedicação e a falta de acompanhamento adequado podem transformar o remédio em risco — e os hospitais da Rede Ebserh mostram como enfrentar esse desafio com responsabilidade e cuidado.
Quando o alívio se torna armadilha: o perigo do uso prolongado e sem supervisão
No cotidiano da Neurologia, alguns medicamentos são essenciais, mas também exigem vigilância constante. "Os sedativos, como os benzodiazepínicos, e os chamados hipnóticos z, têm indicação clara, mas precisam de acompanhamento rigoroso. O uso prolongado ou abusivo pode levar à dependência e a uma série de complicações", explica Samir Magalhães, chefe da Unidade do Sistema Neurológico do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC-UFC).
Segundo ele, são comuns os relatos de pacientes que aumentam as doses por conta própria, mantêm o uso sem supervisão ou sofrem efeitos adversos relevantes. Ele destaca que esses comportamentos ocorrem especialmente durante episódios de sonambulismo induzido por substâncias. "Tem casos em que a pessoa realiza ações complexas durante o sono, sem controle consciente, e muitas vezes não se lembra de nada depois. Isso pode ser extremamente danoso, tanto para o paciente quanto para quem convive com ele", alerta Samir.
A médica da dor do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), Mariana Neves, destaca que a automedicação é mais comum quando não há assistência especializada. "A dor crônica, por exemplo, é uma doença neurológica de difícil tratamento. Mesmo com muitas opções terapêuticas, não há cura, e muitos pacientes recorrem ao uso excessivo de analgésicos sem orientação, o que aumenta o risco de dependência e de efeitos colaterais graves".
Segundo Mariana, o desmame de medicações, especialmente em casos de dor crônica, deve ser lento, gradual e acompanhado de um tratamento multidisciplinar. "Só é possível fazer a retirada ou melhor manejo dessas medicações quando a dor está sendo adequadamente tratada, com o envolvimento de diferentes especialidades", afirma.
No HU-UFJF, a abordagem da dor vai além da prescrição. "Oferecemos atendimento clínico e tratamento intervencionista, como infiltrações e bloqueios. O trabalho é integrado com fisioterapia, nutrição, psicologia e serviço social. Cada paciente é acompanhado conforme sua necessidade específica", completa.
A atuação farmacêutica: como protocolos ajudam a prevenir excessos
O olhar do farmacêutico é essencial para prevenir que tratamentos se prolonguem além do necessário. "Quando os riscos superam os benefícios, o farmacêutico clínico deve sinalizar. Isso pode acontecer em casos de ausência de resposta terapêutica, efeitos adversos frequentes ou indícios de uso indevido", afirma João Paulo Ferreira, chefe da Unidade de Farmácia Clínica e Dispensação Farmacêutica do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Tocantins (HDT-UFT).
Esse acompanhamento passa por entrevistas clínicas, avaliação de sintomas, revisão da farmacoterapia e exames laboratoriais. "Nosso objetivo é garantir a segurança, identificar padrões de uso problemáticos, orientar a equipe médica e sugerir ajustes", complementa.
Juliano Pereira, chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do HDT-UFT, explica que a instituição implantou protocolos, fluxos e diretrizes que ajudam a evitar a manutenção desnecessária de medicamentos. "Temos um protocolo de segurança na prescrição e uso, POPs de atenção farmacêutica e estamos consolidando a atuação da farmácia clínica no hospital. Tudo isso contribui para um uso mais seguro e eficaz".
No HDT, a farmácia hospitalar atua diretamente na elaboração de políticas e na formação de equipes, aliando tecnologia, educação e práticas clínicas para promover o uso racional. “Investir em práticas farmacêuticas bem estruturadas é fundamental para a qualidade da assistência e sustentabilidade dos serviços de saúde”, afirma Juliano.
Do efeito ao impacto: consequências físicas, cognitivas e comportamentais
As sequelas do uso inadequado nem sempre são imediatas. "Em longo prazo, o uso abusivo dessas medicações pode comprometer a memória, a atenção, e aumentar o risco de demência", alerta Samir.
No HUWC, esse acompanhamento é constante. "Trabalhamos com protocolos, supervisão médica e seguimento ambulatorial regular. A ideia é construir um plano terapêutico claro com o paciente e, se necessário, propor o desmame com apoio multiprofissional. É um processo que exige paciência, escuta e responsabilidade", explica o neurologista.
Uma trajetória de dor, persistência e conquista
A administradora de empresas Gisele Almeida Fonseca começou o tratamento de dor no HU-UFJF há aproximadamente sete anos. Com uma lesão na vértebra L2, sentia dores intensas na lombar, quadril e glúteos. "Era uma dor de difícil controle, nada adiantava, nem aliviava. Eu tinha perdido minha qualidade de vida", resume.
Sob acompanhamento da médica da dor Mariana Neves, passou a receber bloqueios e a realizar fisioterapia com diferentes técnicas. Na época, também utilizava diversos medicamentos, como duloxetina, gabapentina, morfina e baclofeno. "Mesmo assim, a dor ainda era forte", lembra. Com o tempo, as abordagens começaram a surtir efeito. "Hoje, tomo apenas baclofeno e dipirona. E, agora que estou grávida, estou só com paracetamol. Sinto dor, sim, mas consigo conviver com ela e ter qualidade de vida."
Gisele afirma que o mais importante foi não desistir. "A dor crônica é incapacitante. Eu não conseguia ficar sentada, nem deitada, não conseguia fazer nada. Precisa ter paciência, porque não é toda aplicação que vai melhorar a dor. Não é receita de bolo. Você tem que confiar no médico, na equipe, e dar tempo ao tempo."
Segundo ela, foi a persistência que fez diferença. "Você não pode querer entrar no consultório, fazer uma aplicação e sair de lá bem. É um processo longo. Já são mais de sete anos de tratamento. Hoje, sinto dor, mas é uma dor com a qual eu consigo conviver", diz, aliviada.
A dependência medicamentosa é, portanto, um desafio que exige atenção, escuta e acolhimento. Com protocolos, educação e acompanhamento, os hospitais da Rede Ebserh mostram que é possível promover um cuidado mais racional, seguro e humano. Esta série termina, mas o compromisso continua. Que cada paciente, profissional e instituição siga contribuindo para um futuro em que o remédio cure — e não cause mais dor.
Confira as reportagens anteriores da Série Medicamento Seguro, da Ebserh:
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Felipe Monteiro, com edição de Danielle Campos
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh