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Encontro de Tecnologia e Inovação de junho explorou cenários possíveis para o futuro da IA
O rápido desenvolvimento da Inteligência Artificial nos últimos anos, e a sua adoção em inúmeras esferas da vida cotidiana, tem gerado incertezas, ansiedades e altas expectativas em relação ao futuro da tecnologia e da própria humanidade. Em meio ao turbilhão de notícias, reflexões e previsões utópicas e apocalípticas, o cientista de dados Giovanni Moura de Holanda ofereceu um panorama histórico da IA e explorou possíveis cenários para o seu futuro no 12o Encontro de Tecnologia e Inovação do Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer. O evento, que teve como tema “Inteligência artificial geral: impactos atuais e futuros”, aconteceu na quarta, dia 17, no Auditório da instituição, e contou ainda com palestra da servidora Angela Maria Alves sobre a recém-lançada portaria do CNPq que normatiza o uso da IA na pesquisa científica.
Pesquisador-líder na FITec Labs, instituto privado de ciência e tecnologia que atua no desenvolvimento de produtos e soluções para clientes e parceiros, Giovanni lançou este ano, pela editora Pontes, o seu livro mais recente – texto que serviu de base para a palestra no CTI: “O labirinto da Superinteligência”. Na publicação, o pesquisador reflete sobre o conceito de Inteligência Artificial Geral (ou AGI, na sigla em inglês) – uma “Super-IA” que seria capaz de aprender sozinha, conectando diferentes áreas do conhecimento por meio de pensamento abstrato, sem precisar de treinamento.
Na atualidade, a AGI é apenas uma hipótese, e não há consenso entre especialistas sobre a viabilidade de tal tecnologia. As big techs – as empresas de tecnologia com os maiores recursos –, entretanto, estão disputando corrida para conseguir desenvolver a Superinteligência, investindo maciçamente no avanço da IA, com consequências já visíveis no presente.
Giovanni situa essa corrida numa longa história de desejos ancestrais e encantamento pela tecnologia, com a figura do labirinto servindo de metáfora para essa “busca insana”, nas suas palavras. O palestrante traçou uma linha do tempo do desenvolvimento da Inteligência Artificial, do fim dos anos 1940 aos dias de hoje, passando por marcos como as teorias de Claude Shannon e Norbert Wiener, os testes de Turing e Wozniak e os diversos programas precursores da IA, como Eliza, o campeão de xadrez Deep Blue, as assistentes virtuais Siri e Alexa e a chatbot Tay, da Microsoft – que, em 16 horas de presença no Twitter, aprendeu a postar conteúdo racista e negar a existência do Holocausto.
A chegada da IA generativa ao grande público nos anos 2020, na forma de Large Language Models (LLMs) como chatGPT, Deepseek e Claude, colocou no centro do debate questões éticas relacionadas a vigilância, privacidade, impacto ambiental, agência e responsabilização, o futuro do trabalho, direitos autorais e diversas outras esferas afetadas pelo uso massivo da Inteligência Artificial.
“A gente fica muito encantado com a tecnologia e acaba perdendo o senso crítico de discernir aspectos positivos e negativos. Esses efeitos também são ambíguos: a gente às vezes avalia um efeito negativo como positivo, e vice-versa”, pondera o autor.
Impactos reais e a distopia imaginada
Giovanni classifica os impactos da IA como multidimensionais (com efeitos sociais, econômicos, políticos, científicos e humanos) e multissetoriais (afetando áreas como saúde, energia, agricultura, governo, indústria e transportes, entre outros).
Mais preocupantes, na sua visão, são os efeitos de longo prazo sobre a cognição humana e sobre a educação; o grande risco é que o uso cotidiano de LLMs gere uma dependência que leve a uma atrofia da capacidade de pensamento e de compreensão dos usuários – sistemas subjetivos que levaram milênios para serem construídos rapidamente se deteriorando em uma escala global.
À crise na cognição se somaria uma crise de criatividade, entendida como a capacidade de criar o novo; se entendemos a IA generativa como uma máquina de recombinação que apenas regurgita o conhecimento acumulado da humanidade, ela é incapaz de produzir ideias verdadeiramente inéditas, e seu uso a longo prazo levaria a uma estagnação da imaginação. Giovanni já observa esses efeitos, por exemplo, no incipiente cinema feito com imagens geradas por IA: quando a equipe criativa – diretores de fotografia e de arte, atores, figurinistas, maquiadores – é substituída por interpretações maquínicas de prompts escritos, a arte coletiva, processual e sujeita ao acaso que é fazer um filme transforma-se na arte de escrever prompts para um programa de computador.
A repetição do já conhecido não é um problema apenas na esfera da arte: a inteligência artificial tem uma comprovada tendência a reproduzir os vieses da sociedade, introjetando preconceitos e contribuindo para a manutenção de desigualdades históricas. Quando isso é somado à vigilância constante a que são submetidos, em maior ou menor grau, todos que interagem com a tecnologia, o que emerge é a imagem distópica de um futuro em que a IA ganha cada vez mais espaço e autonomia na mediação entre o indivíduo e a sua participação na vida em coletividade. “Delegar à IA decisões com impacto humano tão grande é um problema que precisa ser muito bem pensado”, afirma o pesquisador.
A distopia de uma superinteligência que conhece todos os pensamentos e desejos mais íntimos de cada pessoa, toda a sua história de vida e todos os seus dados, e que detém o poder de decidir sobre cada aspecto da sua vida, entretanto, é, para Giovanni, fruto de uma visão antropocêntrica da IA. Supondo a emergência futura da AGI, não podemos saber o que essas hipotéticas máquinas farão com a sua nova consciência, como elas utilizarão os seus poderes. Não sabemos, em outras palavras, o que as máquinas “querem”; talvez sejamos incapazes de entender a inteligência a partir de critérios não-humanos, incapazes de conceber uma inteligência verdadeiramente maquínica.
O fio de Ariadne
Se a AGI vai existir ou não, o fato é que a própria corrida em direção ao seu desenvolvimento traz muitas dúvidas e grandes preocupações. A infraestrutura que faz as tecnologias de IA funcionarem – os enormes data centers sendo construídos ao redor do globo – necessitam de muita energia para funcionar e de muita água para manter uma temperatura adequada, provocando impactos ambientais insustentáveis se o ritmo atual de construção e funcionamento for mantido. Entretanto, pondera Giovanni, já estão sendo estudadas soluções de resfriamento e de geração de energia que reduziriam significativamente o impacto ambiental dos centros de dados, o que pode significar uma grande mudança no cenário da IA nos próximos anos. “Pensar nesse assunto é navegar num mar de incertezas”, reflete o professor.
Entre o “neoludismo” dos que rejeitam completamente a inteligência artificial e as tentativas de legislar os seus usos e limitar os poderes das empresas de tecnologia, o futuro da IA é dificílimo de prever. Para Giovanni, a lei caminha mais lentamente que a tecnologia, que, por sua vez, é modelada pelo seu uso, para além dos desígnios dos seus desenvolvedores. Refletindo sobre o PL 2338/2023, que institui o Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil e que se encontra atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados, o pesquisador afirma que o projeto pode acabar penalizando startups e empresas menores, incapazes de lidar com os custos para adaptar-se à legislação e arcar com os riscos de multas pesadas, o que teria o efeito de concentrar ainda mais nas big techs o desenvolvimento da IA. “Falta uma perspectiva mais holística” – uma regulação que, além de estabelecer proibições e sanções, também “calibre incentivos”, afirma.
Giovanni de Holanda encerrou a palestra citando o historiador italiano Carlo Ginzburg: “às vezes, é preciso se subtrair ao rumor”. Em outras palavras, é necessário se afastar do fluxo constante de informações diárias para conseguir analisar o presente a partir de uma perspectiva mais ampla e lúcida. “O labirinto não é só uma série de barreiras e obstáculos, é o monstro interno que cada um carrega, e que precisa ser vencido”, reflete. Evocando o conceito filosófico de frônese – sabedoria prática, ou o uso sábio da técnica –, Giovanni acredita que a razão é o fio de Ariadne que pode salvar a humanidade desse minotauro moderno: a IA como ela aparece nos nossos pesadelos.
IA na pesquisa científica
O 12o E.T.I. contou ainda com palestra da pesquisadora do CTI Angela Alves sobre a recém-lançada Portaria CNPq 2664/2026, que institui a Política de Integridade na Atividade Científica e normatiza o uso de IA na pesquisa. Para Angela, a portaria acerta ao não proibir o uso da Inteligência Artificial, mas deixa brechas ao depender demais do senso de ética e responsabilidade dos pesquisadores: “a responsabilidade humana anda bem flexível; eu me sinto muito cética quando leio isso”, afirmou.
O Encontro pode ser assistido na íntegra no canal do CTI Renato Archer no YouTube.

